Beatles

50 anos de ‘Let It Be’, o álbum que ditou o fim dos Beatles

No dia 8 de maio de 1970, era lançado o que viria a ser o último álbum dos The Beatles, intitulado de Let It Be. O que começou como um projeto de regresso às origens acabou por ser o prego final no caixão da grande história da banda britânica oriunda de Liverpool.

Para celebrar os 50 anos do lançamento de Let It Be, o Espalha-Factos conta a história de como este se tornou o álbum mais divisivo na história da banda, não só entre os fãs e críticos, mas entre quatro rapazes de seus nomes Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr.

A ideia original de McCartney

A ideia original para o que viria a tornar-se em Let It Be surge no final de 1968, altura em que a banda havia terminado as gravações tumultuosas de The Beatles, mais conhecido como White Album.

Com uma banda fracionada, McCartney queria evitar a todo o custo que o ambiente dentro da banda piorasse ainda mais. Surge, então, a ideia de conceber um álbum ao vivo, que precederia o regresso da banda aos espetáculos pela primeira vez desde 1966. Todo este processo seria gravado por uma equipa de filmagens. No documentário Anthology, McCartney descreve a ideia como “ver os Beatles a ensaiarem, fazerem jams, colocarem ordem no grupo e, finalmente, fazer uma atuação algures com um grande concerto”.

Intitulado originalmente de Get Back, o grupo reuniu-se nos estúdios de Twinckenham em janeiro de 1969 para ensaiar. A eles, juntaram-se George Martin, habitual produtor da banda, e uma equipa de filmagens liderada por Michael Lindsay-Hogg.

The Beatles - Let It Be
Os ensaios da banda no estúdio de Twinckenham foram marcados por tensões crescentes entre os membros da banda. (Foto: Linda McCartney / Linda Enterprises Ltd.)

Mas, ao contrário do pretendido, as tensões em estúdio aumentaram progressivamente. A presença da equipa de filmagens e um horário de ensaio caótico contribuíram para o aumento de descontentamento dos membros. Este culminou na saída provisória de George Harrisson do grupo após um desentendimento com McCartney, regressando apenas com o acordo que não iria haver nenhum concerto realizado e que iriam terminar os ensaios no novo estúdio na sede da Apple, editora da banda.

Após um mês de ensaios, a banda deu por terminada a sessão de estúdio com uma atuação ao vivo no topo do edifício da Apple. O álbum, no entanto, só veria a luz do dia daqui a ano e meio depois, em maio de 1970. O que aconteceu?

As misturas de Glyn Johns

Após o término das gravações e filmagens, a banda ficou com material quase infinito para selecionar. Sem motivação para filtrar este material, a banda decidiu atribuir o difícil encargo ao produtor Glyn Johns.

Em entrevista a Jann Wenner em 1970, publicada no livro Lennon Remembers, John Lennon retrata como a banda chegou à decisão de entregarem as cassetes a Glyn Johns. “Deixámos o Glyn Johns fazer a seleção e nós não queríamos saber, deixámos [as cassetes] com ele e dissemos “Está aqui, faz”. (…) Ninguém ligava uns aos outros. Nós íamos lançá-lo numa condição muito má. Eu achava que era bom que assim fosse, para as pessoas verem o que nos tinha acontecido. Não conseguíamos organizar-nos nem tocar juntos”, explica.

Capa Get Back
A capa proposta para Get Back fazia alusão à capa de ‘Please, Please Me’, simbolizando a mudança pela qual a banda tinha passado desde do primeiro álbum. (Foto: Angus McBean)

Glyn Johns apresentou duas versões aos membros da banda, sendo que ambas foram rejeitadas. A primeira correspondia a “um álbum de ensaios, com conversas e piadas entre as faixas. Era assim que queria que fosse Let It Be”, indicou Johns no programa da BBC, The Record Producers. Esta versão foi preparada entre março e maio de 1969. Pelo meio, a banda lançou o single ‘Get Back’, em abril de 1969, e esperava-se que o álbum saísse no mês a seguir. Mas a rejeição da mistura tornou isso impossível.

A segunda versão de Get Back acabaria por ser a base da versão final de Let It Be. Em dezembro de 1969, e já depois de terem lançado Abbey Road, a banda voltou a falar com Johns para voltar a mexer nas cassetes. Desta vez, teria de apenas incluir músicas que apareceriam no filme, que continuava a ser desenvolvido. Um mês mais tarde, a versão apresentada foi também rejeitada.

Phil Spector entra em cena

John Lennon tinha criticado bastante as versões apresentadas por Glyn Johns, e em março de 1970, entregou o encargo de terminar o álbum a Phil Spector. A história diz que Spector apareceu em cena quando foi convidado a trabalhar na música de John Lennon, ‘Instant Karma’, na qual Harrison também participou. E foi dessa sessão que surgiu a ideia de entregar Get Back a Spector.

Apesar da gravação de Abbey Road ter melhorado ligeiramente o ambiente dentro da banda, logo após o seu lançamento Lennon comunicou aos seus companheiros de longa data que iria abandonar a banda. Se a saída de John iniciou o processo de decomposição dos Beatles, o envolvimento de Phil Spector no que viria a ser Let It Be atiçou ainda mais a fogueira.

Alegadamente, no final do processo de masterização, Spector enviou o resultado a todos os membros da banda em conjunto com uma carta a explicar as suas decisões e com a promessa de efetuar qualquer alteração pedida.

Enquanto Lennon, Harrison e Starr ficaram satisfeitos com a mistura final de Spector, McCartney ficou fulo. Este enviou uma carta a Alan Klein, manager da banda, a pedir que algumas mudanças fossem feitas antes do lançamento do álbum.

Paul McCartney abandona Beatles
Numa carta enviada às redações de imprensa do Reino Unido, Paul McCartney anunciava a sua saída da banda.

A ignorância contínua dessa carta por parte de Klein levou à saída de McCartney da banda. Em abril de 1970, foi enviada uma nota às redações de imprensa do Reino Unido pelo próprio Paul a anunciar o lançamento do seu primeiro álbum a solo e, consequentemente, a sua saída da banda.

Entretanto, o grupo lançou o single ‘Let It Be’, e mudou o título do álbum e do filme adequadamente. Como ‘Get Back’ já tinha sido lançado há um ano por esta altura, os restantes membros da banda consideraram que não fazia sentido lançar um projeto com esse título.

Apesar das objeções de Paul McCartney, Let It Be foi lançado a 8 de maio de 1970. O filme seguiria dias mais tarde, a 13 de maio. Nenhum dos membros dos Beatles apareceu nas datas de estreia para a promoção do filme. A banda havia terminado, mas o anúncio só seria formalizado em dezembro de 1974, após vários problemas legais.

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A crítica divide-se

Let It Be tornou-se num dos mais esperados álbuns da história. Nos Estados Unidos, quebrou o recorde de reservas de pré-venda.

Na altura de data de lançamento, as notícias da separação da banda já circulavam e os fãs tinham quase a certeza que seria o último álbum da banda.

À semelhança dos seus outros álbuns, Let It Be tornou-se um sucesso comercial, alcançando o número um de vendas nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Apesar desse sucesso, a receção, tanto da crítica como dos fãs, dividiu-se, sendo o foco das atenções a produção de Phil Spector.

Na revista NME, o crítico Alan Smith defendia: “Se a nova banda sonora dos Beatles é a sua última, irá ser revista como um epitáfio barato, uma lápide de cartão, um final triste e desarrumado para uma banda que limpou e redesenhou o rosto do pop”.

A Rolling Stone dizia: “Musicalmente, passaram na audição. No entanto, no que toca a terem consciência para evitar um excesso de produção sobre a vossa sonoridade e, ainda, de entregarem o vosso futuro a um dos produtores [Phil Spector] mais conhecidos por fazer precisamente este tipo de produções, [os Beatles] não estiveram bem.

Numa perspetiva mais positiva, Willliam Mann para o jornal Times indicava: “Deixem-nos ir ao funeral apenas quando a vida for considerada extinta. De momento, a julgar por Let It Be, a vitalidade corporativa dos Beatles continua tão pulsante como nunca”.

John Gabree, na revista High Fidelity, comparou o álbum numa luz positiva perante o filme e os recentes lançamentos a solo de McCartney e Starr.

Apesar da receção ambígua, o filme Let It Be arrecadou um Grammy e um Óscar na categoria de Melhor Banda Sonora.

Cinquenta anos depois de Let It Be

Em retrospetiva, Let It Be é visto de forma mais positiva pela crítica contemporânea, tendo sido incluído na lista dos 500 melhores álbuns de sempre para a Rolling Stone no 86.º lugar.

McCartney nunca ultrapassou o desgosto sentido por este álbum, e em 2003 lançou Let It Be… Naked, que retrata as músicas do álbum sem os arranjos acrescentados por Phil Spector. Os outros membros mostraram satisfação perante a versão final.

Em 2009, a Pitchfork escrevia numa crítica contemporânea que a “essência de Let It Be é a sua fragmentação”. E talvez não haja melhor forma de resumir toda a história do álbum que esta frase.

Let It Be representa a imagem de uma banda fracionada. Não há outro álbum no catálogo da banda que tenha dividido a crítica e da forma como este álbum o fez. Simboliza o período de deterioração das relações entre os membros da banda e marca o ponto final na história da banda mais influente da história da música.

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