Fotografia: Netflix/Divulgação

Crítica. ‘Outer Banks’, a caça ao tesouro que reflete uma sociedade desigual

Outer Banks estreou este mês na Netflix com dez episódios que rapidamente tornaram a série no mais recente sucesso juvenil da plataforma.

A narrativa deste drama resume-se facilmente: um grupo de adolescentes depara-se com um quebra-cabeças que os faz embarcar numa caça a um tesouro no valor de 400 milhões de dólares. Juntos vão lidar com confrontos inesperados, dramas familiares e muitos conflitos entre habitantes locais até atingirem o seu objetivo.

Dos membros mais baixos da cadeia alimentar…

Desde o início que a desigualdade social entre os habitantes da ilha é bastante evidente em Outer Banks: ou tens dois empregos ou duas casas. Figure Eight é o lugar onde vivem os abastados e respeitados Kooks; a zona sul pertence à classe trabalhadora negligenciada, os Pogues.

No lado dos Pogues, temos John B (Chase Stokes), o líder do seu grupo de amigos e também o narrador de toda a história, o que acaba por dar um toque interessante à interpretação da série. Um adolescente órfão cujo pai desapareceu misteriosamente no mar há nove meses, acaba por descobrir o segredo que o conduz ao tesouro que todos querem encontrar.

A John B junta-se JJ (Rudy Pankow), o seu melhor amigo de infância e um rebelde nato que aproveita a vida ao máximo sem qualquer noção de limites. Chegámos a pensar nele somente como um indisciplinado, até descobrirmos o drama que vive em casa atrás de quatro paredes.

Pope (Jonathan Daviss) é o mais racional dos quatro, dotado de uma grande inteligência e finalista para uma bolsa de mérito na faculdade. Graças ao seu bom senso, é ele quem salva o grupo de várias confusões.

Como nenhum grupo está completo sem uma figura feminina, Kiara (Madison Bailey), mais propriamente Kie, o elemento pacificador do bando. Vale a pena referir que ela pertence aos Kooks graças ao sucesso financeiro do restaurante da sua família, mas optou por evitar essa comunidade tóxica e trocá-los pelos Pogues.

JJ, Kie, John B e Pope | Fotografia: Netflix

… à classe dominante e opressora

Por outro lado, no grupo dos Kooks, estão os maus da fita. Adolescentes ricos e sem qualquer noção de respeito pelos outros, acham-se os mais valentes da ilha. Numa luta constante para provar a sua integridade ao seu pai e aos amigos, Rafe Cameron (Drew Starkey) é a personificação viva dos perigos da masculinidade tóxica e das consequências provocadas pelas expetativas impostas aos homens.

Motivado pelos amigos Kelce e Topper, o trio representa um terror para os Pogues graças ao bullying constante que fazem à comunidade mais desfavorecida.

Ward Cameron (Charles Esten), pai de Rafe, nasceu Kook e tornou-se Pogue quando criou a maior empresa de desenvolvimento da ilha. É um vilão movido pela ideia de poder e masculinidade que inventou.

Nesta família apenas Sarah Cameron (Madelyn Cline) escapa à má fama. Apesar de aparentar ser uma rebelde, a adolescente acaba por se aliar aos Pogues depois de perceber a toxicidade da sua família e do ambiente que a rodeia.

Rafe, Topper e Kelse | Fotografia: Netflix

A atribulada jornada para descobrir o ouro

O furacão Agatha passou por Outer Banks e deixou para trás destruição, eletricidade cortada e segredos desenterrados. Na manhã após o fenómeno natural, enquanto navegam pela ilha para fazer um controlo dos danos, os Pogues encontram uma embarcação afundada e decidem explorá-la.

Quando mergulham e descobrem uma bússola que pertencia ao pai de John B, os quatro entram num jogo perigoso para descobrir a razão por detrás do seu desaparecimento, uma vez que ele uma das pessoas que investigavam o paradeiro do Royal Merchant, um navio com 400 milhões de dólares em ouro a bordo.

Depois de muita ginástica mental, John B consegue decifrar qual o significado do nome gravado no interior da bússola e aí começa oficialmente a caça ao tesouro. O problema é que eles não são os únicos atrás desta fortuna; como estamos a falar de uma obra de ficção, é óbvio que os quatro adolescentes conseguem sempre escapar até de criminosos armados.

Algumas lutas, invasões de propriedade e furto de material de mergulho depois, acabam por descobrir as coordenadas com a localização exata do Royal Merchant, apenas para voltarem à estaca zero quando percebem que o ouro não está no interior do barco.

Os Pogues a investigar uma das pistas do pai de John B | Fotografia: Netflix

Após mais algumas horas de investigação, John B segue mais uma das pistas deixada pelo pai e descobre que, afinal, o ouro nunca naufragou e esteve todos aqueles anos na ilha, debaixo do terreno de uma casa dita assombrada.

Traições (in)esperadas e relações atribuladas

Lembram-se do Ward, o homem que se tornou Pogue depois de virar milionário? É precisamente à volta dele que se dá um dos pontos de viragem da história. Durante um episódio cheio de suspense, descobrimos que, juntamente com o pai de John B, os dois estavam a investigar o paradeiro do Royal Merchant.

Um importante flashback revela o confronto entre Ward e John, a ambição do milionário a contrastar com a humildade do outro. Num momento de raiva, Ward trai quem considera ser a sua competição e elimina-o, tornando-se rival direto de John B em busca do ouro.

John B e Ward | Fotografia: Netflix

Como o ditado pede que se mantenha os amigos por perto e os inimigos ainda mais perto, Ward aproxima-se estrategicamente de John B com a intenção de espiar o grupo. O que ele não espera é a filha, Sarah, acabe por iniciar uma relação com o jovem e se alie a ele.

Esta relação previsível não veio adicionar nada à série. Pelo contrário, só atrapalha a narrativa e retira tempo de antena a ligações que mereciam mais atenção, como é o caso de JJ com o pai, Luke.

No desenrolar dos episódios, a empatia que criámos com JJ cresce cada vez mais. O abuso físico que sofre por parte do pai tem um impacto devastador tanto na personagem como no espectador.

Kie e JJ | Fotografia: Netflix

Outer Banks peca pela falta de profundidade dada a alguns personagens, nomeadamente JJ. Mais que um amigo leal e disposto a tudo para proteger aqueles que considera família, é também um filho negligenciado pelo pai, daí a sua rebeldia e impulsividade. Definitivamente merecia mais atenção.

A cenografia deslumbrante é um ponto a favor

Só quem conhece muito bem a ilha sabe que a série não foi realmente gravada em Outer Banks, no entanto, as filmagens conseguem reconstituir fielmente a região. O cenário é sempre paradisíaco, mesmo no auge de uma tempestade, e a imagem mais alaranjada parece situar a ação sempre ao amanhecer ou pôr-do-sol.

Fotografia: Netflix

Uma série coming of age sem uso de tecnologia

Um dos grandes pontos a favor de Outer Banks é o facto de os guionistas não sentirem necessidade de incluir aparelhos digitais no dia-a-dia das personagens. Quem disse que é preciso estar-se sempre agarrado à Internet, a um telemóvel ou computador para estar ligado ao mundo?

Com as comunicações desligadas por causa do furacão, os jovens são obrigados a ser criativos e comunicar através do rádio do barco, de pedras contra janelas de vidro, sinais de luz ou ainda por cartas e pistas palpáveis, a escolha do pai de John B para que o filho descubra onde está o ouro.

Fotografia: Netflix

Outer Banks é um mistério bem sucedido que acompanha um grupo de jovens dispostos a comprometer o seu próprio destino – e a vida – em prol de um bem material de milhões.

Uma história de superação e adversidades sociais e familiares que, mesmo com algumas lacunas, consegue criar afinidade com o espectador. Original o suficiente para nos prender ao ecrã, a série mantém-nos ansiosos para saber até onde esta aventura vai levar os Pogues.

Os dez episódios da nova produção juvenil da Netflix estão disponíveis para ver em binge-watch no catálogo internacional da plataforma de streaming.

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