Sterling K. Brown em This is Us
Foto: 'This Is Us' | NBC

Covid-19. 4 consequências da pandemia que vão baralhar a próxima temporada de séries

Por esta altura do ano, os principais canais televisivos americanos já teriam decidido quais as séries renovadas e canceladas, quais as novas séries compradas e como iria ser composta a grelha para o outono. Com a rápida evolução da pandemia de Covid-19 a partir de março, todo este processo entrou em colapso. A cada semana que passa, crescem as expectativas de um atraso generalizado no arranque da temporada 2020-2021.

1. Interrupção abrupta das gravações leva dezenas de séries a terminarem as temporadas mais cedo e sem cliffhangers

Foi a partir da segunda semana de março que os estúdios começaram a interromper as gravações das séries. Orientados por uma filosofia de prevenção, atores e equipa técnica foram enviados para casa. O processo iniciou de forma lenta, mas acelerou a cada dia em catadupa, com mais de uma centena de programas a suspender as gravações.

Grey’s Anatomy foi um dos primeiros casos, o que levou a que a 16.ª temporada ficasse nos 21 episódios, abaixo dos 25 que tinham sido encomendados. Como esta série, muitas outras ficaram com um, dois, ou eventualmente mais episódios por gravar. Dessa forma, a maioria dos season finales ficou sem os tradicionais cliffhangers, isto é, as cenas surpreendentes ou chocantes que encerram uma temporada e lançam os dados para a seguinte.

A paragem abrupta também criou situações delicadas em séries que estavam a gravar o seu derradeiro final. Em casos como The 100, Modern Family, ou Hawaii Five-O, as gravações foram totalmente concluídas antes da pandemia dominar a atualidade.

Empire foi um dos casos atropelados. A suspensão a meio do 19.º de 20 episódios foi seguida da decisão da FOX de riscar os dois episódios em falta, considerando a emissão do 18.º episódio como a efetiva despedida da série. Este volte-face levou os produtores a editarem o 18.º episódio com cenas já gravadas do 19.º episódio, com vista a torna-lo o melhor final possível. Contudo, as falhas na história foram evidentes, com várias linhas da trama por resolver. Ficou a promessa de que o final original será divulgado de alguma forma no futuro: ou gravado, ou com o guião disponibilizado ao público.

Supernatural é o outro caso emblemático que, por agora, tem a promessa de um final mais digno. A série estava a apenas duas semanas de completar as gravações da 15.ª e última temporada. Com o adiamento, a CW optou por não emitir mais episódios; foram para o ar apenas 13 dos 20 encomendados. É provável que o canal utilize os restantes sete para preencher um dos horários no outono e, dessa forma, dar o final merecido à série imortal.

2. Com estúdios encerrados, só um piloto completou a gravação; canais são forçados a decidir compras apenas por guiões

Uma parte importante do processo de encomenda de novas séries passa pela gravação de um episódio piloto, que é avaliado e comparado com os vários produtos do canal. Seria a partir de março e até abril que os pilotos de dramas e comédias eram gravados. Este processo foi quase totalmente anulado com a pandemia, com apenas um piloto – a comédia B Positive – a ser totalmente gravado.

Os executivos da ABC, CBS, CW, FOX e NBC tiveram assim de tomar as suas decisões de forma diferente. Nalguns casos, optaram por encomendar guiões de mais episódios, para perceberem melhor como evoluem as tramas e personagens e ter mais confiança nas escolhas. Ao mesmo tempo, é estudada a possibilidade de os gravar mais tarde, atrasando todo o processo de seleção e estreia das novas apostas. Parte deste lote de pilotos pode ficar retido em consideração até à próxima temporada, enquanto outros podem ambicionar uma estreia no início de 2021.

Foram encomendados para esta temporada 55 pilotos, a maior parte deles já com elencos definidos. De acordo com o Variety, este ano o número de encomendas para séries poderá situar-se entre os 10 e os 20, um valor historicamente baixo e uma queda significativa face às 36 do ano passado.

3. Encomendas atrasadas e renovações por fazer estilhaçam semana das upfronts

O passo natural que se segue à encomenda e à escolha dos pilotos mais fortes é decidir que séries são canceladas e montar a grelha da temporada. Este processo normalmente culmina no início de maio, com as notícias de renovações e cancelamentos a multiplicarem-se até uma sexta-feira negra. Em 2020, ainda são muitas as séries com o destino por traçar.

Os canais concluem este processo logo na semana seguinte, com uma apresentação com pompa e circunstância aos anunciantes, com vista a atrair investimento publicitário para os canais. Os chamados upfronts são um momento chave para cada canal apresentar os trailers das novas apostas e criar buzz na grelha, que é lançada como um pacote.

Este ano, os encontros presenciais foram rapidamente cancelados e, nalguns casos, substituídos por apresentações virtuais da nova grelha. Ao mesmo tempo, alguns canais não estão a cumprir os dias em que tradicionalmente divulgam a programação para o próximo outono. Até esta quinta-feira (14), só a FOX e a CW já tinham tornado públicas as suas grelhas.

4. Fall 2020: a temporada do improviso e incerteza na programação

Com 2020 a tornar-se um ano absolutamente excecional e atípico no mercado televisivo, as atenções centram-se agora na forma como os canais poderão montar uma grelha de programação para este outono. Existe ainda um elevado grau de risco e incerteza quanto às condições de saúde e segurança que permitam aos estúdios a gravação de múltiplos episódios para cada série.

Assim, os canais começam a criar planos de contingência que os protejam o mais possível dessa incerteza. Algumas das opções que parecem estar a ganhar peso passam por atrasar algumas estreias desta primavera para o outono, a aposta em concursos já gravados, ou a compra de séries internacionais ou já exibidas em canais de cabo ou streaming. Dessa forma, paira no horizonte a real possibilidade de a generalidade das séries dos cinco canais só regressar em 2021, já confirmada por dois canais. Resta saber como irão agir ABC, CBS e NBC.

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