Michelle Obama
Michelle Obama em 'Becoming' (Netflix)

Crítica. Em ‘Becoming’, Michelle Obama é primeiro humana, e só depois primeira-dama

Becoming não é a história da esposa de Barack Obama, nem a história da única primeira-dama negra dos Estados Unidos da América. É, sim, a história de Michelle Obama. Em papel desde 2018, é agora contada na Netflix, em formato de documentário.

Depois do lançamento do livro com as suas memórias, Michelle deu início a uma digressão pela América para o promover. Digressão esta que, conta, serviu para descomprimir do stress que acumulara ao longo dos anos. As várias arenas esgotadas refletiram o sucesso dos eventos, acabando por expandi-los até ao Canadá e à Europa. O livro em questão, que conta com 24 capítulos, está dividido em três secções: Becoming Me, Becoming Us e Becoming More. O documentário, por sua vez, percorre os acontecimentos de um modo menos sequencial. À conversa com vários moderadores, como Oprah Winfrey, contou histórias de como foi uma vida para a qual não teve qualquer tempo para se ajustar.

A menina da zona sul de Chicago que sonhava alto…

A primeira coisa que ficamos a saber sobre a ex-primeira-dama é que tem um gosto eclético no que toca à música. Uma das várias revelações íntimas que partilha com os espectadores. Afinal, todo o documentário tem como base ficarmos a conhecer a pessoa que é Michelle Obama, sem sombras, sem títulos.

Em Becoming, Michelle Obama realiza uma retrospetiva. Reflete acerca da “trajetória inesperada” da sua vida, mas não sem antes relembrar as suas raízes. Descrevendo-se como “uma menina da zona sul de Chicago“, dedica grande parte da hora e meia que compõe o documentário a reforçar o impacto positivo que a sua família teve no seu crescimento. Para que não restem dúvidas, oferece-nos o testemunho da sua mãe, Marian Robinson, e do seu irmão, Craig. As palavras do seu pai, Fraser, ficam em falta, pois faleceu uns anos antes de a filha completar os 30. Michelle conta que doença lhe roubou o pai, de quem sente imensas saudades. Esta parte do documentário é crucial: conseguimos perceber que grande parte do que Michelle é hoje, à sua família o deve. Cresceu num ambiente saudável e, acima de tudo, rodeada de incentivos. A sua família sempre valorizou a educação.

Michelle Obama e a mãe Marian Robinson
Michelle Obama e a sua mãe, Marian Robinson, que faz várias aparições ao longo do documentário.

No entanto, nem todos tinham esta opinião. Outra grande parte do documentário é o racismo de que foi alvo e, no geral, os condicionalismos que lhe foram impostos devido à sua etnia. Sem meias palavras, Michelle admite guardar rancor de quem outrora a tentou convencer de que a Ivy League era um sonho inalcançável. Este tipo de revelações diretas mostram que está cansada do politicamente correto. A par disso, não esconde o alívio que sente por ter deixado a rotina em que todos decidiam o que devia dizer e como devia agir. O lado ‘rebelde’ da 44.ª primeira-dama dos EUA deixa claro que não nasceu para esse título e não é por ele que quer ser lembrada.

Abre-nos as portas à casa onde cresceu e, como se de amigos nos tratássemos, percorre alguns álbuns de fotografia. De um momento para o outro, temos nos nossos ecrãs Michelle em criança, na puberdade, e crescida. O recurso a estas memórias imortalizadas deve-se, principalmente, à necessidade de atribuir uma cara tanto ao seu pai, como ao seu avô. Estas duas figuras paternais, reforça, fizeram toda a diferença no traçar dos seus objetivos. Percebemos que Michelle quis exercer o seu direito de ter uma educação também para, de certa forma, vingar o seu avô, que não teve essa possibilidade devido à sua raça e classe social.

… e que teve de colocar tudo em espera por amor

Como seria de esperar, as injustiças associadas à raça e à classe social estão presentes de várias formas ao longo do documentário. Quer no crescimento de Michelle, quer já na Casa Branca, torna-se claro o quão mais difícil é a vida para as minorias. Este aspeto é evidenciado, principalmente, durante a sua educação. Provando quem duvidou de si errado, Michelle frequentou não só a Universidade de Princeton, como a Universidade de Harvard, onde estudou Direito. Nesta última, conheceu Barack.

Seria de esperar que houvesse mais menções ao seu marido. No entanto, e talvez numa tentativa de não lhe roubar os holofotes, Barack Obama limita-se a fazer aparições pontuais e até dispensáveis. Ainda assim, a história do casal é dos pontos mais interessantes. Descrevendo a sua relação como uma “parceria“, Michelle abre-se connosco como se estivéssemos num brunch de domingo. É aqui que percebemos que nem tudo é o que parece, muito menos o casal Obama. Revela que chegaram a experimentar terapia de casal, tentando desmistificá-la, tal como a depressão pós-parto.

Michelle Obama abraça uma jovem
Em Becoming, Michelle Obama tem vários encontros com jovens, com o objetivo de os incentivar a prosseguirem os estudos.

É evidente o desejo de Michelle de ter uma conversa íntima com os seus espectadores e de, usando a sua influência e a sua voz, mostrar que não é intocável. Aborda vários problemas dos “comuns mortais”, fazendo cair o pano e a ilusão da vida perfeita na Casa Branca – e fora dela. Contudo, deixa a desejar quando aborda o facto de ter posto os seus objetivos em segundo lugar, de os “abrandar”, por Barack. Sem dúvida que poderia ter explorado melhor este assunto, não só por ter colocado a sua carreira em espera, como por ter sido compelida a, de um momento para o outro, viver como que numa realidade alternativa durante os oito anos em que teve o seu marido na presidência dos EUA.

“Ser primeira-dama foi a maior honra da minha vida”

Em compensação, escrutinou temas como a vilanização que sofreu durante anos por parte dos media. Como seria de esperar, foi colocado um alvo nas suas costas. Frequentemente desabafa o quão complicado foi ter de seguir guiões e de pensar sempre várias vezes antes de abrir a boca ou até de fazer um gesto, pois, enquanto centro das atenções, “cada piscar de olhos é analisado“. Por isso mesmo, quando o mandato de Barack chegou ao fim – e, com ele, a vida na Casa Branca – , foi um sentimento de libertação, de já não ter de fazer tudo de forma perfeita.

Em Becoming, conhecemos uma Michelle crente, preocupada com o próximo, mãe-galinha, colecionadora de objetivos, amiga. Se não acreditarmos nas suas palavras, basta-nos ouvir aqueles que têm acompanhado o seu percurso. Reunir os testemunhos dos membros do staff com quem contactou (e contacta) durante anos foi uma jogada inteligente, que enriquece o documentário. Do segurança à designer pessoais, todos os que passam pela sua vida mostram que é impossível Michelle ser-lhes indiferente.

Como uma cereja no topo do bolo, temos direito ainda a referências às eleições presidenciais de 2016. O sucessor de Obama é referido apenas esporadicamente, uma vez que Michelle escolheu focar-se na importância do exercício do direito ao voto – e muito bem. No geral, temos hora e meia de discursos inspiradores, sorrisos genuínos e testemunhos afáveis que nos fazem simpatizar (ainda mais) com aquela que foi – e sempre será – uma primeira-dama inesquecível. O objetivo de Michelle ao partilhar a sua história é o de inspirar outros a ganharem coragem para se tornarem quem quer que desejem ser. Depois de assistir ao documentário, torna-se realmente difícil arranjar desculpas para adiarmos ou até menosprezarmos os nossos sonhos. Por isso mesmo, Michelle, missão cumprida.

No seu Instagram, Michelle Obama escreveu: “Este documentário conta a minha história, desde a minha infância na zona sul de Chicago, até à minha vida atual – e celebra as histórias de tantas pessoas que conheci pelo caminho. O meu percurso ensinou-se que, se ficarmos abertos –  e se partilharmos aquilo que é importante para nós e ouvirmos cuidadosamente aquilo que os outros têm para partilhar das suas vidas – encontraremos a nossa força e a nossa comunidade. Estou tão agradecida por toda a gente que partilhou a sua história comigo ao longo dos anos. Inspiraram-me, deram-me força, e ajudaram-me a encontrar o meu caminho. Espero que gostem do documentário e que ele vos relembre do poder e da importância da vossa própria história. #IAmBecoming”. O documentário foi realizado por Nadia Hallgren e está disponível na Netflix desde o dia 6 de maio.

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