Peter Serrado

Entrevista. “Sunset & a City” mostra quem é Peter Serrado além do Festival da Canção

Dois anos depois de se ter tornado o primeiro artista “desconhecido” a competir no Festival da Canção, a qualificação de Portugal para a Eurovisão, o cantor lusocanadiano Pedro Serrado lança o seu primeiro álbum, disponível desde o início do mês, intitulado Sunset & a City.

Do Canadá para Portugal, em conversa com o Espalha-Factos, o artista fala-nos do seu percurso, do novo projeto, do papel da música em tempos de pandemia e daquilo que ainda podemos esperar do cantor em ascensão.

Durante o Festival da Canção, foste um dos concorrentes com mais apoio por parte do público que, através do televoto, te levou ao segundo lugar e, consequentemente, à final. De que forma é que o Festival mudou a tua vida e, principalmente, a tua carreira?

O Festival da Canção foi um momento único da minha vida, foi a primeira vez que eu cantei num grande palco. Estava acostumado a cantar em palcos mais pequenos, nos cafés, bares, mas, para dizer a verdade, não estava à espera de me qualificar para o Festival da Canção porque o tema era em inglês. Então quando eu mandei a cantiga para a Antena 1, não estava à espera de que eles a fossem escolher, mas escolheram e quando me chamaram eu fiquei bastante contente. Eu e os meus pais, que vivem aqui comigo, vemos todos os anos o Festival da Canção e a Eurovisão, então foi sempre um objetivo que eu queria atingir. Sempre quis participar num Festival da Canção, aliás, queria participar numa Eurovisão, mas quando cheguei lá isso já não era o objetivo. O objetivo era ir ao Festival cantar o meu tema e que as pessoas começassem a conhecer o meu trabalho, isso era o importante, queria fazer o melhor que sabia fazer e conhecer pessoas e aprender. Foi um evento em que aprendi bastante, com os compositores que lá estavam, como o Diogo Piçarra, que eu fiquei com o contacto. Acho que o que mais mudou foi que aprendi muito, coisas que eu nunca pensei como a maneira de escrever, e foi um momento bom que eu sempre vou lembrar. Nunca se sabe se vou outra vez, talvez com um tema em português tenha mais sucesso, mas não esperava ter o apoio que tive, a RTP e toda a gente do Festival aceitou-me com braços abertos e foi muito bom.

Como referiste, antes do festival tinhas já atuado em vários bares, tanto no Canadá, onde cresceste, como em Portugal, e também concorrido e vencido outros concursos. Quando é que percebeste que querias viver da música?

Foi até bastante tarde, sempre gostei de música, cantei e escrevi, mas quando era pequenino a minha mãe pôs-me em muitas coisas: futebol, karaté, atletismo, e quando cheguei aos 18 anos sabia que tinha de escolher uma coisa que gostasse. A música sempre foi uma coisa que me seguiu pela vida e sempre me senti conectado com ela, desde pequenino o meu pai mostrava-me músicas antigas dos anos 50 e eu sempre gostei muito. Aos 18 anos eu era muito envergonhado e ninguém sabia que eu cantava e escrevia, só os meus pais e alguns amigos, depois é que tive coragem e a minha mãe empurrou-me a participar num concurso que existia na comunidade portuguesa. Foi esse concurso que me deu a confiança que precisava, que eu acho que também parte de não ter começado tão novo, como muitos que começam aos 14 ou 15 anos. Não sabia se tinha voz, ou se escrevia bem, e quando fui ao concurso, ganhei e o feedback que recebi foi bastante bom e decidi que ia explorar uma carreira musical e ver até onde podia chegar. Por isso, aos 18.

O teu álbum saiu dia 8 deste mês. Qual é a inspiração por trás de “Sunset & a City”?

Tem várias inspirações, eu sou fã de cinema e então queria um álbum que contasse uma história em várias maneiras. O álbum tem muitos elementos de várias histórias, algumas são pessoais outras não, mas todas as cantigas contam uma história em diferentes fases, com a música, a letra e a produção. E é quase como um filme em que tens o dialogue que conta a história e a música que conta uma outra história. Não sei se faz sentido, mas para mim fez sentido quando tava a gravar. Todas as cantigas têm todas muitas cores, muitos elementos diferente e ficou giro. Mas não tinha um género que estava a tentar ir atrás, não estava só a tentar fazer rock ou soul music, eu escrevi o que senti e essas cantigas saíram dessa fase da minha vida. Tenho mais cantigas para meter num segundo ou terceiro álbum, mas para este álbum escolhemos estes temas que, em conjunto, ficou fixe e fiquei contente. Então sim, a inspiração foi assim, filmes, cinema, que é outra paixão que eu tenho e queria incorporar isso.

Sunset & a City

Lançaste o single ‘Run’ antes do álbum. O que te levou a escolher esta música em particular?

Run‘ é uma cantiga mexida, provavelmente a mais mexida do “Sunset & a City”, há outras, mas esta é a mais upbeat, happy. Tem um som que eu acho que trabalha em vários sítios do mundo, tem um som europeu, mas também americano, rootsie. Além disso, muita gente diz que tem um tom country, mas eu não acho que tenha muito, apesar de ter uma influência porque eu tenho influências country music também. Mas eu acho que foi uma opção com estratégia, onde nós tentamos escolher uma canção que pudesse fazer bem em vários sitos do mundo. E também é uma das minhas favoritas, gosto da história e I like it a lot.

Se tivesses que descrever o álbum em poucas palavras, quais seriam?

Epic, Soulful e free.

O álbum começa com “Lisbon”. Tendo descendência portuguesa, esta cidade tem algum papel especial na tua vida?

Sim, os meus pais são do Alentejo, mas foram criados em Lisboa, na Amadora. Conheço muito bem e sempre que vou a Portugal, vou a Amadora, a Lisboa e à baixa. Escrevi essa cantiga depois do Festival da Canção, porque achei giro ter uma música no meu primeiro álbum que dá valor a um sítio importante para mim. A história da cantiga não é assim muito sobre Lisboa, refere um bocado, mas queria incorporar “Lisbon” de qualquer maneira. Sempre gostei da cidade e é um dos meus sítios favoritos.

A música que te lançou, em 2018, foi a “Sunset”. Esta música tem um lugar mais próximo do teu coração?

Sim, para mim foi o tema que realizou e que começou a minha carreira oficialmente, antes disso não tinha um tema que me deu oportunidade para fazer coisas maiores, e é um tema que vai sempre ser o meu bebé e espero fazer mais “Sunset & a City”, ou melhor. É um dos meus temas favoritos e tinha de fazer parte do álbum porque ele próprio significa um começo, e essa cantiga foi o que começou tudo.

O álbum, em geral, tem uma temática muito romântica. É dedicado a alguém especial?

Não, não… tem histórias de amor, mas gosto mais de escrever sobre outras pessoas, não escrevo muito sobre as minhas experiências românticas. É capaz de ter um tema, assim um bocado mais pessoal, mas as outras não são. Muitas das histórias foram criadas da minha cabeça, mas se há uma pessoa a quem quero dedicar o “Sunset & a City” é aos meus pais. Não são as cantigas que são dedicadas aos meus pais, isso seria estranho, mas sim o álbum em total, o completion do álbum.

As últimas duas músicas do teu novo álbum, ao contrário das outras, são em português. O que te levou a fazer esta mudança?

Era a minha maneira de retribuir aos portugueses e a Portugal, ao sítio que me deixou cantar, no Festival da Canção, e foi a minha maneira de os homenagear. Normalmente não canto em português, nem aqui na comunidade portuguesa em Toronto canto muito. No 25 de abril canto sempre umas músicas do Zeca Afonso, mas isso são as únicas vezes. Mas queria fazer qualquer coisa em português, então tentei escrever alguma coisa, o que não deu. Escrevi então os lyrics em inglês e, através do Festival da Canção, o nosso amigo Rodolfo, tinha uma pessoa que escrevia letras, a Liliana Moreira, e eu dei-lhe o tema, disse-lhe qual era a história e saiu assim“Vou Ficar” e “Longe Demais”. São dois temas que gostei muito e fiquei muito surpreso da maneira que saíram porque trabalhei muito no português, no sotaque, a tentar que ficasse tudo no ponto, apesar de ainda não estar 100% acho que está bom. São duas cantigas bonitas e fiquei muito contente, não sei o que vai dar, espero que as pessoas gostem, não só em Portugal, mas no resto do mundo. Há muitos artistas que põem temas diferentes, em espanhol ou italiano, e português é um bocado diferente. Mas foi uma experiência diferente que não esperava fazer, mas fico contente por ter feito.

Lançaste o álbum e, devido à pandemia que enfrentamos, não o vais poder apresentar, ao vivo, ao público. Como é que estás a lidar com esta situação?

É o que é; é um bocado difícil e chato para músicos e artistas, principalmente para os que estão agora a começar. É sempre difícil ter um projeto e não o conseguir tocar em sítios ou fazer uma tournée, como nós queríamos fazer, uma tournée de rádio e tocar a abrir o espetáculo para alguém. O meu pensamento é torcer que isto acabe pelo melhor. Estamos em casa, saúde primeiro… Para os meus pais, amigos, toda a gente do mundo, isso é mais importante do que música para mim. Música posso tocar aqui em casa, posso fazer lives, e estou a colaborar com outras pessoas aqui pelo Zoom. Estou bem, mas sinto-me um bocado empty sem tocar no palco. Gosto dessa interação com o público, gosto de contar as minhas histórias, tocar os meus temas, mas quando isto tudo acabar e formos lá para fora outra vez, eu sei que vou conseguir fazer isto e estou a preparar aqui tudo, com a ajuda da minha equipa, para continuar onde nós paramos. Estamos a trabalhar muito a partir de casa, todos os dias, mas agora os estúdios também já abriram e isso é muito bom. Espero que isto não volte outra vez e que não impeça mais as coisas.

Referiste as lives que podes fazer nas tuas redes sociais. Já fizeste alguma para levares a tua música até a casa das pessoas?

Não fiz, mas vou fazer um para a semana, talvez na quinta-feira. Vou fazer um mini show concert, e tocar algumas músicas, apesar de já ter feito teasers antes do álbum sair, teasers a cantar uma ou duas cantigas, quase como um countdown para a saída do “Sunset & a City”. Mas para a semana tenciono fazer uma release party e falar um pouco do álbum.

Que tipo de reações é que tens recebido por parte dos fãs?

As pessoas estão a gostar, os fãs estão a gostar dos temas e por isso está a correr tudo bem. No Spotify e na Apple Music, o “Sunset & a City” tem quase 10 mil visualizações, o que não é muito, mas para mim é. Muitas rádio à volta do mundo, com a ajuda da Warner Music e Sony Music, estão a receber o álbum e gostam dele e querem pô-lo in rotation, e isso é algo que eu quero ouvir. Espero que o álbum ou algum dos temas fique in rotation numa comercial radio à volta do mundo, isso é o plano, apesar de ser difícil. Agora as rádios pequeninas, non-comercial radio e indie rádios estão a gostar do álbum e agora é tentar apanhar as big rádios, vamos lá ver. Mas o feedback tem sido positivo, vai sempre ter críticas, mas eu ouço-as sempre, gosto de criticism, isso ajuda-me, mas por agora, tudo positive.

Quais são os planos para o futuro? Algum projeto para breve?

Continuei a escrever… agora é o melhor tempo para isso, porque estou em casa e não saio daqui, então estou sempre a escrever e a colaborar. A minha maturidade de escrever cresceu um bocadinho, todos os dias escrevo e estou a evoluir. Tenho músicas com potencial para fazer outro release, mas agora estamos focados no álbum e talvez no fim deste ano, ou no princípio de 2021, vamos ter um novo single ou um EP com três cantigas, ainda não sabemos, mas estou excited com isso. São temas diferentes do “Sunset & a City”, com mais personalidade minha, as outras também são, mas é mais do que eu faço, mais género roots, mais soulfull e soul music, que é aquilo que gosto.

Com que artistas, nacionais ou internacionais, gostavas de colaborar?

Bryan Adams, for sure, absolutely; Bruce Springsteen; Brandi Carlile; Chris Stapleton, esses são os meus top favoritos, e até Jack Savoretti e Paolo Nutini. Acho que disse muitos, mas tenho uma lista comprida. Não interessaria quem, mas gostava de escrever com eles, gosto muito deles, de como eles escrevem e seria um sonho.

São artistas com que te identificas a nível musical?

Sim, são vozes roucas principalmente, e foi sempre uma coisa que tive dificuldade. Quando fiz a transição de voz, quando tinha os meus 16 anos, foi uma coisa muito esquisita. Nessa altura estive em Portugal e fiz karaoke, a partir daí, a minha voz mudou e fiquei um bocado chateado porque pensava que já não sabia cantar. E essas vozes, do Bryan Adams e Bruce Springsteen, deram-me esperança, porque mesmo com a voz rouca consigo cantar. Gosto muito deles porque me ajudaram em termos de escrita e presença de palco, é por isso que são os meus favoritos.

Como avalias o papel da música durante este tempo em que vivemos?

A música está sempre presente em momentos altos e baixos, felizes ou tristes, e é algo que deixa as pessoas sentir. Neste momento é como se fosse terapia, vemos as pessoas sempre a pôr posts de músicas que ouvem, de lives de artistas, e eu acho que a música ajuda muito as pessoas. Muito mais agora, estamos fechados em casa, e é bom para a nossa mental health ter coisas novas para ouvir, também foi a razão que motivou o lançamento de “Sunset & a City”.

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