25 de abril
I Encontro da Canção Portuguesa, Março de 1974

25 de Abril: canções para celebrar a Liberdade

Às 00h21 do dia 25 de abril de 1974, “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso soou na Rádio Renascença, marcando o início das operações para levar a cabo a Revolução. Desde então, a canção tornou-se um sinónimo de “liberdade”. A música de intervenção sempre teve uma enorme importância no curso da Revolução e ainda hoje são compostas grandes canções para celebrar a emancipação e para nos lembrar que, apesar de pensarmos que sim, a democracia nunca se pode dar por adquirida. O Espalha-Factos reuniu algumas sugestões para que, mesmo a partir de casa, não deixes este dia passar em branco.

Coro da Primavera, Zeca Afonso 

Editada originalmente em 1971, é a faixa final do mítico disco Cantigas do Maio, gravado em França e produzido por José Mário Branco (enquanto este estava exilado em Paris, por ser perseguido pela PIDE). Os versos da canção falam por si, passando uma mensagem de luta e de esperança, ressoando com intensidade no refrão “Ergue-te ó Sol de Verão/ Somos nós os teus cantores/ Da matinal canção/ Ouvem-se já os rumores/ Ouvem-se já os clamores/ Ouvem-se já os tambores”. É um dos bastiões do cancioneiro da música de intervenção reproduz a mensagem de que a revolução já não é uma vontade mas sim uma necessidade – invoca, assim, trabalhadores rurais como lavradeiras e mondadeiras para serem invadidos destes novos ideais de liberdade.

Deus, Pátria e Família, B Fachada

Em Deus, Pátria e Família, B Fachada evidencia tudo aquilo que Zeca temia que acontecesse em Portugal. Lançado em 2011, a meio de uma crise instalada, da presença da troika e da governação da coligação de centro-direita, Fachada lança a crítica a um Portugal afundado nos seus problemas, a uma população inculta (e a uma cultura altamente moralista), à bipolarização que continua marcar fortemente o país. (“Impotência cultural/ Nem que fossem 100 Lisboas/ Cidadão é animal/ E eu faço isto é para pessoas”), a uma democracia que, tão jovem, se vê ameaçada.

Liberdade, Sérgio Godinho

Só há liberdade a sério quando houver/ liberdade de mudar e decidir/ quando pertencer ao povo o que o povo produzir“. Editada alguns meses depois do 25 de Abril, esta canção deixa claro que a democracia e a liberdade já não eram só um sonho distante – era exigente, era uma necessidade cada vez mais premente. Sérgio Godinho foi, assim como muitos outros cantautores, uma figura imprescindível para a formação de consciência política. Nunca se associou a nenhum partido, mas não foi isso que o impediu de mudar mentalidades e inspirar mudança social através das suas canções, sendo Liberdade uma das mais conhecidas e bem conseguidas do cancioneiro revolucionário. Para celebrar o 46.º aniversário desta data, Sérgio Godinho publicou nas suas redes sociais um vídeo onde toca, entre outras, esta canção.

Madrepérola, Capicua

O 25 de Abril não trouxe só liberdade de decisão, participação e expressão. Foi também um marco fulcral no movimento de emancipação feminina com o direito ao voto universal, ao alargamento da educação para além da culinária, novas oportunidades profissionais e a criação do Movimento de Libertação das Mulheres.

Parte do mais novo disco da rapper Capicua, Madrepérola é uma das canções mais empoderadoras da década. Em “Madrepérola” , Capicua louva, juntamente com Karol Conka, as mulheres emancipadas da nossa história e grita por liberdade. A rapper portuense nunca teve medo de ser política e sempre lutou pela mudança das mentalidades através de um rap poderoso sobre a emancipação feminina e sobre a (des)igualdade de género.

Tanto Mar, Chico Buarque

Composta em 1975, a primeira versão de “Tanto Mar” do músico brasileiro Chico Buarque de Holanda, é uma saudação à Revolução dos Cravos. Inspirado pela mobilização popular e pela luta pela liberdade o músico, preso numa ditadura militar que só teve fim em 1985. A primeira versão foi censurada pelo regime brasileiro mas em Portugal foi editada com grande êxito. Chico canta, quase com inveja, o sucesso da revolução: “Sei que estás em festa, pá/ Fico contente/ E enquanto estou ausente/ Guarda um cravo para mim. / Eu queria estar na festa, pá/ Com a tua gente/ E colher pessoalmente uma flor do teu jardim. […] Lá faz primavera, pá/ Cá estou doente”.

O Exílio, Benjamim

Editado, em 2015, o disco debut de Benjamim, Auto Rádio, tem várias canções interventivas. “Tarrafal” ou “O Quinito foi para a Guiné” evidenciam isto, mas é “Exílio” que nos salta à vista. Expõe uma situação que muitos portugueses partilharam durante e depois da crise que assolou o país. Vários jovens trabalhadores tiveram de deixar o seu país e trocá-lo por outros, e Benjamim não foi exceção. A crise, que também atingiu fortemente a indústria cultural, já antes debilitada, obrigou-o a “exilar-se” no Reino Unido. “Ah, Lisboa/ Levaste a minha geração para longe/ Traem-te a constituição de perto/ Mas não há mais com que pagar” é um dos versos mais fortes da canção que critica, ainda uma democracia cada vez mais débil: “E Abril está a acabar.”

Lê também: Entrevista a Benjamim: “estou há mais de um ano a preparar um disco novo”

Dá Jeitinho, Filipe Sambado

Filipe Sambado sempre colocou músicos como Zeca Afonso, Sérgio Godinho e Adriano Correia de Oliveira como algumas das suas maiores inspirações. Não é de admirar que, através das suas canções exponha, sucessivamente, questões e injustiças sociais. O seu mais recente disco, Revezo, editado em janeiro deste ano é, até agora, o seu trabalho mais significativo no que toca a canção de intervenção, onde discorre sobretudo acerca da opressão do trabalho “A jóia da rotina/ É voltar cedo p’ra casa/ Deixar o ouro na mina“. No entanto, já em Felipe Sambado & os Acompanhantes de Luxo, Sambado revelava esta preocupação – Dá Jeitinho, ao mesmo tempo que expõe precisamente sobre a questão do trabalho precário “Não tem mal doer/ Se é p’ró outro ganhar” e sobre o quão reais continuam a ser as desigualdades sociais, económicas e de oportunidades entre etnias, género, sexualidade e profissão.

Eu vi este povo a lutar (Confederação), José Mário Branco

José Mário Branco pode já ter partido, mas nunca nos esquecermos do seu importantíssimo contributo para a canção de intervenção portuguesa. “Eu vi este povo a lutar” é uma homenagem a todas e todos os portugueses que lutaram incessantemente para conquistar a liberdade. A canção foi uma das apresentadas no concerto que juntou José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto enquanto Três Cantos, no ano de 2009.

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