Cena do filme Give Me Liberty
Reprodução/D.R

‘Give Me Liberty’: uma história saída de um jarro difícil de abrir

O filme estreia-se a 21 de maio no Filmin, Videoclubes das Televisões e Plataformas VOD

Give Me Liberty, ou em português Liberdade, faz-nos pensar sobre duas dificuldades primordiais: como sobreviver enquanto imigrante, e como ser cegamente boa pessoa. A narrativa é inspirada em momentos da vida do próprio realizador, Kirill Mikhanovsky, — talvez por isso a construção seja tão dispersa. Parece que tudo acontece baseado num sistema de memórias: vê-se um conjunto de imagens e rapidamente já surgem outros planos noutro local.

Acompanhamos o protagonista, Vic (Chris Galust), de família russa, que vive e toma conta do seu frágil avô. Para conseguir ganhar algum dinheiro, Vic é um jovem esforçado que trabalha com uma carrinha de transporte de pessoas debilitadas física e psicologicamente.

Num dia como outro qualquer, está atrasado para o trabalho. O pior é que quanto mais tenta despachar-se, mais eventos parecem ocorrer para dificultar tudo. Esta longa traduz-se mesmo naquela frase típica: quanto mais pressa temos, parece que mais atrasados ficamos. Tudo piora quando um conjunto de idosos e um suposto sobrinho precisam de boleia para o funeral de uma habitante do prédio de Vic.

Em alguns momentos podemos considerar que estamos a ver um road movie, mas a verdade é que também há muitos acontecimentos fora da carrinha. As personagens estão aqui e ali ao longo do filme, nunca chegamos a conhecer profundamente ninguém, nem mesmo o protagonista, embora criemos empatia com ele. Sabemos que não tem uma vida fácil, mas continua a tentar ser uma boa pessoa.

As próprias condições em que vivem todas aquelas pessoas — num prédio que parece ser só habitado por imigrantes — traz uma certa crítica à forma como os imigrantes são recebidos nos Estados Unidos, mas nada é aprofundado.

No caos fica difícil encontrar sentido

Give Me Liberty passa uma boa mensagem geral e tem momentos comoventes com uma cinematografia a condizer,  mas o problema é a falta de organização. A longa quer dizer muito e acaba por se perder na sua própria jornada. A edição é uma das maiores falhas do filme — há muitos cortes abruptos e perdemos o norte do tempo e do espaço em que estamos situados. Mesmo tendo muita atenção, o máximo que pode acontecer é fazer-se suposições e diversas interpretações sobre os temas que o filme vai trazendo para o ecrã. Nada é explícito e o implícito não ficou bem explorado. Há, contudo, um símbolo que percorre o filme: um jarro que o suposto sobrinho da senhora que faleceu tenta constantemente abrir — pode ser interpretado como um problema que demora a ser resolvido, mas que acaba em bem quando existe união e compreensão.

Apesar de tudo, no filme fica muito bem demonstrado o stress de Vic e o caos geral dos Estados Unidos. Além disso, a longa apresenta um toque cómico leve que contrasta com o drama sempre presente. Fala-se muito dos protestos que vão acontecendo em bairros mais pobres, o que aponta para uma certa crítica social. Aqui entra também a violência da polícia e a quantidade de pessoas que são levadas pela maré e presas sabe-se lá como. Neste quadro, é também sugerida a questão do racismo na América. Mais uma vez, nada é aprofundado, o que demonstra que o filme apresenta os problemas. A falta de organização e posição levam a que o espetador não consiga criar uma reflexão completa sobre os temas.

O filme é esquecível em termos narrativos, deixa muitas pontas soltas, mas a sensação que cria no espetador permanece. Não é  um bom filme para pessoas mais ansiosas, porque vão estar a ser confrontadas sempre com um novo problema e quando parece que tudo está resolvido aparecem mais. Porém, é uma obra desafiante e dinâmica que depende muito da interpretação ativa do espetador, não sendo por isso aborrecida para quem aceitar a proposta.

Give Me Liberty foi premiado, este ano, com o Independent Spirit John Cassavetes Award. Em 2019, conquistou cinco prémios e esteve nomeado para o Sundance Film Festival.

‘Give Me Liberty’: uma história saída de um jarro difícil de abrir
O filme é esquecível em termos narrativos, deixa muitas pontas soltas, mas a sensação que cria no espetador permanece. Não é  um bom filme para pessoas mais ansiosas, porque vão estar a ser confrontadas sempre com um novo problema e quando parece que tudo está resolvido aparecem mais. Porém, é uma obra desafiante e dinâmica que depende muito da interpretação ativa do espetador, não sendo por isso aborrecida para quem aceitar a proposta.
5.8

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