Maria João Bastos em A Espia
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Entrevista. Maria João Bastos: ‘A Espia’ tem tudo para que se consiga internacionalizar

Maria João Bastos é Rose Lawson em A Espia, a mais recente produção da RTP. A série foi lançada a 8 de abril e foi a melhor estreia da RTP no género nos últimos três anos, com 6,4% de audiência média e 10,5% de share. Em conversa com o Espalha-Factos, a protagonista partilhou do desejo da produtora, Ukbar Filmes, de internacionalizar esta história, destacando que se estaria “a apresentar ao mundo um produto de enorme qualidade”.

A Espia contou com um orçamento mais elevado do que é costume em Portugal, no entanto, ainda assim baixo em comparação com os investimentos nas produções estrangeiras. Contudo, Maria João Bastos declarou que se conseguem fazer “milagres” com os orçamentos baixos no país. A atriz referiu ainda a importância de consciencializar os portugueses para a importância de ver mais produções nacionais, sublinhando que “nós fazemos produtos tão bons como fazem lá fora”.

Como foi viajar de repente para os anos 40 e revisitar essa época da história de Portugal?

Foi muito interessante. Foi especialmente muito interessante poder conhecer essa parte da história que se passou no nosso país e que foi tão importante e que desconhecia. Não desconhecia por completo, sabia que tinha existido essa rede de espionagem em Portugal, mas não fazia ideia da dimensão que tinha sido essa realidade. Como acredito que muitos portugueses não faziam ideia dessa realidade e portanto é sempre muito interessante para nós contar histórias e poder levar a história do nosso país ao público português. Logo à partida, isso é uma coisa muito interessante.

Depois, mergulhar naquele universo, estudar aquela época da Segunda Guerra Mundial, especialmente o que se passou em Portugal, estudar aquela época a nível de hábitos, de comportamentos, de tudo o que implica ter de viajar no tempo e fazer tudo de forma a representar uma época, para que o público depois viaje connosco. Acho que isso nesta série foi muito bem conseguido, porque todas as áreas estão irrepreensivelmente cuidadosas nesse aspeto de representar a época, quer os figurinos, os cenários, a realização, a música… Tenho recebido muito feedback do público, as pessoas esquecem-se de que estão nesta época e mergulham na que estamos a retratar e isso é muito interessante.

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Para além de dar a conhecer a história deste período ao público português, será A Espia também a porta para a sua internacionalização, tal como esperado pela produtora?

Pelo menos, tem toda a qualidade para isso. Portanto, espero que sim, espero que tenha essa oportunidade, porque será de facto uma boa série portuguesa que representará Portugal internacionalmente, o que não é hábito. Nós não internacionalizamos os nossos produtos, infelizmente, e se nos formos internacionalizar com esta [série], penso que estamos a apresentar ao mundo um produto de enorme qualidade, além de que retrata uma época que é historicamente comum ao Mundo inteiro, que é a Segunda Guerra Mundial. E depois conta a história daquilo que se passou em Portugal nessa época, portanto tem essa característica interessante de levar outra realidade da Segunda Guerra Mundial ao público em geral, a nível mundial, e isso é extremamente interessante. Portanto, eu acho que [A Espia] tem tudo para que se consiga internacionalizar.

Será então A Espia, e o seu alcance cada vez maior, o grande ponto de viragem para uma maior industrialização do cinema e da televisão portuguesa e para levar o cinema português ainda mais além fronteiras?

O nosso cinema até tem viajado bastante além fronteiras. É mais a nível de festivais, mas mesmo a nível de festivais temos filmes que até têm tido carreiras bastante interessantes. Eu acho é que o sucesso desta série pode ter um papel extremamente importante a mostrar ao público português que tem que se ver mais quer cinema, quer séries portuguesas, porque nós fazemos produtos tão bons como fazem lá fora. Isso é que me parece um papel importante nesta série, de facto interessar o público cada vez mais pela ficção portuguesa. Isso será vantajoso quer para a televisão, para o caso das séries, quer para o cinema.

Como foi o trabalho de criar Rose? Houve muita pesquisa? Muito treino de sotaque?

Não, eu não fiz muito sotaque. Ela cresceu em Portugal e, portanto, não havia razão para ela ter sotaque. Falo português e inglês e quanto a isso não tive que fazer uma grande preparação. Mas, de facto, houve um trabalho de composição enorme. Primeiro, de estudo da época, obviamente. Depois, de construção da minha personagem e de composição, que é uma personagem que eu acho que fisicamente retrata a época que viveu. Tem uma fisicalidade diferente, tem não um sotaque, mas um modo de falar diferente… Tudo isso dá muito trabalho. São muitas horas de trabalho. Esse é o trabalho do ator e foi um trabalho feito minuciosamente para esta personagem.

Eu tive sempre a preocupação que [Rose] imprimisse sempre a época que estava a retratar e também a nacionalidade dela, porque apesar de ter nascido em Portugal, ela é inglesa e, portanto, eu quis imprimir na personagem essa educação inglesa que lhe dava alguma destreza, algum atrevimento, uma mulher um pouco à frente do seu tempo para aquilo que era essa época. Tentei fazer um trabalho todo junto de fisicalidade com forma de olhar, forma de falar… Todos os detalhes e todos os pormenores foram pensados para criar esta personagem, como acontece sempre.

Maria João Bastos em A Espia
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Daniela Ruah admitiu que uma das principais razões que a levou a aceitar o papel foi o elenco. Sentiste o mesmo? Como foi trabalhar com toda esta grande equipa?

Foi fantástico. Não são atores novos para mim, a não ser a Daniela Ruah e o Diogo [Morgado], com quem eu ainda não tinha tido o prazer de trabalhar. Conhecia o Diogo, mas nunca tinha trabalhado com ele, e não conhecia a Daniela sequer. Tive a agradável surpresa de poder conhecê-los e criar a ligação que criámos de amizade, e que depois obviamente se viu de forma especial no nosso trabalho, porque de facto criámos logo ali uma relação de amizade muito interessante. Principalmente no meu caso, com a Daniela Ruah, trazer isso para as personagens depois foi muito fácil.

Foi uma surpresa muito agradável conhecer a Daniela e trabalhar com ela, é uma atriz muito empenhada, muito profissional, muito generosa, muito dedicada, trabalhadora… Tivemos ali bons momentos em que juntas criámos as nossas personagens e a relação das nossas personagens. Foi muito giro. Além de que nós viajámos imenso por variadíssimas cidades em Portugal e na Galiza e portanto tivemos muitas oportunidades de passar muito tempo todos juntos e isso foi fantástico.

O resto do elenco, o Marco D’Almeida, o Adriano Carvalho, o Adriano Luz, são pessoas com quem eu já trabalhei muito e revê-los foi muito bom. Eu acho que de facto uma das coisas muito boas que esta série tem é o elenco. É um elenco muito forte, é um elenco de atores que têm a mesma entrega, a mesma disciplina, o mesmo profissionalismo. E isso resulta obviamente numa ótima representação que em conjunto funciona muito melhor. Por isso, acho que houve aqui uma conjugação de todos os fatores que acho que estão de facto perfeitos. E o elenco é um deles. O elenco é muito bom, foi muito bem escolhido, cada ator muito bem escolhido para cada personagem e, de facto, é um elenco muito forte em termos de qualidade e de talento. Portanto, o resultado final só pode ser grandioso, como eu acho que é. De facto, acho que toda a gente está muito bem nesta série.

Que grandes diferenças sentes entre trabalhar em Portugal e no Brasil?

A diferença que eu sinto é sem dúvida nenhuma de investimento. Obviamente, o que eu faço no Brasil… já fiz muito cinema e a última coisa que fiz foi uma série para a Netflix [O Mecanismo], e mesmo relativamente à Globo, que é uma das maiores produtoras de televisão do mundo, que faz novelas há muitos mais anos que nós, não vejo uma grande diferença na capacidade técnica das pessoas que trabalham, nem nos atores e no talento. Vejo uma diferença grande no aspeto financeiro. E isso é realmente uma grande diferença, porque quando há muito dinheiro para fazer um produto, inevitavelmente o resultado final é mais forte, porque há um maior investimento em tudo: nos cenários, nos figurinos, no tempo que os atores têm para fazer as cenas… E isso obviamente tem de trazer maior qualidade ao projeto, ou maioritariamente traz.

O que eu acho é que nós conseguimos apresentar projetos com uma excelente qualidade para o investimento financeiro que temos, que ainda é bastante fraco. Ainda fazemos séries e televisão com orçamentos muito baixos e, portanto, eu acho que fazemos milagres. E fazemos trabalhos excecionais. N’A Espia, apesar de haver um investimento um pouco maior, não se assemelha em nada aos investimentos que existem lá fora, ou que existe na Globo ou na Netflix. E acho que fizemos um trabalho extraordinário e é demais salientar que tem que haver muita dedicação da parte de todos para que consigamos apresentar ao público um trabalho destes com um investimento reduzido.

Nos primeiros episódios Rose afirmou que “no amor e na guerra vale tudo”. Com um enredo cheio de intrigas e reviravoltas, podemos esperar que a experiência lhe molde o pensamento?

Não. É difícil mudar o pensamento da Rose, até pela situação que vive. A série retrata a situação que se viveu no mundo inteiro na Segunda Guerra Mundial. E não devemos esquecer que foram momentos extremamente difíceis, inclusive para Portugal. Vivia-se uma realidade muito difícil, toda a gente vivia uma realidade muito difícil a nível financeiro, de instabilidade, de insegurança… E, portanto, muitas pessoas foram trabalhar como espiões e espias por uma questão de sobrevivência. E a verdade é que por vezes pela sobrevivência vale tudo. Ela tornou-se espia por necessidade, para sobreviver àquela situação que se vivia em Portugal e, de facto, na história da Rose, essa é uma frase que lhe assenta muito bem, porque ao longo de toda a história esse é o pensamento dela, que “na guerra e no amor vale tudo”, porque é a única forma que ela tem de sobreviver.

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