Aclamação de D. Manuel II
Imagem: Joshua Benoliel, 1908 / Wkicommons

Em maio de 1908, o último rei português subia ao trono. Como foram os últimos dois anos de monarquia?

A 6 de maio de 1908, D. Manuel II foi o último rei de Portugal a ser aclamado, após o regicídio a 1 de fevereiro ter atirado para o trono o segundo e mais novo filho do rei D. Carlos I. O novo rei, que nem era suposto sê-lo, reina durante pouco mais de dois anos de instabilidade política. Como foram esses tempos?

O Espalha-Factos traz-te uma pequena contextualização de tempos conturbados, e recomendações de leitura para pores o teu conhecimento histórico em dia.

D. Manuel II chega ao trono após o assassinato do seu pai, o rei D. Carlos, e o do seu irmão mais velho, o Príncipe D. Luís Filipe, a 1 de fevereiro de 1908. A ditadura franquista, como ficou conhecida, foi a razão apontada do regicídio — o ódio ao rei, herdeiro de um poder antiquado, que colocou no poder João Franco na tentativa de estabilizar o governo português, mas conseguindo apenas reunir todos sob um ódio a quem o apontou.

Última foto de D. Manuel II
Última foto de D. Manuel II, tirada horas antes da sua morte em Julho de 1932. Imagem: Wikicommons

Com a morte do rei D. Carlos, um Conselho de Estado reúne-se, composto de políticos que a ditadura franquista tinha tirado do poder. Progressistas e regeneradores criaram uma coligação liderada por um ator independente, convencidos que isso resultaria. Esta estratégia, também adotada pelo novo rei, intendia acalmar os ânimos. Todos pretendiam estabilidade política, mas ela não chegou.

Para acalmar ânimos, em vez de perseguidos, republicanos presos pelo regime franquista foram perdoados. Mas, logo a seguir, o Parlamento e o cenário político português regressam às lutas partidárias e à instabilidade política. Em abril de 1908 decorrem eleições, já convocadas, e o bloco franquista oficialmente desintegra-se.

Sete governos sobem ao poder entre abril de 1908 e outubro de 1910 – uma instabilidade improdutiva que só alimentou a vontade pela mudança do regime. Não havia muito que D. Manuel II pudesse fazer – a sua figura não era particularmente admirada ou odiada, mas sim o trono que ocupava, o poder hereditário que já não fazia sentido para muitos, e onde assentava a culpa da instabilidade (talvez mais no pai do que nele mas, de novo, não era tanto D. Manuel II que o movimento republicano repudiava, mas a própria existência de um rei).

Nas eleições de agosto de 1910 elegeram-se 14 deputados republicanos para o Parlamento.  Não foram números extraordinários, mas representaram um crescimento do Partido Republicano. Mas mais do que isso, essas eleições demonstraram uma divisão entre um país católico ansioso por ordem e outro “liberal” a pedir reformas. Apesar de parecer existir um consenso não admitido pela democratização da política e do Estado, pelo alargamento do sufrágio e da educação, no Portugal de 1910, reformas e estabilidade pareciam inconciliáveis. O progresso foi sendo adiado e a situação tornou-se ingovernável durante o reinado de D. Manuel II.

Mais do que tudo, parecia haver um entender da monarquia, por esta altura, como um vestígio do passado que iria, um dia ou outro, deixar de existir, pois era a república que combinaria com o imparável progresso dos tempos. Como diz Rui Ramos, “em suma, em 1910, em Portugal, ninguém com importância política, nem mesmo o rei, recusava a forma republicana do Estado” (in “Sexto Volume: A Segunda Fundação”, de História de Portugal, dirigido por José Mattoso, pp.339).

No entanto, é um mito dizer que a Revolução do 5 de Outubro foi uma revolta popular que pôs um fim ao reinado de D. Manuel II. Vários foram os atores intervenientes nela, e mais ainda aqueles que, depois de ocorrida, dela tiraram proveito político, mas foi principalmente a vontade de pôr fim a uma rotatividade política que trazia instabilidade, e nada mais, o que parece ter levado o povo a aceitar a República que lhes foi sendo depois anunciada.

D. Manuel II, com o Palácio das Necessidades atacado a 4 de outubro, foge para o Convento de Mafra, onde passa a sua última noite em território português. Daí vai para o Estoril com a sua mãe, a rainha D. Amélia, e a sua avó, a rainha-mãe D. Maria Pia, e partem para Gibraltar, de onde seguem para Inglaterra, onde passará o resto da sua vida em exílio e onde morre subitamente em 1932.

D. Manuel II casa no exílio com D. Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen em 1913
D. Manuel II casa no exílio com D. Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen em 1913. Não têm filhos. Imagem: Wikicommons

O intervalo de tempo entre 1908 e o 5 de outubro de 1910 está ainda pouco explorado. O Espalha-Factos deixa-te algumas recomendações de leitura para explorares mais sobre o tema: uns tentam explicar os tempos conturbados que levaram à implantação da República, outros o que aconteceu durante e depois da revolução, e outros quem foi D. Manuel II.

O Regicídio de Maria Alice Samara e Rui Tavares

Capa do livro O Regicídio de Maria Alice Samara e Rui Tavares
Imagem: Tinta-da-China

É com o regicídio que começa efetivamente o reinado de D. Manuel II. Neste livro, editado pela Tinta-da-China, Maria Alice Samara e Rui Tavares analisam o atentado e as suas interpretações assim como as imagens divulgadas pela Ilustração Portuguesa, que cobriu o acontecimento, e que correram mundo.

O Republicanismo em Portugal: da Formação ao 5 de Outubro de 1910 de Fernando Catorga

Capa do livro O Republicanismo em Portugal: da Formação ao 5 de Outubro de 1910
Imagem: Goodreads

Fernando Catorga, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, procura descrever neste livro, editado pela Casa das Letras, o nascimento do movimento republicano em Portugal como partido, e como isso confluiu na responsabilização da monarquia pelos problemas nacionais. O livro olha o republicanismo antes da sua implementação, incluindo, portanto, durante a duração do reinado de D. Manuel II.

1910: Portugal, Uma Retrospetiva de Maria Alice Samara (Coord. Rui Tavares)

Capa do livro 1910: Portugal, Uma Retrospetiva de Maria Alice Samara
Imagem: Tinta-da-China

Este pequeno livro, editado pela Tinta-da-China com a co-edição do jornal Público e com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, faz parte da coleção “Portugal, uma retrospetiva”, que retrata o país ao longo de anos estratégicos. Em 1910, retrata-se um país que instaura uma das primeiras repúblicas europeias num continente prestes a entrar na Primeira Guerra Mundial, tentando apresentar a complexa dinâmica social de Portugal no início do século XX. Encontram no site da Tinta-da-China e nas livrarias habituais.

O 5 de Outubro de 1910 explicado aos jovens de Carlos Rebelo

Capa do livro O 5 de Outubro de 1910 explicado aos jovens de Carlos Rebelo
Imagem: Goodreads

Este livro, editado pela Plátano, pertence ao Plano Nacional de Leitura e é uma primeira e breve explicação do que levou ao 5 de outubro, e o que aconteceu durante esse dia. Aborda as dificuldades económicas, as crises internacionais e a resultante crise política, problemas que desestabilizaram o país, levaram ao regicídio, e que levaram a tempos conturbados e contestatários a que o reinado de D. Manuel II não sobreviveu, terminando com a proclamação da República.

Lisboa Revolucionária (1908-1975) de Fernando Rosas

Capa do livro Lisboa Revolucionária (1908-1975) de Fernando Rosas
Imagem: Tinta-da-China

Apanhando um alargado espaço temporal, mas focando-se mais no início do século XX, este livro de Fernando Rosas foca-se nos locais em Lisboa onde várias revoluções e manifestações ocorreram. Começando no ano do Regicídio, dá vida aos espaços da capital onde ocorreram os mais marcantes eventos da história de Portugal, que também incluem a Implantação da República e o 25 de Abril.

D. Manuel II, de Maria Cândida Proença

Capa do livro D. Manuel II, de Maria Cândida Proença
Imagem: Goodreads

Esta é uma das poucas biografias completas e unicamente dedicadas ao último rei de Portugal. Último volume de uma série de biografias da Temas e Debates e Círculo de Leitores dos reis e rainhas de Portugal, foi editado em 2008, mas já não se encontra à venda. Apesar de fora de edição, ainda pode ser consultada em bibliotecas ou encontrada em alfarrabistas ou em segunda mão.

D. Manuel II – o último rei de Portugal: a vida desconhecida no exílio de Ricardo Mateos Sáinz de Medrano

Capa do livro D. Manuel II - o último rei de Portugal: a vida desconhecida no exílio de Ricardo Mateos Sáinz de Medrano
Imagem: Goodreads

Editado pela Esfera dos Livros, este livro foca-se principalmente na vida de D. Manuel II em Inglaterra, onde passou o resto da sua vida até 1932, quando morre inesperadamente e sem descendência. O autor tenta traçar um retrato do rei no exílio, que nunca deixou de se mostrar preocupado com a situação portuguesa.

A Amante do Reizinho e outras histórias de D. Manuel II, de Vasco Duprat

Imagem: Amazon / Oficina do Livro

Num tom mais leve, este livro da Oficina do Livro olha para a vida pessoal de D. Manuel II, principalmente para o seu mais conhecido caso com a atriz Gaby Deslys, que conhece em Inglaterra e com quem mantém uma relação até 1911, já no exílio, e tenta recontar a história entre os dois, que coincidiu com os tempos mais conturbados da vida do último monarca português.

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