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Festivais. As consequências do cancelamento vão além do setor da música

O impacto atinge vários setores

Após o cancelamento de todos os festivais que iriam realizar-se até dia 30 de setembro, é hora de avaliar o impacto que esta decisão acarreta. As consequências não se revêem apenas nas organizações dos vários festivais, mas também noutros setores como a restauração, empresas de audiovisuais ou turismo local.

Para concretizar um evento, são precisas centenas de pessoas que, mesmo sem dar a cara, trabalham meses consecutivos para permitir a sua realização. Desde a organização até às equipas responsáveis pela comunicação, bem como os técnicos que permitem que a magia aconteça, muitas funções foram postas em causa. Além das pessoas envolvidas diretamente no processo, a própria cidade onde se realiza também irá sentir o impacto. Desde a restauração, ao comércio local e ao alojamento, são vários os setores que sofrerão com a ausência dos grandes eventos que, para muitas empresas, significavam o pico da faturação anual.

Quando o plano B tem de ser posto em prática

O Espalha-Factos conversou com Gustavo Pereira, organizador do Neopop Festival, para perceber o impacto que está a sentir ao ver a 15.ª edição ser adiada. Esta seria uma data especial a celebrar em agosto e, apesar da tristeza envolvida no cancelamento, admite que esta foi a melhor opção porque “o espírito do festival também não seria o mesmo, não estamos em tempos de celebrações”.

Gustavo Pereira, porta-voz do Neopop Festival
Gustavo Pereira, porta-voz do Neopop Festival, que se realiza em Viana do Castelo. Fotografia: Divulgação

Na verdade, a possibilidade de avançar com o cancelamento do festival já estava em cima da mesa desde que o novo coronavírus foi decretado pandemia mundial. Fomos aguardando pacientemente, até que percebemos que o tempo continuava a passar e os bilhetes não saíam”, admite o responsável. Isto deve-se não só ao panorama nacional, mas também ao facto de 40% do público ser estrangeiro. O primeiro passo a dar nesta longa caminhada passou por “entrar em contacto com os artistas, não para cancelar, mas sim para os manter a par da situação e perceber também qual era a abertura por parte dos agentes e fornecedores”.

Também João Carvalho, organizador do festival minhoto Vodafone Paredes de Coura, admitiu à Blitz “que já se encontra a trabalhar num plano B para a 28.ª edição do festival, que se realizará em 2021”. Para além dos dois festivais que se realizam no norte do país, também outras entidades anunciaram, logo após o cancelamento, que irão divulgar o cartaz em breve.

É natural que os grandes eventos estejam prevenidos para as eventualidades, apostando por isso num seguro. Porém, Gustavo revelou que o Neopop “tem um seguro de eventos que cobre catástrofes naturais mas, infelizmente, não cobre este tipo de situações relacionadas com o vírus”, pois é uma situação que não se previa.

O impacto sentido pelas organizações

As consequências causadas pelo cancelamento dos grandes festivais são difíceis de gerir, uma vez que não estão dependentes dos organizadores. Desde os postos de trabalho que deixam de estar assegurados, até às perdas para as Câmaras Municipais — uma vez que os eventos servem também como fonte de circulação económica — são alguns dos pontos irremediáveis deste panorama. “Há muito prejuízo envolvido e muitas horas de trabalho perdidas. Já para não falar no investimento, tanto humano, como financeiro. É, sem dúvida, muito difícil conseguir aguentar o barco de um ano para o outro, realça Gustavo Pereira.

Para além das empresas envolvidas na organização de um festival, também as localidades onde os mesmos se realizam serão gravemente afetadas. É o caso de Viana do Castelo, a cidade que recebe o festival de techno.

Todos os anos temos apoios da câmara e uma forte parceria. Mas, na verdade, o apoio que eles nos dão traduz-se em 4 ou 5 milhões de euros de retorno económico para a cidade. Não estamos a falar propriamente de umas centenas de euros ou milhares de euros.”

João Carvalho, responsável pela Ritmos, empresa que organiza os festivais Vodafone Paredes de Coura e NOS Primavera Sound
João Carvalho, responsável pela Ritmos, empresa que organiza os festivais Vodafone Paredes de Coura e NOS Primavera Sound (em parceria). Fotografia: Divulgação

O comércio local, bem como os alojamentos, sofrerão também cortes que se irão refletir na economia. “Não posso deixar de pensar nas centenas de pessoas que ajudam a erguer este festival, e que hoje passam dificuldades por falta de trabalho. Não posso deixar de pensar no comércio Courense para quem o sucesso financeiro do ano dependia muito do festival“, partilha João Carvalho nas suas redes sociais, após a publicação do comunicado oficial.

Segundo uma análise da CISION, o cancelamento destas iniciativas irá refletir-se também numa perda de mais de 190 milhões de euros de retorno para as marcas que patrocinam os dez festivais portugueses mais mediáticos em Portugal.

O futuro do setor

Álvaro Covões, diretor da organizadora de eventos Everything is New
Álvaro Covões, diretor da organizadora de eventos Everything is New, responsável pelo NOS Alive. Fotografia: Filipe Amorim / Global Imagens

Álvaro Covões, diretor da Everything is New, responsável pela organização do festival NOS Alive, afirma à Blitz que o uso de vales ao invés do reembolso dos bilhetes é uma medida de proteção para o setor. O responsável de um dos maiores festivais realizados em Portugal, justifica na mesma entrevista os motivos para querer avançar com o procedimento, caso o Governo assim o permita. “Estão a dizer que os festivais não podem acontecer. Então, se não podem acontecer têm de dar alguma coisa e a única coisa que podem dar é exatamente isto: o consumidor compra um bilhete para a edição deste ano, como não podemos organizar porque eles não deixam, dão um vale que pode ser utilizado até final de 2021. É um ponto de equilíbrio”, refere.

O porta-voz do Neopop, acrescenta a necessidade que sente enquanto representante do festival em receber mais esclarecimentos por parte do Governo.

“Acho que, neste momento, o Governo está a falhar redondamente na divulgação do plano de desconfinamento e do regresso à atividade deste setor, no que diz respeito a informações mais relevantes e concretas. Quanto mais tempo demorarmos a perceber este plano e decidir quando é que voltaremos a trabalhar, maior será o prejuízo e o impacto negativo no setor.”

A cultura tem sido um dos setores mais afetados, visto que por norma envolve um aglomerado de pessoas, nomeadamente no caso dos festivais em grande escala. Se por um lado existe um plano em andamento para permitir que a economia volte a circular, permitindo que vários comércios regressem ao ativo, por outro a cultura continua estagnada. Sem certezas quanto ao futuro, resta aos organizadores aguardar novas indicações por parte do Governo sobre como proceder. Gustavo Pereira e João Carvalho são alguns dos responsáveis que pretendem promover eventos de inverno, com o objetivo de ajudar a comunidade local, caso o panorama a verificar nos próximos meses assim o permita.

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