Hélder Big Brother
Fotografia: TVI / Divulgação

Big Brother: Portugal no seu pior

O Big Brother diz ter a pretensão de representar a sociedade portuguesa. Infelizmente esta terça (12), no momento protagonizado por Hélder, mostrou que o faz naquilo que temos de pior. 

Não eram ainda 19h, a produção do programa mostra, para os espectadores que, como eu, não tinham visto em detalhe, os momentos de “infração” do participante. Num primeiro instante, o concorrente diz que prefere “ser mulherengo do que…, seguido de um gesto com a cabeça que indica para Edmar, o único concorrente assumidamente homossexual dentro da Casa.

Advertido pela colega Soraia sobre a afirmação inadequada que estava a fazer, que numa fase inicial esta não percebeu o que queria dizer – ou não quis perceber – continuou a enterrar-se, afirmando que ela e Iury não entendiam o verdadeiro sentido do que estava a dizer, numa demonstração de mansplaining que todos dispensávamos. Acrescentou que adora falar com pessoas como o Edmar, e que não o disse por mal – “é uma coisa que as pessoas costumam dizer“.

Este momento, que se prolongou durante dolorosos minutos, apesar de vários alertas dos outros concorrentes, é representativo da forma como muita gente, no nosso país, ainda lida com a homossexualidade. Gays são “um tipo de pessoa“, que alegadamente respeitam, mas “é melhor ser mulherengo do que…“. Um “respeito” que se baseia na ideia, pura e simples, de que “podem existir desde que não seja à minha frente“.

Não é melhor ser mulherengo do que gay. Principalmente se, para Hélder, ser mulherengo representa aquilo que fez na noite de domingo, quando fez comentários sexuais sobre outra colega no programa, Jéssica. No momento em que se conhecem pessoalmente, no confessionário, a primeira frase que dirige à concorrente é “Deixa-me tirar-te as medidas“. De seguida, insinua-se e insiste para que ela cheire o seu perfume. Nos momentos que segue repete, dirigindo-se a Cláudio Ramos, “deixe-me tirar bem as medidas, eu vou começar por trás” e começa a observar Jéssica na parte de trás da cadeira do Confessionário. A TVI publicou as imagens no seu site com o título “Hélder fica fascinado com Jéssica“.

Ele é assim, mas ele é a brincar“, afirma Cláudio Ramos, visivelmente incomodado. “Ó Cláudio, eu acho que ela já está toda molhada“, continua Hélder, passando a mão na cadeira onde a colega estava sentada. Julgo que não preciso de me alongar em comentários sobre o quão errado é fazer este tipo de observações, que configuram assédio, são inapropriadas e ainda se tornam mais inadequadas por estarem a ser transmitidas em direto na televisão, para um público de milhões de pessoas.

A reação à repreensão

Nas primeiras horas de segunda-feira, decorridas as duas situações, as palavras de Hélder ganharam eco nas redes sociais. A TVI reagiu cerca de doze horas depois dos primeiros tweets e anunciou ao início da tarde que o apresentador falaria em direto com a Casa para reagir aos casos de “discriminação sexual“.

Nesta emissão que refiro, foi sendo criada tensão para um grande momento de confronto; a apresentadora Mafalda Castro sublinhava o quão inaceitáveis eram demonstrações de homofobia, assédio sexual ou masculinidade tóxica, lamentando ter de discutir o tema em 2020.

Cláudio Ramos tomou as rédeas da emissão a partir das 19h30, para uma ligação à Casa. Confrontou o concorrente com as imagens, e relembrou-o da gravidade da situação e da possibilidade de magoar e incomodar os espectadores. Referiu ainda a sua própria situação, como “espectador, pai e homossexual“. Confrontado com as imagens, Hélder voltou a não conseguir referir os homossexuais e falou sempre nesse “tipo de pessoas“.

A meu ver, o Hélder evita falar em gays ou homossexuais, ou referir-se às pessoas que conhece e que têm interesse sexual por outras do mesmo género desta forma, porque vê essas palavras como um rótulo que as menoriza. Porque é assim que ele próprio as vê. Porque a sua visão e conceção de masculinidade é este somatório de perceções erradas e, acreditamos, obsoletas.

Quando Hélder regressa à sala, para ir ter com os outros concorrentes, já estava em lágrimas. Confrontado com os erros pelo apresentador, defendeu-se. Não queria magoar ninguém, afirmou ser brincalhão. Lá dentro, recebeu alguns aplausos. A maior parte dos concorrentes aceitou que foram problemas de expressão, uma piada mal sucedida, má opção de palavras. Edmar, o mais visado nesta situação, saiu em sua defesa, sublinhou que o colega não o fazia por mal e que sempre o tratou bem. Mais tarde, quando a discussão continuou, Slávia chegou a afirmar que era “cultural” que Hélder e Pedro Alves não aceitassem ver dois homens a beijarem-se na rua.

Este tipo de reação, condescendente, é a prova de tudo o que está mal na sociedade portuguesa relativamente a este e a outros temas. Falar de outras pessoas como sendo “um tipo de pessoas”, menorizando-as devido à sua orientação sexual e exacerbar modelos de convivência em que um homem “brincalhão” pode dizer tudo o que lhe vem à cabeça porque é homem e “não faz por mal”, enquanto coloca os outros numa situação desconfortável e lesiva socialmente, não é aceitável. Não é politicamente incorreto. É errado.

A TVI, que parecia censurar abertamente as afirmações do concorrente e colocou a voz grossa do Big Brother a dar lições de moral, voltou a mostrar do que é capaz. A braços com um programa que, até aqui, tem sido um falhanço de audiências, decide capitalizar a polémica. Em vez de expulsar o infrator e transmitir uma mensagem clara sobre os valores que defende, abre uma votação em que dá aos portugueses a hipótese de o expulsar, em chamadas para uma linha de valor acrescentado, e alimenta a discussão até domingo. Faturação e audiência num só escândalo.

O canal de Queluz tem esperança de que isto seja o pontapé que nunca mais chegava para levantar uma programação sem brilho e sem alma. Os resultados podem chegar, mas vêm carimbados de desespero, irresponsabilidade e falta de vergonha na cara.

 

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No Big Brother as atitudes sexistas, homofóbicas, xenófobas e racistas são inadmissíveis tal como na nossa sociedade. #BBTVI @tvioficial

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