Fred Martinho dos HMB: “O nosso percurso enquanto banda tem sido muito abençoado”

Fred Martinho, guitarrista dos HMB, conversou com o Espalha-Factos sobre o novo trabalho da banda. O disco chama-se Melodramático e apresenta um conjunto de canções mais introspetivas do que o costume.

O lançamento do quarto disco da banda portuguesa devia ter acontecido no final do mês de março, mas devido à Covid-19, os planos foram alterados. Com os concertos em suspenso, os HMB têm presenteado aos seus fãs algumas atuações nas suas redes sociais.

Ao Espalha-Factos, Fred Martinho conta que Melodramático foi buscar inspiração à história de Orfeu da mitologia grega e considera que a noção de álbum como obra tem os dias contados. O guitarrista fez também um balanço sobre os 12 anos de carreira da banda e admite que o percurso tem tido “influência divina”.

O vosso novo disco, Melodramático, era para ter sido lançado no final de março, mas dadas as circunstâncias da pandemia de Covid-19, foi adiado para o final do mês de abril. Enquanto guitarrista dos HMB, como tens vivido esta situação? 

É um golpe duro. Acima de tudo, temos de gerir a expectativa do que temos pela frente e isso é sempre difícil de fazer. Tínhamos uma série de concertos marcados pelo país inteiro, um deles seria no Rock in Rio no palco principal. Ao longo da história [dos HMB], tivemos alguns obstáculos para superar. Felizmente temos tido capacidade de ultrapassar essas situações. [Se esta pandemia não existisse], o mês de março seria de preparação da nova digressão e de ensaios. Obviamente, isso não aconteceu e fomos para casa. Tivemos de reaprender a nossa dinâmica enquanto banda, porque perdemos tempo de convivência física. Para comaltar a vertente musical com os HMB, temos feito diretos no Instagram, onde temos tocado. Estamos também a ponderar hipóteses para poder usar no futuro, principalmente em termos de “engagement“, e encontrar alternativas de subsistência. No que diz respeito à nossa familia, acho que nenhum de nós sentiu um choque, dado que o convívio era já bastante. Felizmente, o ritmo da vida de músico habituou-nos a isso há muito tempo.

Vives dos HMB ou tens outros projetos?

Vivo da música há, pelo menos, 16 anos. Na altura, saí da casa dos meus pais para começar a minha vida de adulto. Esta área sempre teve altos e baixos, independemente dos patamares de sucesso que possas alcançar. Não vivo só dos HMB, mas é uma “grande fatia” do meu retorno financeiro e dos restantes quatro elementos. Todos nós temos projetos paralelos. No meu caso, possuo uma negócio chamada Musical Partners, que fornece música para festas, marcas ou eventos. Participo também num outra banda chamada Pimenta Caseira que tem uma componente mais R&B.

Focando agora no vosso mais recente disco: noto que este trabalho é bem diferente no que diz respeito à sonoridade quando comparado com os vossos álbuns anteriores. Consegues explicar o porquê dessa mudança?

Antes de mais: não é uma mudança definitiva. É a grande vantagem de ser músico e de sermos humanos. Há sempre uma evolução. [Nós, nos HMB,] não somos iguais a quando a banda começou há 12 anos. Cada vez que lançamos um álbum, implica a continuação desse processo. 2019 foi um ano disruptivo, porquee aconteceram episódios determinantes na vida pessoal de alguns elementos da banda e depois usámos isso como combustível para escrever [novas composições musicais]. O disco descreve uma narrativa contada da escuridão para a luz. A capa [do álbum Melodramático] foi desenhada e concebida por Ben Monteiro [membro dos D’Alva]. Ele foi também nosso diretor criativo e fizemos alguns paralelismos com a história de Orfeu [da mitologia grega]. Esta personagem é um poeta super talentoso, pois é graças à música que lhe abre as portas. No entanto, ele acaba por cair na vida e o desenlace é trágico, porque acaba a vida decapitado. Não acreditamos em finais felizes como nos vendem no cinema e por isso valorizamos mais o percurso. Se prestares atenção às letras vais reparar que tem o “coração quebrado”, mas também tem doses de responsabilidade perante o que aconteceu…

Senti que este álbum é um trabalho muito mais introspetivo…

É. Naturalmente, o Héber [Marques] é capaz de sentir mais isso. Uma banda é um casamento entre pessoas. Hoje em dia, o conceito de banda, se calhar, está em desuso, por causa do compromisso de manter um grupo a olhar na mesma direção, não só na parte artística, mas também em termos de planeamento futuro.

Fiz esse comentário porque sinto que este disco tem um início e um fim muito definidos, ou seja, não é apenas um conjunto de canções. Conta também uma história. NA primeira faixa parece que pedem ajuda [o tema chama-se ‘SOS’] e a última é o encerrar de um ciclo [Festa Lá no Céu]…

Obrigado pelas palavras. Sinto que as pessoas que se ficam apenas pelos singles não conseguem ver o retrato que o artista fez quando compõe um álbum, apesar de ser algo que tem os dias contados. Neste caso, queríamos fazer um álbum. Não sabemos se será o último disco que vamos fazer usando esta definição no sentido mais clássico, porque a indústria musical está a mudar muito. O esforço de fazer um álbum enquanto obra depende cada vez mais do artista de fazer ou não. Relativamente ao Melodramático, foi escrito durante um período de crise pessoal e, neste momento, o grande público também vive um tempo de incerteza, porque não sabe o dia de amanhã.

Sempre tiveram artistas convidados para cantar algumas músicas. Neste álbum, a canção ‘SOS’ tem a participação especial de Dino D’Santiago e do rapper Papillion. Qual foi critério de seleção de convidados desta vez?

O critério é sempre o mesmo desde o primeiro convidado, está sempre relacionado com afinidade pessoal e artística. Nunca houve nada de estratégico no que toca a colaborações. Foram situações que surgiram de forma natural. Neste caso foi igual. O contacto ocorreu num programa da Rádio Comercial. O Papilion já tinha participado num concerto nosso e escreveu a sua parte nessa canção. Depois o Héber [Marques] escreveu a parte do Dino [D’Santiago] especificamente para ele. O resultado final superou qualquer expectativa.

O Héber Marques referiu, numa entrevista à Agência Lusa, que as letras das canções de Melodramático têm “temáticas que têm muito que ver com um lavar de alma”. Concordas com esta afirmação?

Sem dúvida. Ainda por cima, sabendo que o Héber [Marques] é a grande força criativa na parte das letras. Nós ajudamos todos em termos criativos. É muito importante estar numa sala no momento em que estamos a escrever. No caso das duas últimas músicas [‘Momento’ e ‘Festa lá no Céu’] têm o ADN de HMB que o grande público reconhece facilmente. Mesmo assim, essas canções, se prestares atenção às letras, têm esse “lavar de alma”. De assumir as responsabillidades das coisas que nos acontecem enquanto pessoas, tanto do passado como no futuro

É de conhecimento geral que a maior parte dos HMB têm raízes religiosas. Creio que és a exceção, certo?

Sim. A minha educação não foi cimentada no meio evangélico.

Tiveste algum momento de inspiração divina quando ensaiaste em igrejas evangélicas?

Nos ensaios propriamente ditos, não. Eu sinto que tive sorte quando vim parar a este projeto com estas pessoas que têm esta fé presente nas suas vidas. Se estiveres rodeado de gente que tem as suas ideias “no sítio” são boas influências para ti. Se estiveres com “más companhias”, vais acabar por descarrilar por muito que não queiras. Sinto que o nosso percurso enquanto banda tem sido muito abençoado. Há montes de circunstâncias para as quais não consigo encontrar uma explicação do porquê de terem corrido tão bem. Nós continuamos a fazer música que é intemporal, mas que não está propriamente na moda. Neste disco usamos ferramentas mais contemporâneas, mas a base manteve-se. Este álbum ouvido hoje ou daqui a 20 anos vai ser válido. São canções e não meros “beats“, “paisagens sonoras” o que queiram chamar. Essas coisas têm datas de prescrição muito visíveis, porque daqui a uns tempos podem não ter fundamento. Dito isto, creio que temos alguém a olhar por nós e que nos transcende em algumas ocasiões.

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