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Livros em tempo de pandemia. Crise que ameaça o setor pode ser “a maior de sempre”

A área editorial é um dos setores da cultura que mais sofre com esta crise. Quais são os efeitos do vírus no mundo dos livros?

A crise que ameaça a cultura também se estende aos livros, num momento em que se teme o encerramento de livrarias e editoras. As vendas baixam num país com maus hábitos de leitura, enquanto noutros o setor se fortaleceu, e ninguém consegue saber como se pode recuperar depois da pandemia da Covid-19.

Em Portugal, segundo dados divulgados pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), na semana de 23 a 29 de março registou-se uma quebra de 83% nas vendas de livros em livrarias (que estão, na sua maioria, fechadas ou a fazer venda à porta), e de 28% nos hipermercados. Mas, na semana anterior, diretamente antes da implementação do estado de emergência, já tinha sido registada uma quebra de 63,3% — o que equivale a uma quebra de 1,6 milhões de euros; ou seja 121,6 mil livros vendidos a menos.

O maior medo agora é o do fecho de livrarias e de editoras independentes, essenciais para a manutenção de uma sociedade literariamente viva e diversificada. O crescimento do comércio eletrónico em Portugal foi ténue, principalmente quando comparado com a quebra de vendas nas lojas físicas – de acordo com a APEL, as vendas virtuais representam 5% (ou menos) de todo o mercado livreiro português.

Esta pode acabar por ser uma das indústrias mais afetadas por esta nova crise. A falta de hábitos de leitura em Portugal criou fundações fracas para aguentar este momento, podendo ser uma das suas principais causas – em média, cada português compra cerca de um livro por ano, reservando 1,1% do seu orçamento para a compra de obras (em 2017). Apenas à volta de 40% dos portugueses leem pelo menos um livro no mesmo período, ressaltam dados do Eurostat citados pelo Expresso.

As medidas tomadas pelas editoras

Ana Afonso, diretora editorial do grupo 20|20 (composto pelas editoras e chancelas Booksmile, Cavalo de Ferro, Elsinore, Fábula, Farol, Influência, Nascente, Topseller e Vogais), disse à revista Visão que “a partir de meados de março tornou-se evidente que seria necessário suspender a publicação de novos livros”, o que no caso do grupo significou “o adiamento da publicação de 150 novos títulos”.

A maioria dos outros editores admitiu a mesma situação, assim como a viragem para a venda dos seus livros através dos seus sites — criados de novo ou já existentes, e reforçados agora — para permitir ao máximo a venda, estando a maioria das livrarias encerradas.

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Fotografia: VisualHunt

O perigo para as editoras e livrarias independentes

Bárbara Bulhosa, fundadora e diretora editorial da Tinta da China, disse também à Visão que teme “o fecho de várias livrarias e editoras independentes“. Já Francisco Vale, fundador da Relógio d’Água, avançou também à mesma publicação que “esta é a maior crise editorial de sempre“.

João Paulo Cotrim, fundador e diretor editorial da Abysmo, também não é otimista. Revelou à Visão que prevê “mudanças” que “poderão ser mesmo irreversíveis“, e mostra-se não só preocupado com o “facto de não se gostar de livros entre nós” e “de se ler cada vez menos“, mas também com “o militante incumprimento das leis que procuravam regular tenuemente o setor“, referindo à Lei do Preço Fixo e aos descontos por vezes praticados por aqueles com mais espaço de manobra financeira.

No entanto, guarda alguma esperança de que “se regresse ao negócio do papel impresso“, ao invés do crescimento do digital, até porque o livro é um produto “especial”, que “tem aquela aura romântica de mudar vidas“.

A situação no Reino Unido

Enquanto em Portugal as vendas sofreram quedas gigantescas, no Reino Unido, por exemplo, observou-se a reação contrária. A Waterstones, uma das maiores redes de livrarias britânicas, registou subidas bastante consideráveis em vendas.

Dados avançados pelo The Guardian mostram que, na mesma semana em que Portugal registou quebras de 63%, a venda de livros em geral no Reino Unido subiu 6% no total; online, a Waterstones registou uma subida, a certa altura, de 400%. Foi tal a situação que só por reclamação dos empregados é que a gigante livreira resolveu fechar as portas, depois de uma declaração inicial de que iria permanecer aberta.

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Fotografia: VisualHunt

Assim que se começou a falar do auto-isolamento em casa, as vendas aumentaram com as preparações para essa situação. Notou-se pelas vendas que, por exemplo, os britânicos se estão a dedicar agora à leitura dos clássicos e de livros com muitas páginas que nunca tiveram tempo ou coragem para começar: a Waterstones registou aumentos nas vendas de títulos como 1984, de George OrwellThe Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood ou The Secret History, de Donna Tartt.

No Reido Unido, dados mostram que os livros de “aprendizagem em casa”, sejam manuais escolares ou de atividades, foram os que mais cresceram, seguidos pelos livros de artes e artesanato – o que mostra a necessidade não só de materiais de ensino para as crianças cujas escolas encerraram, mas também de entretenimento (que não requeira um ecrã) para toda a família.

A venda de paperbacks (livros de capa mole, em oposição às edições hardbacks, de capa dura e mais caros) aumentou também, com uma subida de 35% na última semana completa de março, mais especificamente nos livros de ficção. Aliás, o único género em que verificou uma descida nas vendas no Reino Unido foi a non-fiction (não-ficção, como história, política ou auto-ajuda) para adultos, mostrando uma tendência para a procura de narrativas e mundos ficcionais como forma de escapismo.

Que apoios irá o setor editorial precisar em Portugal?

Ana Afonso, do grupo 20|20, relembrou à Visão que “é curioso que tanto se fale da importância do setor cultural e da urgência de se apoiar o mundo das artes, mas que não tenham surgido até agora quaisquer referências à área editorial”. A diretora editorial relembrou o “imenso leque” de profissionais, muitos independentes, que viram a sua atividade profissional abrandar devido a esta situação.

Bárbara Bulhosa alertou que “deverá ser clarificado quem de facto precisa de apoios estatais. Não me parece razoável que tratem da mesma forma pequenas empresas ou trabalhadores independentes, e grandes grupos editoriais ou cadeias de livrarias“.

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Fotografia: Freddie Marriage/ Unsplash

O aumento do turismo em Portugal e o crescimento e estabilização económica tinham finalmente levado à recuperação e crescimento do setor após a última crise financeira. Mas, no pós-Covid-19, livreiros e editoras temem agora que a crise financeira que afeta as famílias as leve a cortar primeiro na compra de livros – que nem sempre são vistos como bem de primeira necessidade.

A gravidade da situação já levou os livreiros independentes a unirem-se, formando a ReLI – Rede de Livrarias Independentes. Esta é uma associação livre de apoio mútuo de livrarias de todo o país sem ligação a redes e cadeias dos grandes grupos editoriais e livreiros. O objetivo é coordenar esforço para enfrentar a crise que se aproxima, “comprometendo a existência de pequenas livrarias em todo o país“, como se pode ler no site da organização.

Em carta aberta aos órgãos de soberania nacionais, onde se apresentam propostas pela “sobrevivência das livrarias independentes, os livreiros reforçam a “importância vital das livrarias independentes na coesão territorial e no tecido social e cultural do país ao alimentar a matéria de que se faz o pensamento, a perspectiva, a crítica e a evolução da humanidade“. Falam ainda do receio de que, sem apoios do governo, “as possibilidades de continuarem por cá quando a crise acabar são muitos reduzidas“.

Declara-se que acreditam ter chegado “a hora de o Ministério da Cultura se comprometer em encontrar ou contribuir para uma solução que previna o encerramento de mais e mais livrarias“, listando-se um conjunto de medidas emergenciais, que julgam ser de tomada urgente:

  • A garantia de que as medidas de apoio à tesouraria das empresas não exclua o pequeno comércio – em particular as livrarias independentes;
  • A aquisição de livros e revistas por parte do Estado para bibliotecas escolares, municipais ou nacionais, de acordo com a sua proximidade, e não pelo preço do livro – que deve ser o PVP original ou fixado num desconto que deve ser no máximo de 10%;
  • Apoios financeiros específicos destinados ao pagamentos de rendas, evitando-se despejos;
  • Seguros de salários ou medida equivalente que proteja também os sócios-gerentes destas micro e pequenas empresas;
  • O apoio à constituição da Associação RELI;
  • O cumprimento escrupuloso da Lei do Preço Fixo, mesmo (e especialmente) em tempos de emergência.

Como podemos nós ajudar?

Para além da carta aberta em que realiza pedidos ao Governo, a ReLI criou duas campanhas para o público poder ajudar as livrarias independentes. A primeira é a Fique em casa, mas não fique sem livros, em que um conjunto de livrarias aderentes aceita agora encomendas através do e-mail, com oferta dos portes de envio.

A outra campanha é a Livraria às Cegas, uma espécie de blind-date com um livro. Basta entrar em contacto com uma das livrarias aderentes, pedir um livro surpresa, e receber o livro em casa mediante um pagamento de 15€ ou mais. A obra é escolhida pelos livreiros com base numa série de perguntas originais que ajudam a decidir o título. Condições como modos de entrega, pagamento e trocas terão de ser discutidas com o livreiro em questão, cuja lista se pode verificar também no site da ReLI.

Ainda para ajudar, as editoras Antígona e Orfeu Negro uniram esforços e criaram uma campanha nos seus sites para apoiar diversas livrarias independentes por todo o país – Adopta uma livraria – 10 Dias, 10 Livrarias. Todos os dias, até 23 de abril (Dia Mundial do Livro), uma livraria é escolhida diariamente por cada uma das editoras, e 30% de todas as vendas no site ao abrigo da campanha irão diretamente para essa livraria. A campanha dá ainda ao cliente um desconto de 10% em todo o catálogo disponível e oferta dos portes de envio. A lista de livrarias apoiadas está disponível nos sites e redes sociais de cada editora.

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