Diogo Espia
Foto: RTP

Entrevista. Diogo Morgado: “séries como ‘A Espia’ são veículos para promover o que é feito em Portugal”

Diogo Morgado interpreta Siegfried Brenner, um engenheiro alemão, em A Espia. Em conversa com o Espalha-Factos, o ator revelou acreditar que séries de prestígio, como a produção da RTP, “não são séries que poderão ser vistas só em Portugal”, mas sim em qualquer país. Porém, na opinião do artista, destaca-se também um papel muito importante de promover “uma conversa” entre o público e os conteúdos portugueses.

Siegfried Brenner é talvez um dos personagens que mais perguntas deixa na cabeça do público sobre o seu verdadeiro propósito. Diogo Morgado interligou essa indefinição à época vivida, afirmando que “não se saber exatamente quem é quem era algo muito recorrente nesta época”. O ator admitiu ainda que o seu personagem aparece no início da série como “bastante inocente e descomprometido”. No entanto, o tempo promete revelar “um plano muito próprio e um propósito muito próprio desde o início”.

Na apresentação da série revelaste que a preparação para este papel foi muito complexa. Como foi esta exploração, tanto histórica, como de sotaque e fala, para montar Siegfried?

Eu não diria complexa. A única diferença aqui é um período da história de Portugal que, esse sim, é complexo. E, nessa medida, o facto da personagem, o Siegfried, ser um alemão com família portuguesa e ter estudado na Inglaterra, cria aqui uma mescla de personalidades que, de alguma forma, eu gostava que se sentisse. Daí ter trabalhado a questão do sotaque e não ter ido para aquele sotaque cliché do alemão, porque ele estudou em Inglaterra e a mãe é portuguesa. Foi por aí que, dentro da questão do sotaque, focámos um pouco mais, tanto da minha parte como da parte da realização, de Jorge Paixão da Costa. E depois tem um pouco a ver obviamente com toda a fisicalidade da época, que é diferente da que nós vivemos hoje em dia, no sentido da forma de estar e da forma de falar. Há uma fisicalidade característica da época que teve de ser estudada. Para além, obviamente, da parte política e daquilo que acontecia do ponto de vista político no país. Tudo isto também tive de dominar de alguma forma, porque desconhecia. Desconhecia que Portugal tivesse sido um palco de uma espionagem tão intensa como foi.

Ia exatamente perguntar-te sobre a época. Como é que foi passar de um período para outro?

Eu já fiz alguns trabalhos nesse período. Fiz, por exemplo, uma série chamada A Febre do Ouro Negro, para a RTP, seguramente há mais de 15 anos. A exploração do volfrâmio, que na altura era chamado de “ouro negro”, daí o nome da série, era feita essencialmente pelos alemães e pelos ingleses. Nessa altura eu estava no lado inglês e agora, curiosamente, estou no papel de um alemão. Mas já nessa altura a série tinha um conselheiro de época, um historiador, que nos informava como é que se vivia em Portugal. Mais tarde fiz de Salazar, em A Vida Privada de Salazar, que também, de alguma forma, passava por esta época. E a forma de estar era muito oprimida, a liberdade não existia da forma como a conhecemos e, portanto, os ‘bons costumes’ eram exercidos de outra maneira em Portugal. Portanto, não tendo vivido essa época, mas percebendo o que se passava na altura, é mais fácil para nós incorporar de alguma maneira o Portugal dessa época. Basicamente é perceber a situação política e a forma como o governo exercia a sua função perante o povo, a falta de liberdade e a opressão que o povo vivia. Tudo isso se traduz numa forma de estar própria, característica de uma época.

Diogo Morgado em A Espia
Foto: RTP
Como foi também o trabalho com todo o elenco?

Foi excelente, porque já tinha trabalhado com a maior parte do elenco, de grande parte sou amigo e, portanto, mesmo antes de começar o projeto, logo que tive conhecimento de quem faria parte do elenco, fiquei logo muito feliz. Confesso que isso me deixou não só descansado, como motivado, com a certeza de que iria ser uma grande série, porque as pessoas envolvidas eram pessoas que eu não só considero bastante, como estimo bastante. A Daniela Ruah seria a pessoa com quem eu tinha trabalhado menos até então, mas que, por outro lado, era uma amiga muito próxima. Portanto, nessa medida fiquei muito feliz, por trabalhar com este elenco incrível.

Há uma coisa que acho que o público em geral ainda não terá percebido muito bem no meio de toda a trama: quem é realmente Siegfried? O que podemos esperar dele?

A verdade é que os agentes que operavam no país nesta altura nunca tinham um só lado. Ou seja, não se saber exatamente quem é quem era algo muito recorrente nesta época. O Siegfried é um personagem que aparece nesta história de uma forma aparentemente bastante ‘naive’, bastante inocente e descomprometido. À medida que vamos avançando na história vamos percebendo que ele tinha um plano muito próprio e um propósito muito próprio desde o início, e tudo fazia parte de um esquema bem mais complexo do que aquele que começámos por ver no início da história. Portanto, isso no fundo era o mundo da espionagem nesta altura, a mesma informação era vendida para dois lados opostos, tudo era uma espécie de moeda de troca, sem ter um rosto ou uma posição definida. Ninguém era só uma coisa e tinha, muito menos, um só objetivo. E portanto, eu acho que a indefinição das personagens e dos seus propósitos é o característico desta obra.

Que tramas se podem esperar da relação do personagem com a Maria João Mascarenhas, visto estarem em lados opostos da guerra?

O que se pode adiantar para já é que as coisas, entre aquilo que tem de ser feito e aquilo que as pessoas sentem, vão complicar-se cada vez mais. Ou seja, aquilo que parece à partida uma coisa que é simplesmente estar cada um em lados opostos vai-se complicar ainda mais. Eles vão estar em posições ainda mais frágeis, com decisões que têm de ser tomadas que podem comprometer não só as suas vidas, como o país ou, neste caso, os países.

A Espia_Diogo Morgado e Daniela Ruah
Foto: RTP
Já trabalhaste em Portugal, no Brasil e nos Estados Unidos. Que grandes diferenças sentes entre cada país?

É complicado. Por um lado as diferenças são poucas e por outro são muitas. Essencialmente são diferenças culturais. Naquilo em que consiste o trabalho em si, a mecânica é a mesma, a mecânica de rodagem de um projeto, seja de uma série de grande orçamento ou um filme independente, na sua essência é a mesma independentemente dos países. O que muda é a cultura do país, que se traduz na forma e na frequência com que são exercidas as coisas. Por exemplo, em Portugal, a figura do primeiro assistente de realização é muito importante e crucial num projeto. No Brasil, por exemplo, praticamente não há um primeiro assistente. Há um realizador e os seus atores. O primeiro assistente é uma figura praticamente inexistente. É apenas um assistente que muitas vezes nem é muito presente. Isso faz com que a forma de fazer as coisas seja ligeiramente diferente, mas a mecânica é a mesma. No fundo, são atores a contar uma história, que são dirigidos por alguém. Portanto, isso tem a ver com as diferenças culturais de cada país. Por exemplo, nos Estados Unidos é extremamente importante determinados procedimentos não serem alterados, primeiro é uma coisa, depois é outra coisa. Há processos que demoram muito tempo e são muito rígidos. Em Portugal e na Europa, as coisas são um bocadinho mais flexíveis e um bocadinho mais artísticas, por assim dizer. Mas eu não consigo definir com exatidão quais são as principais diferenças para mim. Mesmo dentro de cada país, dois projetos de televisão já não são a mesma coisa, basta que o elenco mude, basta que o orçamento mude que as coisas são cada vez mais diferentes umas das outras, independentemente do país. As coisas estão cada vez mais globalizadas, a diferença é mesmo cultural.

Trabalhando assim internacionalmente, que impacto e importância achas que este tipo de investimento em séries nacionais de qualidade traz ao cinema e à televisão portuguesa?

Eu acho que essencialmente traz um reconhecimento internacional, primeiro. E em segundo, faz com que os produtos que nós vamos fazendo se tornem cada vez mais produtos de exportação. Se as séries tiverem cada vez mais esta ambição e característica, não são séries que poderão ser vistas só em Portugal, ou com interesse só em Portugal. Séries feitas com esta ambição e com esta plástica mais internacional, passam a ter interesse em qualquer país e a poderem ser vistas nesses países. Apesar do palco da ação se passar em Portugal, a trama está construída de modo a ser vista em qualquer outro país do mundo. Nesse sentido, a premissa desde o início foi essa e eu acho que foi muito bem conseguida. Portanto, em primeiro lugar, traz prestígio para Portugal em relação àquilo que fazemos cá. Em segundo lugar, há o ponto de vista económico de fazer com que os produtos portugueses possam ser vendidos ao mundo inteiro.

Poderá ser A Espia e o seu alcance cada vez maior o grande ponto de viragem para uma maior rotina industrial no cinema e na televisão portuguesa?

Eu acho que sim. Acho que o mercado está cada vez mais global. Acho que, por exemplo, a entrada no mercado de plataformas de streaming como a Netflix, que na quarentena viram a sua subscrição em Portugal triplicar ou quadriplicar, é o exemplo disso. A Netflix é uma plataforma que não é cultural, é uma plataforma onde podemos aceder a conteúdos de todo o mundo, coisa que num canal generalista em Portugal não temos acesso. E mesmo em canais por cabo, estamos mais limitados. Eu acho que cada vez mais, a tendência dos produtos de ficção é se tornarem mais globais e a serem feitos de forma a poderem ser vistos e a agradar a um maior número de pessoas em todo o mundo. Portanto, eu acredito que sim, que o impacto económico e cultural da vontade de fazer produtos em Portugal que possam ser consumidos no mundo inteiro é bastante considerável.

Foto: página oficial de Diogo Morgado no Facebook
Falaste nas plataformas de streaming, como por exemplo a Netflix. Vês essas plataformas de alguma forma como um aliado ao cinema e à rotina industrial, ou também como uma ameaça?

Tem dois lados. Eu acho que, do ponto de vista do cinema, efetivamente poderá haver um impacto. O tipo de plataforma que traz produtos de excelência com muita frequência, de uma forma que é muito assistível em casa, poderá ter algum impacto à escala de cinema. Eu acredito que ir ver um filme a uma sala de cinema é uma experiência que nunca vai acabar. Não vai deixar de haver cinema. Acho que obviamente pode haver uma redução de número, ou não. Ainda é um caso de estudo. Porque, de facto, o cinema é uma experiência, não é só consumir um filme, é a forma como se consome o filme. Por esse lado sim, acho que pode ter algum impacto. Por outro, acho que nunca foi tão fácil ter acesso a produtos de qualidade a que de outra forma não teríamos. Acho que nos Óscares deste ano, o caso do filme Parasitas foi o exemplo disso. De outra forma, não teríamos acesso a esse filme, que mal teve expressão nas salas de cinema em Portugal. Mas, de facto, o filme foi conhecido e não foi pelas salas de cinema. Portanto, eu acho que tudo tem o seu lado. Neste caso, eu não vejo nem como um aliado, nem como um inimigo. Acho que há uma causa-efeito que é a forma como o mercado está a evoluir e se está a adaptar.

Em entrevista, Maria João Bastos disse que um ponto ainda mais importante n’A Espia é “mostrar ao público português que tem que se ver mais quer cinema, quer séries portuguesas”. Também partilhas desse pensamento? Será a série um bom fator de mudança nesse aspeto?

Mais do que partilhar dessa opinião, eu tenho uma produtora que faz isso. Eu e o meu irmão criámos uma produtora, a SLX, que este ano, se não fosse esta situação do coronavírus que estamos a viver, a nossa terceira longa-metragem, que se chama Irregular, estrearia no dia 7 de maio. Eu acredito que, quanto mais exposto o público português estiver, com a confiança de se rever naquilo que os produtores portugueses estão a produzir, mais chances há de o português se sentir cada vez mais confortável a consumir o que é português. Não foi há muitos anos que as novelas preferidas dos portugueses eram as novelas brasileiras. Já se conseguiu mudar esse paradigma e hoje as novelas brasileiras quase não têm expressão em Portugal. Isso teve a ver com um constante investimento para incluir um produto nacional, até chegar a um ponto em que a expectativa do espectador português foi satisfeita. Eu acho que, no que diz respeito ao cinema, a coisa ainda não está lá. Mas são, para mim, séries como A Espia que promovem justamente essa conversa. Séries como A Espia, de excelência e de prestígio, que agradam ao público português, são veículos de promover cada vez mais o cinema e aquilo que é feito em Portugal, perante os portugueses.

Será A Espia também, ainda mais que isso, a porta para a internacionalização desta história de Portugal, tal como esperado pela produtora?

Eu não sei se será a porta, mas é seguramente um reforçar desse caminho que está a ser feito. No ano passado, nós produzimos, por exemplo, um filme de ficção científica, chamado Solum, que vai ter distribuição internacional. A distribuição internacional e a vontade de promover os produtos portugueses lá fora é uma conversa que está a acontecer. A questão é se conseguem ou não ser bem sucedidos. E eu acredito que produtos como A Espia são produtos que poderão ter sucesso numa distribuição internacional.

Lê também: Crítica. ‘A Espia’ é o passo que a ficção portuguesa precisava dar

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