‘Tenet’: Conseguirá Christopher Nolan trazer as pessoas de volta ao cinema?

O épico de espionagem é o único grande filme de verão a não mudar a sua data de estreia devido à Covid-19.

John David Washington em Tenet, o novo filme de Christopher Nolan
Reprodução/D.R

Todos os estúdios de Hollywood adiaram o lançamento dos seus blockbusters para o fim deste ano ou mesmo até 2021. Mas há uma exceção: a Warner Bros. mantém, até informação em contrário, a data de lançamento de Tenet, o novo filme de Christopher Nolan, para 17 de julho deste ano.

O épico de ficção cientifica, ainda envolto em grande secretismo, como é habitual nas produções do conhecido realizador, está a ser massivamente falado e esperado, mas não apenas por ser o próximo filme de Nolan, arquitecto de blockbusters que conseguem ser populares tanto do lado dos críticos como da audiência. Tenet está a ser perspectivado pela comunidade da sétima arte como um símbolo que consiga fazer com que as pessoas voltem a sair do conforto das suas casas e se dirijam aos cinemas mais próximos.

Enquanto grandes estúdios como a Universal e a Disney adiaram estreias esperadas como F9 (o próximo filme da franquia Velocidade Furiosa) ou The Eternals para 2021, respectivamente, Tenet mantém-se firme na sua data de estreia.

A mente por detrás desta arriscada decisão é a do próprio realizador do filme, Christopher Nolan. Quando os cinemas puderem reabrir, o realizador pretende que o primeiro filme que o público veja seja o seu thriller épico de espionagem e quem o diz é Richard Gelfond, o presidente da IMAX, citado pela Variety: “O Chris quer mesmo fazer o filme que vai abrir os cinemas. Não conheço ninguém na América que esteja a fazer tanta pressão para que os cinemas reabram para o seu filme ser lançado como o Christopher Nolan.”

O realizador prometeu acabar o extenso trabalho de pós-produção e efeitos visuais do filme nas próximas semanas para conseguir cumprir a data de lançamento estipulada. Não é de todo um esforço fácil, na medida em que, devido às medidas de contenção, a maior parte dos membros da equipa técnica terá de ajustar aspectos técnicos do filme à distância.

Nolan escreveu recentemente uma carta aberta no The Washington Post a defender que os cinemas representam “uma parte vital da vida social” e que devem ser preservados. Comprometeu-se também a ajudar os distribuidores de filmes a recuperarem desta queda provocada pela pandemia que pode ser fatal.

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Poderá pensar-se que o lançamento em julho é demasiado optimista dado que existem muitos países ainda com números crescentes de casos da Covid-19. Na América, por exemplo, existe o medo de que o enfraquecimento das medidas de distanciamento social, em estados como o Texas e a Georgia — que começaram recentemente a reabrir as suas salas — vá desencadear uma nova vaga de infeções, tendo como resultado a suspensão dos planos de reabertura dos cinemas. A maior parte das grandes cadeias globais de distribuição de filmes, como a AMC e a Cinemark, não esperam abrir em junho, apontando o mês de julho como uma data mais realista.

No entanto, este desejo do realizador de lançar o filme nos grandes ecrãs é quase expectável quando olhamos para a sua carreira a fundo. Nolan é já considerado um realizador da velha guarda em Hollywood, porque é dos poucos na indústria que ainda prefere gravar em filme ao invés do digital, na linha de Quentin Tarantino ou Paul Thomas Anderson. Em entrevista ao El Mundo, afirmou que só faz filmes para serem vistos no grande ecrã e que nunca terá intenções de vir a trabalhar com a Netflix. Tenta evitar ao máximo o uso de efeitos especiais, preferindo o uso de efeitos práticos. Por exemplo, para fazer Dunkirk, usou modelos iguais às aeronaves da I Guerra Mundial, quando podia ter feito tudo em computador. Havendo um realizador que queira tanto colocar-se na linha da frente para tentar salvar o mundo do cinema, é fácil adivinhar que seja Nolan.

As razões desta decisão

Tenet tem, à partida, tudo para ser um elemento essencial para que as pessoas queiram tentar voltar à normalidade e ir ver um filme ao grande ecrã. O seu enredo de suspense e ação ainda não tem detalhes conhecidos, mas aponta para temas de viagens no tempo, espionagem e guerra, e que aliado às  grandes filmagens que se fizeram a nível global, sugerem o escopo de um filme que promete ser uma verdadeira experiência nas salas de cinema. A acrescentar a isto, espera-se uma história tipicamente épica de Nolan, que tentará anunciar que é de facto seguro voltarmos a sair de casa para ver grandes produções de Hollywood.

No papel, a ideia de manter a data de 17 de julho é uma ideia vencedora. Os anteriores filmes do cineasta, como O Cavaleiro das Trevas, Interstellar, A Origem, e o mais recente Dunkirk, foram todos grandes sucessos de bilheteira a nível mundial.  Em Portugal, os últimos filmes de Nolan ultrapassaram maioritariamente a barreira da receita de um milhão de euros, segundo dados do ICA. Destaca-se A Origem, de 2010, o filme mais visto do realizador em Portugal, com uma receita de 1 891 000, 86 milhões de euros.

A Warner Bros. tem em Nolan um forte aliado na defesa pública da indústria cinematográfica pela experiência no cinema, contra as plataformas de streaming. Esta parceria entre a produtora e o realizador já rendeu cerca de 4,12 mil milhões de euros desde 2002, data de lançamento de Memento, o primeiro filme de Nolan a ser produzido pela Warner. Bros, e o segundo da carreira do cineasta. Chris é uma aposta mais do que segura para a Warner. se sentir minimamente em segurança para manter a data de lançamento do novo filme.

Mas com um orçamento de produção a rondar os 184 milhões de euros, e tendo sido filmado em sete países diferentes, tornando-o num dos filmes mais ambiciosos de sempre da carreira do cineasta britânico, Tenet não pode dar-se ao luxo de estrear apenas em áreas que não estejam a ser tão afetadas pela Covid-19. No caso americano, o filme vai ter dificuldades em tornar-se lucrativo se não conseguir estrear em Nova Iorque ou Los Angeles, as cidades onde mais se vai ao cinema nos Estados Unidos. A audiência internacional também tem aqui um papel importante, sendo que há países como a Noruega e a República Checa que começaram lentamente a abrir os seus cinemas, mas, para o filme ter um lucro substancial, os principais mercados internacionais têm de regressar à atividade antes que a Warner Bros. avance com a estreia de Tenet.
Tenet tem data de estreia marcada para 17 de julho.
John David Washington e Robert Pattinson em ‘Tenet’

O novo contexto em que vivemos é de grande instabilidade a todos os níveis, onde nunca sabemos se o dia seguinte nos reserva o abrandar da pandemia ou, drasticamente, uma nova vaga de infeções. As grandes decisões são tomadas dia-a-dia, de acordo com as previsões mais recentes, e a expectativa neste caso é que a Warner Bros. decida durante a próxima semana se mantém a data de estreia de Tenet para 17 de julho ou se adia o filme uns meses, mais próximo do fim do ano. Há aqui fatores que precisam de ser bem analisados: caso a Warner Bros. queira fixar o lançamento a 17 de julho, terá de reavivar as campanhas de marketing, mas para isso terá de ter a certeza que é possível lançar o filme nessa altura. Caso contrário, o estúdio irá gastar milhões de euros para promover o filme, para no fim o ter de o adiar uns meses. Até ao dia de redação deste artigo, 8 de maio, a decisão pode pender para qualquer dos lados.

Como vai ser o verão?

Em teoria, Tenet vai iniciar a tradicional época dos grandes filmes de verão, sendo que estão planeadas estreias como a de Mulan (24 de julho), a sequela de Spongebob (7 de agosto) e Wonder Woman 1984 (12 de agosto) para as semanas subsequentes. Mas estas datas permanecem igualmente incertas. A grande esperança é que os filmes, em particular aqueles considerados verdadeiros eventos cinematográficos, consigam trazer as audiências de volta ao escurinho das salas. Filmes como Tenet, Mulan e Wonder Woman 1984 podem ser aquilo que a audiência precisa, verdadeiros espectáculos de entretenimento, que façam com que as pessoas esqueçam durante duas horas a negra realidade que hoje nos rodeia.

Mulher Maravilha 1984
Fotografia: Divulgação/Warner Bros Pictures

Paul Dergarabedian, analista da Comscore, citado pela Variety, diz que serão os “blockbusters de alto calibre a conseguir fazer com que as pessoas retornem às salas de cinema.” Explica também que as pessoas, tendo permanecido nas suas casas durante o período de confinamento, andaram maioritariamente a ver filmes antigos ou a rever séries de televisão, estando ansiosas para ver algo de novo.

No Reino Unido, há esperança de que as coisas corram bem. Em entrevista à BBC, Tim Richards, chefe executivo da distribuidora de filmes Vue Cinemas, disse estar confiante de que as portas se vão abrir a tempo da estreia de Tenet. “Podemos controlar a tempo inteiro a quantidade de pessoas que vão ao nosso cinema. Temos a capacidade de agendar os filmes separadamente e de controlar a entrada e a saída de público”, assegurou.

Porém, antes de qualquer decisão os proprietários dos cinemas terão de convencer as pessoas que é seguro voltar, apesar da desconfiança generalizada. E não nos podemos esquecer da segurança que os trabalhadores dos cinemas precisam igualmente de sentir no exercício das suas atividades. Todo este tipo de garantias precisam de ser transmitidas ao grande público antes dos filmes começarem a estrear, sob pena de não haver qualquer lucro na manutenção das datas de lançamento.

O mundo do cinema não vai voltar a ser o mesmo (por enquanto)

O que se espera é uma mudança de paradigma na forma como as grandes estreias se vão desenrolar. Estamos habituados a chegar a qualquer cinema e ver uma panóplia de cartazes com inúmeros filmes em exibição, distribuídos por todas as salas. Este ano as coisas serão bem diferentes. Por estarem confirmados poucos filmes a estrear durante o verão, a competitividade para ganhar o bilhete do espectador também é mais reduzida. Em circunstâncias normais, distribuem-se horários limitados a cada filme em exibição, que tem direito a uma, no máximo duas, salas para ser exibido durante um cada vez menor período de tempo. Em julho, as distribuidoras poderão reservar todas as salas e horários disponíveis, ainda que limitados ao nível de flexibilidade e audiência permitida, a Tenet.

Se tudo correr como planeado, em Tenet, vamos ter um elenco composto por estrelas, que vai desde John David Washington, Elizabeth Debicki, Robert Pattinson até Michael Caine. Vamos ter Mulan, uma adaptação live-action do filme animado da Disney de 1998, já considerado um clássico. Vamos ter Wonder Woman 1984, de Patty Jenkins, a sequela de um dos melhores filmes de super-heróis dos últimos anos. Mas não sei se vamos ter público.

Talvez retornemos à época dos anos 60 ou 70, em que não existiam tantas estreias, nem o frenesim de ir correr a ver todos os títulos que estavam em cartaz. Vai haver espaço para os filmes, os que puderem e conseguirem estrear, respirarem e serem encarados de outra forma, talvez ficarem na mente do espectador durante mais tempo. Não sei se o cinema precisava de uma mudança tão drástica assim — se é melhor ou pior depende da concepção de cinema de cada um. Mas, sendo a única forma de fazer com que a indústria sobreviva, cabe-nos apenas aceitar e esperar por dias melhores.

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