Amybeth McNulty em Anne With an E
© chris reardon

‘Anne with an E’: podem os fãs salvar a série?

Anne with an E foi cancelada em novembro de 2019, de forma completamente inesperada. A série canadiana que se baseia nos livros Ana dos Cabelos Ruivos, de L. M. Montgomery, foi originalmente emitida pelo canal canadiano CBC, mas é distribuída internacionalmente pela Netflix. Sem direito a explicações, mas com muita persistência, os fãs não desistem desta série e pedem que seja renovada através de uma petição online que acaba de ultrapassar as 500 mil assinaturas.

O cancelamento da série foi anunciado a 25 de novembro do ano passado, através de um comunicado conjunto da Netflix e da CBC. Afirmaram que tinha sido emocionante “trazer a história canadiana de Anne with an E a espectadores de todo o mundo” e que estavam “agradecidos às produtoras Moira Walley-Beckett e Miranda de Pencier e ao talentoso elenco e equipa pelo seu incrível trabalho em partilhar a história de Anne com uma nova geração“.

No entanto, este anúncio não trouxe uma justificação para o cancelamento da série e os fãs não ficaram satisfeitos. “Esperemos que os fãs dêem tanto amor a esta temporada final como nós, e que traga uma conclusão satisfatória à viagem de Anne“, lia-se no comunicado. Esta notícia trouxe confusão, já que se pensava que Anne with an E teria em cima da mesa um acordo para cinco temporadas desde que estreou em 2017.

Os fãs rapidamente demonstraram a sua tristeza pelo cancelamento da série e surgiu o movimento #RenewAnneWithAnE a pedir que fosse renovada. A criadora da série, Moira Walley-Beckett, foi partilhando várias mensagens no seu Instagram sobre esta notícia. “Eu gostava que pudesse ser diferente, mas não pode“, lê-se numa publicação inicial. Mais tarde, agradecendo o esforço dos fãs, escreveu: “não há mesmo nenhuma maneira de Anne With an E renascer neste momento“.

A 7 de dezembro, a criadora deixava mais uma vez claro que não haveria qualquer possibilidade de renovar a série. “Por favor saibam que nós também lutámos. Tentámos fazê-los mudar de ideias. Tentámos encontrar uma nova casa. Tentámos um filme final… Demos o nosso melhor“. Além disso, partilhava finalmente algumas razões que podiam explicar a decisão. “Arte e Comércio nunca é um casamento fácil. Costumo achá-lo inexplicável. Este é um desses momentos. Mas é impossível discutir contra palavras como Economia, Algoritmos, Dados demográficos, etc. Mas estas palavras e outras como elas são a razão por que as empresas não querem continuar.

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I love you so much for trying so hard and fighting a fierce fight with your big hearts and beautiful souls. You are a force of nature. Look at this amazing artwork inspired by love for ANNE WITH AN E!! I mean, I am amazed and so grateful. I have been moved to tears so many times in the last few weeks… so many, many tears. This is my child. I birthed her, I helped her grow, I cherish and adore her. AnnE means everything to me 🧡 Please know that we fought, too. We tried to change their minds. We tried to find a new home. We tried for a finale movie… We tried our best. “Next to trying and winning, the best thing is trying and failing.” LM Montgomery said that. Either way, we tried 🧡 Art and Commerce is never an easy marriage. I often find it inexplicable. This is one of those times. But it’s impossible to argue with words like Economics, Algorithms, Demographics, etc., etc. But those words and others like them are the reason why the Networks don’t want to continue. And we didn’t find a taker anywhere else 🧡 I know you’re upset and disappointed, sad and angry — I completely understand — because our beloved AnnE has been snatched away. If there was something more to do I would do it 🧡 So now you know what I know. I guess this is a tragical romance after all. But then again love is love is love is love is love. And love is not lost when it is nurtured. We will always love our Anne with an E. We will always love Green Gables with our whole hearts and everything it stands for. They can’t take that away from us 🧡 I love you so much. Thank you for fighting and loving my AnnE as much as I do 🧡 Artwork by @emeriart and @luztapiaart #annewithane #awae #family #kindredspirits #foreverandaday 🦉🧡

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Os fãs não desistem desta história de perseverança

Apesar destas mensagens da criadora, os fãs continuam a lutar para que seja renovada. Excluindo as palavras de Moira Walley-Beckett, o silêncio é o mais comum sobre o destino de Anne with an E. Por isso, os fãs decidem inundar as redes sociais da Netflix e da CBC, por todo o mundo, com mensagens sobre a série, para que não seja esquecida. Afinal, a própria história da série é uma de perseverança.

Estreada em 2017, Anne with an E tem três temporadas. Passa-se na viragem do século XIX para o século XX e conta a história de uma menina orfã que tem de lutar contra várias adversidades ao mudar-se para um novo lugar. Anne luta por se integrar na sua nova comunidade, à medida que a vemos crescer de criança a adolescente.

Mary e Bash de Anne With an E
Reprodução/D.R

Além desta narrativa de amadurecimento, Anne with an E retrata vários temas que permanecem atuais. Apesar de se passar num tempo tão distante, a série discute temas que muitas vezes são esquecidos em séries ou filmes de época. Anne with an E tem sido elogiada pela sua representação de uma sociedade patriarcal, da xenofobia, bullying, racismo, homofobia e heteronormatividade vividos na época. Também aborda o feminismo da altura e todos estes temas são olhados com os olhos do presente, através da personagem de Anne.

Esta é uma das razões que faz os fãs gostarem tanto da série. “É uma série que trata de tudo, não é só focada na Anne, conseguem puxar muito a personalidade e as histórias de cada personagem“, explica Lara Costa, uma fã da série, de 23 anos. “A adaptação que foi feita foi muito para chamar a atenção para assuntos que já existiam na altura, mas que se calhar não se falava tanto, como é o caso do racismo, como os direitos LGBT, o machismo que na altura se sentia muito, mas que acaba por ser intemporal, e a série consegue tratar disto tudo de uma forma muito leve, mas ao mesmo tempo também entretém quem está a ver. É um equilíbrio que realmente é diferente e que não se encontra muito facilmente noutro programa“.

A inspiração de Anne

Manifestação pela liberdade de expressão na série Anne With an E
Reprodução/D.R

Outra fã, que gere a conta Anne with an E Portugalexplica que a série inclui ainda alusões ao movimento Me Too e “mistura a falta de escolha que a mulher tinha antigamente, mas consegue ser moderna ao mesmo tempo porque a personagem principal tem outra visão sobre o mundo, tem uma visão mais à frente e é como se fosse quase do século XXI“.

A personagem principal é uma das maiores inspirações para os fãs da série, já que Anne luta contra injustiças e mostra-se a favor da liberdade de expressão ao longo dos episódios. “Tendo em conta o espírito da série, tendo em conta a personagem que é a Anne, eu pensei: ‘fogo, a Anne não ia gostar disto’ ou ‘a Anne se estivesse nesta posição o que é que ela faria?’ E então foi esse o espírito que toda a gente acabou por ter“, explica Lara sobre a movimentação dos fãs para que a série seja renovada.

Em abril, a CBC anunciou que passaria a bloquear qualquer comentário sobre Anne with an E das suas redes sociais. Por outro lado, a Netflix limita-se a não responder aos comentários sobre a série. “Na altura achou-se um bocado um ataque à liberdade de expressão“, algo por que as personagens da série lutam em vários episódios, “e a Netflix nada fez“, explica a responsável pela conta Anne with an E Portugal.

O corte de relações entre a CBC e a Netflix

O silêncio sobre o futuro da série por parte da Netflix e da CBC pode também ser um indicador da instabilidade entre as duas empresas. Segundo a Digital Spy, a CEO da CBC, Catherine Tait, comparou a presença da Netflix no Canadá a uma força imperialista, em janeiro do ano passado.

Avancemos rapidamente para o que acontece depois do imperialismo e os danos que pode causar às comunidades locais. Então, tudo o que eu diria é: tenhamos em mente como nós, canadianos, respondemos às empresas globais que chegam ao nosso país“, afirmou Tait. Em outubro do mesmo ano, ainda antes da série ser cancelada, a CEO do canal disse: “não vamos fazer acordos que magoam a viabilidade da nossa indústria doméstica a longo prazo“, insinuando que a CBC deixaria de colaborar com a Netflix.

Para Lara Costa, este pode também ser um motivo para a falta de respostas da Netflix. “É estranho não dizerem nada, mas se calhar receberam mesmo ordens para não divulgar a série, pode ser algo que está no contrato entre eles“, diz a fã.

A falta de promoção

 Amybeth McNulty na primeira temporada de Anne With an E
© Ken Woroner, CBC

Além deste silêncio acerca do destino da série, os fãs concordam que Anne with an E nunca teve a divulgação que merecia. “Durante três anos a Netflix nunca promoveu a série, acho que só a Netflix Brasil e a Netflix dos EUA fizeram dois ou três posts, mas já foi pós-cancelamento“, afirma a fã por trás da página Anne with an E Portugal. “A comparar com muitas séries que eles têm, não houve promoção nenhuma. A maior parte de nós achou a série por achado, ou porque estava na feature do Netflix Originals, não foi por promoção.

Os fãs não compreendem a razão para esta falta de divulgação da série enquanto estava no ar, mas pensam que possa dever-se às audiências. “Antigamente, eu acho que eles não tinham noção da quantidade de fãs e das pessoas que a viam, eu sei perfeitamente que eles devem ter métodos de análise, mas supostamente um dos motivos pelo qual eles cancelaram foi porque não tinham audiência no grupo dos 20-35 anos, ou seja, tinham adolescentes mas não tinham adultos“, explica a fã.

Por esta razão, muitos fãs decidiram criar contas no Twitter para que o seu amor pela série possa ser claramente reconhecido. É através desta plataforma que organizam a sua luta pela série, através de desafios, do uso da hashtag #RenewAnneWithAnEdas respostas à Netflix e da partilha da petição, entre outras ações.

A base de fãs já foi acusada de recorrer a bots ou a contas falsas, mas Lara Costa garante que são pessoas genuínas. A fã conheceu a série há dois meses, “por acaso”, e quando chegou ao fim dos episódios tentou perceber o que se estava a passar. Encontrou a petição e decidiu juntar-se ao movimento: “juntei-me ao Twitter de propósito só para isto“. Explica que muita gente faz o mesmo e que a série reúne muitos fãs abaixo dos 16 anos que preferem não colocar as suas fotografias nas redes sociais e usam as contas apenas para participar no movimento de renovação.

Este esforço digital, organizado pelos fãs internacionalmente, já conseguiu colocar cartazes em Nova Iorque e Toronto a pedir a renovação da série. A própria protagonista partilhou-os nas ruas redes sociais, em janeiro deste ano.

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O caso Sullivan e as teorias dos fãs

No Twitter, onde os fãs se juntam para conversar sobre a série, surgem também várias teorias que tentam explicar o cancelamento de Anne with an E. A mais aceite entre os fãs tem a ver com um processo que se iniciou no verão de 2019. Kevin Sullivan, realizador e argumentista de uma minissérie de 1985 baseada nos mesmos livros, Anne of Green Gables, acusou a CBC, a Netflix e a criadora de Anne with an E de copiarem vários elementos da sua produção que não estavam presentes nos livros.

Para Lara Costa, que é também estudante de Direito, este processo pode ter influenciado a decisão de cancelamento da série. Além disso, seria uma justificação plausível para o silêncio em relação à série, mesmo por parte dos atores. “Isso podia justificar porque é que eles não falam. O problema é terem só dito que está cancelado, ‘esperemos que o final tenha sido do vosso agrado, adeus’. E há esta revolta, à espera de qualquer coisa“, diz.

Além desta, há outras teorias menos sérias que surgem na rede social. Uma delas é a de que os criadores estão apenas à espera que os atores envelheçam para corresponderem às suas personagens na continuação da história. “Nós até gozamos e costumamos fazer tweets em que dizemos: ‘eu tenho a certeza que eles já estão a filmar ou que já há renovação oficial, eles só não nos dizem que é para nós continuarmos a fazer publicidade’, e depois pomos o emoji do palhaço como que a dizer ‘nós somos mesmo parvos, não é nada disto’, mas às vezes gostamos de acreditar que sim“, explica Lara.

 

Além destas brincadeiras, muitas vezes recebem mensagens contraditórias da Netflix que não conseguem desvendar. “Um dos tweets que é mais falado é da Netflix latino-americana que respondeu a um tweet sobre a estreia da série com ‘la fecha’, que significa ‘a data’, e o emoji de um gelado à frente. As nossas teorias da conspiração foi que o gelado significava sherbert, que é o casal da Anne e do Gilbert, e que aquilo era uma espécie de dizer ‘vai haver, vai haver lá para a frente, já temos data’, uma coisa assim do género“, conta-nos Lara.

No entanto, a Netflix já teve de fazer publicações a contrariar várias teorias de fãs e esclareceu explicitamente que a série não irá voltar para uma quarta temporada.

Pode a petição salvar a série?

A petição que pede a renovação da série atingiu na noite desta terça-feira (19) o seu objetivo inicial de 500 mil assinaturas. Tem agora um novo objetivo: 1 milhão de assinaturas. Sempre que se atingiu um novo marco na petição, os fãs esperavam alguma resposta ou mensagem de incentivo que nunca chegou.

Pensei que era o 300 mil que faria a Netflix responder, mas não foi. Depois pensei que era o 350, mas não foi. E depois pensei que era o 400 e fiquei mesmo triste, e já um bocado desanimada, porque eles não disseram nada mesmo assim“, desabafa Lara. “A minha esperança é que seja o 500 mil, mas se for um milhão nós vamos continuar a cá estar, essa é a verdade, mas acho que também merecíamos saber alguma coisa, porque nem sequer a escritora tem dito nada e também é um bocado triste“, continua.

Por enquanto, os fãs continuam sem qualquer resposta e a petição ainda está a crescer. A única petição para renovar uma série que a ultrapassou foi a de Sense8, que garantiu uma resposta da Netflix e a realização de um especial final de duas horas em 2018. Uma das inspirações para o movimento #RenewAnneWithAnE é o que aconteceu com a série Lucifer, que teve uma campanha semelhante no Twitter e acabou por ser renovada por uma nova distribuidora, neste caso a Netflix.

Mas Lara teme que os fãs percam a esperança. “Em relação à fandom, o que vai acontecer e já começou a acontecer a algumas pessoas é desistirem“, explica, “portanto se isto passar a certa altura as 500 mil, as 600 mil e continuar ainda sem haver nem uma migalhinha de ninguém dizer absolutamente nada do que possa acontecer, por muito que continue a crescer atenção para a série, não sei até que ponto depois perde força, e se calhar é isso que eles querem“.

Um final digno

Anne e Gilbert no final de Anne with an E
Reprodução/D.R

Mesmo que a série não tenha as cinco temporadas que estariam previstas, os fãs pedem que haja uma conclusão da história. A terceira temporada “dá alguma conclusão, mas também fica muita coisa em aberto”, explica a responsável pela conta Anne with an E Portugal. “Acabaram por ficar com um final que não é bem final, acabou por não ser tão satisfatório quando se esperava mais duas temporadas”, diz.

Eu acho que só pelo simples facto de toda a equipa, e mesmo a escritora, terem ficado a saber que a série foi cancelada já depois de a terem feito e filmado, e inclusivamente antes sequer de ter saído para o público, acho que já diz que não, que aquele final não era para ser o final“, defende Lara Costa. A fã esclarece ainda que vários arcos narrativos ficaram por concluir, especialmente um sobre o preconceito sofrido pelos indígenas no Canadá. “Essa história não fica terminada, é um dos maiores cliffhangers que nós mais criticamos.” Acrescenta que “é ingrato, como se a Netflix, ao dizer que é um final que eles acham satisfatório”, estivesse a desrespeitar esse povo.

Os fãs irão continuar a luta pela renovação da série e resta-nos esperar para saber o que vai acontecer a Anne with an E.

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