Nuno Markl
Fotografia: Catarina Alves / EF

Nuno Markl: Nos diretos do Bruno Nogueira “criámos uma espécie de novela improvisada”

O Espalha-Factos teve oportunidade de falar com Nuno Markl. Fazer rádio em tempo de quarentena foi o ponto de partida de uma conversa que andou entre as participações nos ‘diretos’ do Bruno Nogueira, a rádio no Ártico que se tornou num fenómeno viral, mas também sobre projetos futuros, entre os quais uma continuação da história de 1986.

Numa bem humorada videochamada, o conhecido humorista, argumentista e radialista fez também revelações sobre os bastidores de alguns dos seus trabalhos e da dificuldade de concretizar ideias de guiões em Portugal.

Sei que nestas últimas semanas, tens estado em modo teletrabalho na Rádio Comercial, por isso quero perguntar: Como está a correr o processo de adaptação? Tens sentido dificuldades em fazer rádio a partir de casa?

Acho que custa sempre, porque é tão diferente do que aquilo que estávamos a fazer. É algo estranho não estarmos [a equipa das manhãs da Rádio Comercial] todos juntos. Depois, até que nos consigamos habituar a lidar com os ligeiros atrasos da transmissão na Internet… [A equipa] vive muito da dinâmica dos timings e de dizer as coisas certas nos momentos certos e então, é um “pincel” autêntico [risos]. Às vezes basta que sejam dois ou três segundos [de atraso] para ser logo uma confusão. É algo que requer paciência. No entanto, acho que temos conseguido fazer uns “milagrezinhos” todas as manhãs. Agora temos estado a transmitir imagem através da página de Facebook da Rádio Comercial, por isso as pessoas têm tido oportunidade de nos ver. Às vezes temos linguagem explícita, dizemos palavrões, e dessa forma [as pessoas] têm visto a nossa frustação em tentar contornar entraves técnicos. Mesmo assim, tem sido divertido e tem-nos permitido desenvolver criatividade noutras direções. Já tomei dois duches em direto para a rádio [risos]. Temos tornado as fraquezas como forças.

Já passou um mês desde que a Organização Mundial de Saúde declarou a pandemia do novo coronavírus. Para além da rádio, o que é que mudou no teu dia a dia?

Eu sempre fui um tipo “caseiro”, ou seja, não é um esforço por aí além dizerem-me para ficar em casa, porque gosto de o fazer e até faço com muito talento [risos]. No que sinto uma maior diferença é no contacto com as pessoas, sobretudo com a minha família. De resto, no trabalho, grande parte dele consiste em escrever e pensar em coisas [e] é algo que faço bem [estando] em casa. Tenho a sensação que estou a trabalhar mais agora do que quando isto tudo [a pandemia] começou. Achava que as coisas iam ser mais pacatas, mas [felizmente] há muitas solicitações, sobretudo assuntos nobres como ajudar em campanhas solidárias. Tenho tido uns dias muito ativos e não me tem sobrado muito tempo – de vez em quando tenho –  para pensar no caos que está a acontecer e no quão deprimente e assustadora é esta situação que estamos a viver. É bom estar ocupado porque acho que é terapêutico para mim, e como são coisas feitas para as pessoas julgo que também tem um efeito semelhante para elas. Por isso vivemos numa espécie de simbiose entre autor e espetador que tem sido boa.

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Algumas das coisas mais criativamente compensadoras e intensas da minha carreira têm sido partilhadas com este cavalheiro, @corpodormente. Os Contemporâneos, Uma Nêspera no Cu, e agora #ComoÉQueOBichoMexe. Este último está a ter uma estranha magia: é uma espécie de hiper-realidade / sitcom / talk show / telenovela onde facto, ficção, comédia, musical, confessionário e terapia nos atiram para uma dimensão paralela onde tudo é possível. Desde o primeiro minuto que o Bruno é o maestro de uma experiência que às vezes me lembra as loucuras do Andy Kaufman e da qual saio feliz todas as noites. No fim de cada transmissão, tenho a caixa do Instagram cheia de mensagens incríveis: vão desde as pessoas que percebem o gozo da coisa (felizmente a maioria), até pessoas que espezinham (“o Bruno tem razão, és mesmo um c*[email protected]”) e pessoas que dão azo ao seu instinto protector (“o Bruno portou-se muito mal contigo, foi mau amigo”). Estas opiniões conseguem ser tão erradas e, no entanto, fazer tanto sentido sobre a maravilhosa confusão que esta dimensão paralela é. Digo apenas que o Bruno é um dos meus melhores amigos, e que é um prazer participar nisto com ele todas as noites. E não, não está a ser preciso tratá-lo por você e por “senhor Bruno”. Obrigado a toda a gente que mergulha nesta toca todas as noites. ❤️

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Uma das coisas que tem ocupado o teu tempo nestes tempos de quarentena tem sido a tua participação nos diretos do Bruno Nogueira no Instagram. Quando esta situação terminar, há planos para criar um espetáculo com base nestes diretos que têm feito?

Na verdade, ainda não pensámos nisso. Não sabemos o que é que vai acontecer no futuro, mas temos lido muitas mensagens de pessoas a dizerem “o que vai ser de nós quando isto acabar” [risos]. Não fazemos ideia do que pode acontecer a seguir a isto. Às vezes fantasio com a ideia que todas aquelas pessoas que estão nos diretos têm de se juntar num dia, mas ainda não temos um único plano traçado, porque na realidade aquilo nunca teve planos traçados. Apenas quisemos fazer esses diretos como muita gente começou a fazer antes de nós e tornou-se viral de uma maneira alucinante. [No outro dia] mandei uma mensagem ao Bruno [Nogueira] e ao Filipe Melo a mostrar que um direto do Taika Waititi [realizador], onde ele falava sobre o filme Thor: Ragnarok, tinha tido 20 mil espetadores. É preciso referir que ele tem quase dois milhões de seguidores no Instagram, enquanto eu e o Bruno temos muito menos [Nuno Markl tem mais de 570 mil e Bruno Nogueira mais de 420 mil seguidores] e mesmo assim conseguimos atrair cerca de 60 mil pessoas. É uma lição de engagement…

Para perspetivar, 60 mil pessoas é quase a lotação esgotada de um festival de verão.

Pois é. O Observador fez um artigo de comparação sobre as possíveis audiências de Como é que o bicho mexe? [nome dos diretos do Bruno Nogueira] com outros canais de televisão. Obviamente não tinha mais que a CMTV, mas teria mais do que a RTP3 ou que a TVI24. É algo muito bizarro e ainda não parei para refletir sobre a maneira de como se cria e apresenta conteúdos ao público. Faz-me lembrar aquelas mercearias “diretamente do produtor ao consumidor”. Aqui não há produtoras nem há direções de canais e por isso não há pressão. Há liberdade pura. Provocámo-nos uns aos outros. Criámos uma espécie de novela improvisada. Nem te consigo explicar bem o que aquilo é.

Um dos momentos mais virais que aconteceu durante essas livestreams foi quando, a dada altura, enquanto conversavas com o Bruno Nogueira, recomendas uma rádio feita no Ártico e depois fazes um apelo para as pessoas seguirem essa rádio. Numa questão de horas, a página de Instagram ficou com milhares de seguidores… [ouvem-se os cães do Nuno Markl a ladrar e a baterem na porta de vidro]

Espera aí que tenho de abrir as portas às minhas cadelas [risos].

[risos] Sem problema!

Daqui a bocado se calhar vêm chatear-me para irem para a rua [risos].

Quero-te perguntar: em alturas como essa, em que tens um poder mobilizador nas pessoas, sentes-te um influencer?

Epá sim [risos]. Abomino essa designação! [risos]

Mas, de certa forma, consegues ter o mesmo efeito. Já chegaste a pensar nisso?

Sim, mas repara que, antes de existir esse conceito, eu lembro-me de, quando fazia a rubrica d’O Homem que Mordeu o Cão nos primeiros tempos da Internet, nós [a equipa da Rádio Comercial da altura] criarmos eventos que envolvessem o público ouvinte. Por exemplo: fizemos uma vez um movimento à volta da colher de pau, numa altura em que ASAE pensava proibir tal utensílio. Isso já era ser um influencer antes de existir esse termo. Estas coisas não são bem pensadas. Eu só achei que aquela rádio tinha algo de precioso e sentia que estava a ouvi-la sozinho. Achei fascinante que houvesse um tipo a fazer rádio de onda média no Polo Norte e achei interessante trazê-la em conversa durante o direto. Aquilo que aconteceu a seguir foi indescritível. O próprio locutor, Cal Lockwood, está sem palavras…

Tiveste oportunidade de falar com ele?

Só trocamos mensagens de Instagram de vez em quando.

Está nos planos ele ser um próximo convidado num direto do Bruno Nogueira? 

É uma situação muito delicada, porque já percebemos [Nuno Markl e Bruno Nogueira] que é simpático e está super feliz com o facto de estar a fazer rádio para mais gente, mas abomina exposição. Se dependesse dele [Cal Lockwood], fazia rádio mesmo que não tivesse ninguém a ouvi-lo. Ele foi-nos muito claro sobre isso e não podemos forçá-lo ou pressioná-lo. Sei que há muitos jornalistas portugueses e estrangeiros a querer entrevistá-lo. [Esta situação] é uma fábula em tempos de isolamento social. Temos muitas pessoas a ouvir aquela rádio e a sentir dali um calor humano e uma união.

Outra das coisas que tens andado a fazer é promover novamente a série 1986. Tens feito uma espécie de watchparty dos episódios…

Não é bem uma watchparty. Passamos o episódio e vamos falando por cima dele. No primeiro episódio estive eu, alguns atores da série e o realizador Henrique Oliveira. Entendi que existia um interesse renovado pela série. Vocês [o Espalha-Factos] também contribuíram para isso, dado que aconselharam a fazer binge-watching e por isso obrigado.

Obrigado nós também! Está na calha existir uma segunda temporada dessa série ou fazer um spin-off? Se me permites, deixo a sugestão de criares um spin-off chamado 1996 com as personagens na faculdade…

[risos] Nós temos ideias definidas para uma segunda temporada. Continuaria a chamar-se 1986 e seria passada no verão desse mesmo ano. Seria o nosso ‘Verão Azul’. Depois do final “felizes para sempre”, o desafio seria procurar como seria esse “felizes para sempre” e iria buscar referências ao imaginário das férias de verão nos anos 80. Infelizmente a RTP disse “não, não estamos interessados” [risos]. O que é que nós [equipa da série] podemos fazer? Não sou uma pessoa de insistir. Não acontece algo como nos Estados Unidos, em que, quando um canal de estação não está interessado em fazer uma continuação, pode existir um outro que esteja. Lembro-me, por exemplo, do caso de Arrested Development ou do Brooklyn Nine-Nine.

Nunca pensaste em fazer uma campanha crowdfunding para fazer a produção dessa suposta segunda temporada?

É complicado, porque é algo muito caro. Talvez fosse mais barato fazer um filme e foi algo até que consideramos, com o objetivo de “fechar” essa história. Em Portugal, os crowdfundings são muito limitados por isso não sabemos muito bem como faríamos. Uma das coisas que falámos foi adaptar as ideias da segunda temporada para uma banda desenhada, uma graphic novel. Eu e o Filipe Homem Fonseca começámos a ter uma ideias para isso e conversámos com uma das pessoas que fez fan art da série, a Selma Pimentel. Agora é uma questão de ter tempo para nivelar a história…

Portanto essa ideia da banda desenhada vai mesmo avançar?

É provável que sim. Está dependente de mim, porque não tinha disponibilidade para me agarrar a isso, mas é algo que vamos fazer nos próximos tempos. É a coisa mais barata que podemos fazer. Ou isso, ou fazer uma rádio-novela [risos] com os atores a lerem os diálogos e deixar as pessoas imaginar a cena [risos]. Há também outros obstáculos que surgem também, como o facto do Miguel Moura e Silva [Tiago, em 1986] estar a crescer de forma desmesurada. Quando fizemos a sessão comentada do 1986, a Laura [Dutra] ficou em choque, porque ele está magro [pequena pausa]. Parece o Big Lebowski, com o cabelo muito grande e barba [risos].

Tu escreves, fazes rádio, desenhas e também fazes dobragens. Entre estas quatro opções, qual é que gostas mais de fazer?

Acho que há um empate entre rádio e escrever. [No que diz respeito à] rádio será sempre uma paixão para a vida inteira e que farei sempre independemente onde seja. Estou muito contente na Rádio Comercial, mas se, por algum motivo, me “chutasse” [risos] há tantas maneiras de fazer rádio através dos podcasts. [Fazer rádio] é algo que me vejo a fazer até ao fim dos meus dias, tal como escrever argumentos. O meu problema é que, em Portugal, é difícil concretizar. Escrever uma série como 1986 é uma conquista tremenda, ou o Refrigerantes e Canções de amor. Nesse filme, o processo foi tão aluciante e tão absurdo de tantas maneiras possíveis que daria um show de stand-up [risos]. Estou a ganhar coragem para, um dia, contar essa história. No natal passado, estreou a versão extensa desse filme na RTP, e que está disponível na RTP Play, e vejo comentários de pessoas a dizer: “muito bom!” ou “chorei!”. Eu é que chorei com a feitura daquilo [risos].

Para além das livestreams com o Bruno Nogueira, tens andado a preparar algum novo projeto? Se sim, o que nos podes contar?

No meio deste caos todo, recebi um notícia bastante animadora. Não posso dizer muitos detalhes, mas aquele argumento que levei há alguns anos atrás – o Por Ela – que gostei muito de escrever e que me diz muito, de repente, surgiu uma oportunidade de tornar isso em realidade. Neste momento, estou no processo de pegar naquilo outra vez. A última vez que estive de volta desse argumento foi há uns cinco anos. Quando esta pandemia terminar, isto é uma das coisas que poderá vir a acontecer. Não gosto de deitar foguetes, porque são sempre processos complicados. Às vezes dizem-me: “Bolas! És o Nuno Markl. Não te abrem as portas?”, e eu digo: “Para escrever guiões, não”. É uma reflexão que tenho feito, sabes? Há certas pessoas que pensam que eu sou só apenas [o autor] d’O Homem que Mordeu o Cão e não acham que tenho capacidade de escrever guiões.

A sério? Sentes isso?

Sim, sinto. [Aliás] houve também uma altura em que estava a apresentar o 1986. Não vou dizer nomes, mas houve alturas repletas de momentos surreais. Lembro-me de estar a fazer o pitch da série e de uma das pessoas responsáveis perguntar: “Espera aí. Isto é uma história de amor?”, e eu disse: “Sim. Na sua essência é uma espécie de um pequeno Romeu e Julieta com o ambiente das presidenciais portuguesas de 86”. A pessoa em questão depois respondeu-me com muito desdém: “Epá mas tu sabes lá escrever amor” [pequena pausa]. Somos um país que põe muitas etiquetas facilmente. Dito isto, estou muito interessado neste filme [Por Ela] que é uma história que me faz sair da minha zona de conforto. Aquilo que posso dizer é que não é uma comédia tradicional.

Já vamos com quase 40 minutos de conversa e sei que és uma pessoa ocupada, por isso estou quase a terminar. És um poço de conhecimento da cultura pop, ou seja, gostas de muitas séries, muitos filmes e livros. Do que é que não és fã?

[risos] Para te responder, faço referência a propósito da minha publicação, eu pus-me a explorar um novo serviço de streaming do Jeffrey Katzenberg. Essa plataforma tem uma quantidade insana de programas de culinária e de reality shows e, depois, tem poucas coisas que realmente me interessam. Por isso, leva-me a dizer, de caras, que o meu interesse por esse tipo de programas é zero. É algo que as pessoas nunca me ouvirão falar, a não ser que seja algo muito especial. Eu sou também, para aí, das seis pessoas em Portugal que nunca viu La Casa de Papel. Há pessoas que ficam chocadas comigo, mas na verdade, aquilo não me interessa. Já vi muitos filmes de assaltos na minha vida. Não tenho nada contra a série. Isto não é “snobeira” da minha parte. Aliás admiro muito o facto de uma série espanhola, que não teve muito êxito no seu país de origem, de repente torna-se num fenómeno a olhos vistos.

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