Balter Youth

Balter Youth: Ser uma banda independente “é complicado, mas dá-nos liberdade”

Oriundos do Porto, os Balter Youth são mais uma das bandas que florescem no meio independente da música portuguesa nos últimos anos, tendo lançado recentemente o seu álbum de estreia, Children Playing Adults.

A banda é constituída por cinco elementos: Inês Pinto da Costa, a vocalista, João Freitas, o guitarrista, Henrique Tomé, dono do baixo e da viola, Mariana Monteiro, pianista, e o baterista Gonçalo Cabral.

Lançado no dia 8 de abril, Children Playing Adults é um projeto que “começou há muito tempo”, sendo a coleção de oito canções considerada como o “pequeno orgulho” da banda.  Com produção de Luís Gonçalves e masterização de João Bessa, o álbum conta ainda com contribuições do guitarrista José Pedro Gonçalves e do baterista José Nuno, que entretanto abandonaram a banda.

Foi sobre o processo de gravação e criação deste disco que o Espalha-Factos esteve à conversa com Inês Pinto da Costa e João Freitas, dois dos elementos da banda.

Quem são e onde nasceram os Balter Youth?

João Freitas: Nós somos cinco. Quando começámos, dos membros atuais, só estávamos eu e a Inês [Pinto da Costa]. Começámos numa escola de música aqui do Porto, a fazer uns covers, para aí há cinco anos. O grupo foi mudando ao longo do tempo, e a formação com que estamos agora fez um ano e meio há pouco tempo. Fomos ficando mais próximos um dos outros, e a certa altura, decidimos tentar começar a fazer uns originais, e fez cada vez mais sentido encarar isto de forma mais séria.

Então, aquando do lançamento da ‘Detour’, em 2018, já era esta formação atual?

Inês Pinto da Costa: Não. Éramos seis, tínhamos mais um guitarrista e o baterista não era o mesmo. Entretanto, ficámos só cinco porque saiu um dos guitarristas.

João: Mas ficámos todos amigos na mesma, foi a separação mais amigável de sempre.

Foi com a ‘Detour’ que participaram no EDP Live Bands?

Inês: Sim, nós concorremos em 2019. Na altura, até fizemos bastante publicidade a isso, e acabou por dar alguma visibilidade. Passámos a uma segunda fase, e ficou por aí.

A sonoridade dos Balter Youth é singular no panorama da música portuguesa. Como é que surgiu esta sonoridade?

João: É mesmo difícil olhar para trás e perceber isso. Temos todos muitas influências em comum, quer estrangeiras quer nacionais.

Inês: Falávamos disso no outro dia. As músicas acabam por também marcar as fases em que nós as ouvimos. Há músicas que tem influência de muita coisa porque, na altura, era aquilo que ouvíamos todos e passávamos uns aos outros. Acho que nunca tivemos a coisa de seguir aquele estilo ou aquilo que se ouve agora. Mas nem foi muito pensado.

João: Foi muito natural, fez sentido para todos.

Inês: Exato. Existe sempre dificuldade para nós quando nos perguntam em que estilo é que nos enquadramos porque foi uma cena muito natural que foi surgindo.

João: Todos defendemos que tentamos, ao máximo, pôr nas nossas músicas as emoções que sentimos ao ouvir as músicas dos nossos artistas favoritos, mas não a imitar em termos técnicos e musicais.

Quais são as vossas maiores influências?

Inês: Acho que Radiohead é comum a todos.

João: Sem dúvida.

Inês: É uma banda que nos marca a todos. Também, First Breath [After Coma], no panorama nacional.

João: Eu acho que, First Breath [After Coma], apesar de ser de cá, influencia-nos tanto como qualquer outra banda enorme que todo o mundo ouve. Acho que toda a gente conhece tudo dessas duas.

Children Playing Adults é o vosso álbum de estreia. Como decorreu o seu processo de escrita?

Inês: Podemos dizer que começou há muito tempo. Temos músicas [no álbum] que já fizemos há três ou quatros anos atrás, e uma até com cinco anos, a ‘Faces’, que é a mais antiga. Mas são coisas que fomos colecionando ao longo do tempo. Durante o processo de escrita, estamos sempre juntos. Alguém traz um riff qualquer de casa, uma linha [de baixo] qualquer, e começamos a trabalhar por aí. Fazemos por camada, mas fazemos tudo juntos, mesmo a escrita da letra.

João: No mínimo, é pensado por todos. Pode não ser feito explicitamente por todos, mas é pensado e documentado por todos.

Inês: Acho que todos conseguimos associar as músicas a certos momentos da nossa vida porque nos acompanham há muito tempo. Fomos crescendo uns com os outros e temos esse crescimento materializado nisto que saiu agora.

João: É uma evolução, não é? De maturidade, e isso percebe-se nas músicas até.

Inês: Sim, sim.

O conteúdo lírico do álbum reflete esse crescimento?

João e Inês: Sim.

Inês: São os nossos dramas, os nossos problemas e as nossas expectativas dos 16 aos 22, 23 anos.

A música foi uma fuga para estes dramas?

João: Sim, para todos.

Balter Youth
Children Playing Adults retrata os problemas vividos pelos membros da banda na sua adolescência. (Divulgação)
Tem havido artistas que escolheram adiar o lançamento do seu álbum face à situação atual. Porque escolheram não alterar a data?

João: O álbum já ia sair nesta altura do ano. Nós até tínhamos um ou dois concertos marcados para esta altura, que até nem iam ser de apresentação porque eram antes de o álbum sair, que não aconteceram, e ficámos a falar diariamente sobre como é que íamos lidar com isto. E acabámos por chegar à conclusão, logo no fim da primeira semana de quarentena, que fazia sentido lançar agora. É uma boa altura para as pessoas perceberem que as artes têm uma importância muito grande para a sociedade no geral.

O João Bessa esteve envolvido na masterização do álbum. De onde surgiu esta conexão, e de que forma ele vos ajudou na obtenção do som do álbum?

João: Foi um contacto em comum que sabia que a mistura estava pronta e que íamos masterizar. E nós não queríamos, não por falta de qualidade, atenção, que fosse a mesma pessoa que fez a mistura a masterizar. Tanto o Luís [Rodrigues], como nós, defendíamos que é bom haver, num processo final de masterização, um par de ouvidos novos e frescos. Para nós foi incrível [trabalhar com o João Bessa], porque ele é…

Inês: Uma máquina! [risos] Fez muita diferença, sem dúvida. Ao ouvirmos, depois da masterização, nós próprios acabámos a reparar em detalhes que, depois de ouvirmos tantas vezes a mistura, não tínhamos reparado. Acabou por ajudar a destacar algumas coisas que fizeram muita diferença.

João: Foi uma espécie de abraço gigante às oito músicas, que as colocou muito mais coesas e unidas.

Têm alguma música do álbum pela qual sentem mais carinho?

Inês: No geral, gostamos de todas porque são o nosso pequeno orgulho. Mas a ‘Ongoing’ é a mais consensual a todos como a favorita. Não sei bem dizer porquê. Acho que tem a ver com a própria sonoridade, e não querendo cometer o erro de falar por todos e depois dizer algo errado, é das músicas que nos dá mais prazer tocar porque exige muito que estejamos todos na mesma página.

João: A ‘Ongoing’ precisa que tu tenhas uma atenção especial à sensibilidade com que estás a tocar.

Há alguma diferença na abordagem ao estúdio e aos concertos?

Inês: Eu acho que nós arriscámos pouco na gravação, não sei se concordas João?

João: Sim, não tínhamos meios técnicos para ensaiar secções difíceis de tocar ao vivo. Na sala onde ensaiávamos não havia hipótese de fazer o que quer que fosse praticamente. Agora estamos numa [sala] melhorzinha.

Inês: Somos muito fiéis. O que está gravado é o que fazemos ao vivo.

João: Acho que há músicas que ganham e há músicas que perdem a serem tocadas ao vivo. O fim do álbum é muito melhor ao vivo. Em músicas como, por exemplo, a ‘Faces’ ganha-se muito na gravação pela limpeza do timbre, que ao vivo é sempre mais difícil de replicar porque existe sempre um ruído ou outro. Mas é o normal.

Sendo os Balter Youth uma banda independente, como sentem que é crescer neste meio em Portugal? E que impacto teve em vocês?

João: O processo está, apesar de ter já saído um álbum, ainda no início. Estamos muito felizes, e o feedback tem sido incrível. Já ouviram mais pessoas o álbum do que eu esperava desde que saiu. Mas é um processo complicado ser independente, porque tens de tratar de tudo. Não é fácil, mas em nenhum momento equacionei parar por causa disso, e acho que ninguém equacionou.

Inês: A própria entrada no mercado é mais complicada porque não temos o nome de ninguém. Mas ao mesmo tempo, dá-nos liberdade para fazermos o que estamos a sentir porque não estamos condicionados por nada. Tem os seus prós e tem os seus contras, mas é muito complicado.

Como é que lidam com o feedback, seja ele positivo ou negativo?

Inês: Só desde que lançámos o álbum é que começámos a ter feedback de pessoas que não conhecemos, porque até aqui era essencialmente de amigos e família. Dá-nos alguma força para pensar no futuro, pôr as coisas em perspetiva e perceber que, se calhar, até estamos no caminho certo.

Isso é positivo, significa que a banda está a crescer.

João: Sim, se lançássemos um álbum e não sentíssemos diferença, era mau sinal.

Sentem que as plataformas de streaming ajudam na divulgação da vossa música?

João: Sim, claro.

Inês: Sem dúvida.

João: Acima de tudo, o Spotify. Comparar as streams de Spotify com outros é absurdo, pelo menos para nós. Mas é fixe, porque os algoritmos do Spotify metem a nossa música em rádios, e pode perfeitamente aparecer a qualquer pessoa em Portugal.

Qual o futuro dos Balter Youth, apesar das incertezas que se vivem?

Inês: Nós queremos tocar o mais cedo possível. Fazer concertos de apresentação acho que está em cima da mesa, para quando possível.

João: Bem, não vai ser bem apresentação se o álbum já tiver saído há 6 meses, não é? [risos]

Inês: Sim. [risos] Continuarmos a tocar, sempre. Continuarmos a ensaiar, sempre. Se calhar explorar coisas que até agora não explorámos.

João: Sim, sem dúvida.

Inês: Estamos entusiasmados pela próxima fase. [risos]

O período que se vive está a ser positivo em termos musicais para vocês?

João: Eu acho que até está, mas individualmente. Temos partilhado coisas uns com os outros, que vamos fazendo em casa. Mas isso sempre o fizemos. E, provavelmente, vamos sair desta situação e, de repente, já há cinco ou seis ideias de membros diferentes que fizeram durante a quarentena que vão acabar a ser temas novos.

Por último, têm alguma recomendação para os nossos leitores?

João: Tenho uma artista que comecei a ouvir em outubro, e fiquei completamente viciado. Não é uma influência neste álbum porque ainda não a ouvia antes, mas é claramente uma que nos vai influenciar imenso, que é a Grouper.

Inês: Dá-me sempre uma branca nestas alturas. Recomendo o último livro que li, A Morte do Comendador, de Haruki Murakami.

Esta entrevista foi realizada por vídeoconferência. Children Playing Adults está disponível para audição nas habituais plataformas de streaming.

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