Rebecca Coco Edogamhe, Amanda Campana, Giovanni Maini, Ludovico Tersigni, and Andrea Lattanzi em Três Metros Acima do Céu (2020)

Crítica. ‘Três Metros Acima do Céu’ é uma série com sabor a verão

O verão está ainda longe, mas ao som de ‘Estate’, de João Gilberto, damos o primeiro mergulho na nova série veranil da Netflix. Com Lucas Tersigni (Skam Italia) e Coco Rebecca Edogamhe, Três Metros Acima do Céu dá-nos a oportunidade de viver um verão de sonho sem sair de casa. Numa altura em que tudo é incerto, a série da Netflix é a escolha acertada para o resto da quarentena no sofá.

A aposta da plataforma de streaming é baseada no best-seller de Federico Moccio, Tre Metri Sopra el Cielo, que conta a história de um casal de origens diferentes que se apaixona em segundos. Três Metros Acima do Céu segue a mesma linha, mas difere em alguns aspetos e ganha com isso. Para além de uma nova localização, as personagens são todas criadas do zero, tornando a série mais moderna. 

Realizada por Lorenzo Sportiello e Francesco Lagi, conta com oito episódios de cerca de 40 minutos e um elenco nunca antes visto. Coco Rebecca (Summer), Amanda Campana (Sofia), Giovanni Maini (Edo) e Alica Ann Edogamhe (Blue) têm a sua estreia na produção italiana. Andrea Lattanzi (Dario) marca o seu segundo projeto depois de ter participado em On My Skin.

Coco Rebecca Edogamhe e Lucas Tersigni em Summertime
Summer e Ale. | Netflix

O início da Viagem

A costa do mar Adriático é o pano de fundo da série que nos dá a conhecer a história de amor de Summer e Ale. Ambos adolescentes e a viver em Cesenatico, as personagens de Coco Rebecca e Ludovico Tersigni não têm muito em comum.

Summer é introvertida, segura de si mesma, adora andar de skate, enquanto ouve música e odeia o verão. Por essa razão arranja um trabalho no The Grand Cesenatico Hotel para passar o tempo e ajudar a família. Quando a conhecemos parece ter uma vida controlada e com objetivos definidos, mas Summer é adolescente. Tal significa que tem dúvidas e medos em relação ao futuro. Sair da vila onde mora para não acabar como os pais é um dos seus maiores objetivos, mas ao longo da série torna-se cada vez mais distante.

Ale é o contrário: ex-motociclista com um lado wannabe rebelde, mas no fundo é um rapaz doce e simpático. Devido a um episódio na sua vida, que se pode dizer dramático, está a passar por uma crise existencial. Isto e a sua namorada vão tornar a sua vida um pouco mais complicada.

Andrea Lattanzi e Amanda Campana em Summertime
Sofia e Dario. | Netflix

A história de Sofia e Dario

No meio de todos os clichés, incluindo aquele de que os opostos se atraem, surge uma amizade que nos deixa colados ao ecrã a desejar que nada a destrua. Trata-se da história de Sofia e Dario, que vão ser uma lufada de ar fresco e dar à série aquilo que Ale e Summer não conseguem.

Sofia é uma rapariga extrovertida que está a aproveitar o verão para se descobrir, divertir e ir a festas. A sua presença ao longo da série é muito forte, visto que é a melhor amiga da personagem principal. A mesma coisa acontece com Edo e Blue, o melhor amigo das duas e a irmã de Summer. A performance da atriz é muito espontânea, o que contribuiu para o sucesso da personagem que lhe foi atribuída. Ao longo da série, a vida de Sofia é desvendada até chegar ao momento em que temos um pequeno heartbreak.

Dario, pelo contrário, é um rapaz mais pacato e sensato, trabalha numa oficina e mudou-se para Cesenatico pela amizade que tem com Ale. É uma das melhores personagens da série e vai-nos mostrar o seu coração de manteiga ao longo dos episódios. À semelhança de Sofia também gosta de conhecer pessoas, mas a que ele quer não está disponível. 

Com alguns interesses em comum, as suas diferenças sobressaem da melhor forma. Os dois criam uma ligação especial, que acaba por não passar disso. Apesar de não correr como esperamos os dois criam uma amizade que passa a ser um dos pontos mais fortes da história, dando-lhes um lugar no pódio das melhores personagens.

Rebecca Coco Edogamhe e Giovanni Maini em Summertime (2020)

A maldição do cupido

Tal como no verão nem tudo corre bem, Três Metros Acima do Céu também tem alguns aspectos em que deixa a desejar. O primeiro deles é o facto de estarmos perante uma série romântica e haver falta de amor. Ao longo da série percebemos que todas as relações — spoiler — não acabam em nada. 

Se por um lado temos as tentativas de Dario de criar uma conexão forte com alguém, e nunca resultam, por outro há Edo que têm uma crush em Summer e acaba magoado. O mesmo acontece com Sofia. Esta tem também um fraquinho por Summer, caindo no estereótipo de rapariga lésbica que se apaixona pela melhor amiga. Quando esta conhece outra mulher, que realmente a faz feliz, tudo acaba.

O casal principal da história inclui-se nesta onda de má sorte. A relação que ambos mantêm é muito banal, um pouco forçada e nada profunda. Há obviamente momentos que nos fazem sorrir e torcer para que resolvem as suas discussões. Mas nunca ficamos verdadeiramente felizes pelo facto de estarem juntos. Não se está a pedir uma imitação do Endless Love, mas um relacionamento mais profundo. Afinal trata-se de um relacionamento de verão e apesar de a série não querer ser uma deep thinker, só tinha a ganhar. 

Para além de tudo isto, toda a parte romântica da série chega demasiado tarde. Este delay acaba por cortar o efeito de catarse que podia ter existido no fim da série. O espectador não tem tempo de se apaixonar pela história de amor e admirar os pequenos detalhes.

A tragédia familiar

As relações arruinadas não se ficam pela adolescência. Todas as relações dos pais das personagens são também falhadas. Os pais de Summer e Blue, a sua irmã, têm uma relação conturbada. O pai é músico e, por isso, está fora da cidade. A mãe é empregada de mesa pois, de forma a poder tomar conta das filhas, abandonou uma carreira na música. A infelicidade de Isa é notável, porque sente falta do apoio do marido. De vez em quando há algumas discussões em relação ao tema deixando um mau ambiente no ar que rapidamente passa.

Os pais de Ale vão pelo mesmo caminho. Depois de alguns anos juntos e felizes, o casamento parece estar terminado. A crise pela qual Alessandro está a passar não parece ajudar na relação que os dois têm.

Já os pais de Sofia, Dario e Edo, melhor amigo de Summer e Sofia, nunca estão presentes ou a sua presença é muito reduzida. Seria interessante ver um pouco mais das suas histórias, a forma como interagem com os filhos e entre si. 

A Infortuna de Edo e Blue e o problema com o argumento

A narrativa criada à volta destas duas personagens leva-nos a pensar que algo de mal se passou com os argumentistas. De um lado temos Edo: melhor amigo de Summer, Sofia e Blue e adorado por Isa (mãe de Summer e Blue). Edo é um rapaz simpático, demasiado maduro para a idade que tem e, tal como Dario, é sensato. A sua infortuna chega pelo facto de estar apaixonado por Summer. Numa noite beijam-se, mas não falam sobre o que se passou, criando mau-estar na relação. Mais tarde, tem um “relacionamento” com uma rapariga, mas que também termina pois esta só está de férias no país.

Blue, a irmã mais nova de Summer e que mantém uma relação próxima com Edo, parece seguir o caminho da maldição do cupido. Esta tem uma pequena paixão por Edo, que obviamente não tem interesse na menor, que vai terminar da pior forma. De uma forma talvez muito dramática. Este momento é talvez o maior “conflito” ou plot twist da história.

Avancemos para o argumento da série, que é o grande elefante na sala de Três Metros Acima do Céu. Ao contrário de Sex Education, Skam ou outras séries teen, Summertime opta por uma linguagem mais old-fashioned, sem muita ação, falas básicas e sem muito para pensar. Obviamente que isso se ajusta ao tipo de produção, mas a história é a base de tudo. Se os restantes elementos que tornam a série no que é não existissem, Summertime estaria arruinada.

Rebecca Coco Edogamhe, Amanda Campana, Thomas Camorani, Ludovico Tersigni, and Andrea Lattanzi em Summertime (2020)

Afinal o que há de bom em Três Metros Acima do Céu?

Apesar de ter alguns aspetos negativos, Três Metros Acima do Céu continua a ser uma boa aposta. Em primeiro lugar, a série faz um excelente trabalho a dar espaço às personagens. Todos têm a oportunidade de brilhar, crescer e interligarem-se com outras personagens. Para além disso —  e como seria de esperar — os adolescentes vivem uma fase complicada das suas vidas. A série marca mais uns pontos, pois todas as personagens têm uma voz no que concerne a falar dos seus problemas. De certa forma, temos um olhar próximo nas suas vidas íntimas, humanizando cada um deles.

Outro aspeto que é importante referir é o papel da fotografia e música na série. Sem eles, Três Metros Acima do Céu não seria nada. Arrisco-me a dizer que a série tem uma das melhores fotografias que alguma vez vi numa série teen da Netflix. A produção conseguiu aliar da melhor forma as paisagens de Cesenatico, Ravenna e até Roma à história que queria contar. Em Três Metros Acima do Céu, tudo é bonito.

De pop italiano a indie, há um lugar para quase todos os géneros. A música tem um papel de destaque na série. Para além de lhe dar ritmo, é muito bem usada  para percebermos aquilo que as personagens estão sentir. O melhor exemplo disso é com Summer e Dario.

Tre Metri Sopra el Cielo não é uma deep thinker. O objetivo da série é ser puramente sobre o verão de um grupo de adolescentes em Itália. Não há posicionamentos em relação a temas atuais e todas as cenas são leves e fáceis de digerir. Aqui podemos incluir o facto de a personagem principal ser birracial e uma deles LGBTQIA+.  Apesar disto, as personagens não se tornam “ativistas” e apenas vivem a sua vida na história. Outro aspeto relevante é o facto de nada parecer forçado. Tudo acontece de forma espontânea, tirando a relação de Ale e Summer.

Ver ou Não?

A produção italiana é um Sim! Apesar de não ser uma obra prima, tem tudo para nos deixar entretidos e a sonhar com o verão. Numa altura em que queremos pensar em tudo menos no mundo em que vivemos, Três Metros Acima do Céu vem refrescar-nos a mente como uma limonada num dia de calor. 

Rebecca Coco Edogamhe, Amanda Campana, Giovanni Maini, Ludovico Tersigni, and Andrea Lattanzi em Três Metros Acima do Céu (2020)
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