Dia Mundial da Arte: As pintoras que devias conhecer

As mulheres sempre pintaram, apesar de lhes ser dificultado o acesso ao ensino ou ao mercado de trabalho. As que conseguiram vingar no mundo artístico foram, muitas vezes, ignoradas por aqueles que, após a sua morte, escreveram a história da arte. Esquecidas nos cânones, demoraram até voltarem a ser reconhecidas pelos meios artísticos. Mas, apesar de hoje muitas já estarem presentes nos mais importantes museus do mundo, passam ainda despercebidas ao público em geral, cujo imaginário relativo à Arte inclui uma esmagadora maioria de nomes masculinos.

Neste Dia Mundial da Arte, o Espalha-Factos traz-te alguns nomes que devias conhecer de grandes artistas da história da arte ocidental. De Portugal aos Estados Unidos, apresentamos-te cinco séculos de arte, para todos os gostos, de vários estilos e nacionalidades.

Sofonisba Anguissola (1532 – 1625)

Pintora renascentista italiana, Anguissola vinha de uma família nobre. Nascida em Cremona, Lombardia, a mais velha de sete irmãos (seis irmãs e um irmão), teve a sorte de ter um pai que incentivou as filhas a receber formação e a melhorar os seus talentos. Sofonisba aprendeu com mestres locais, manteve contacto com Michelangelo, e dominou os retratos, o estilo de pintura onde ganha sucesso. Em 1559 é convidada à corte do rei Filipe II de Espanha para ensinar pintora à sua terceira esposa, a rainha Isabel de Valois. Casa duas vezes e regressa a Itália, onde com mais de 90 anos, o pintor van Dyck a visita e pinta o seu retrato. O seu trabalho foi apreciado pela comunidade artística da altura, mas durante a história as suas obras foram muitas vezes atribuídas a pintores masculinos daquele tempo, como Leonardo da Vinci ou Ticiano. O seu sucesso e o acesso que teve a uma educação mais formal abriu portas para as artistas mulheres que lhe seguiram. O seu trabalho pode ser visto em vários museus, como o Museu del Prado em Madrid e a Galeria Uffizi em Florença.

Artemisia Gentileschi (1593 – 1656)

Artemisia Gentileschi nasceu em Roma em 1593. Filha do pintor Orazio Gentileschi, entrou em contacto com a pintura muito cedo. Violada pelo seu tutor, Agostino Tassi, o julgamento produziu uma sombra sobre o seu trabalho durante muitos anos. Considerada uma dos grandes artistas do Barroco italiano, ela conseguiu ter uma carreira profissional como pintora, com clientela internacional e capaz de se sustentar financeiramente. Foi a primeira mulher a ser aceite na Academia das Belas Artes de Florença, e é célebre pela forma realista e natural (e não idealizada) com que pinta mulheres, principalmente em cenas da mitologia, da Bíblia, ou alegóricas, e pelo seu trabalho com cor, dando grande dimensão e drama às obras, inspirada no trabalho de Caravaggio.

Josefa de Óbidos (1630 – 1684)

Josefa de Ayala Figueira, mais conhecida como Josefa de Óbidos, nasceu em Sevilha, mas cresceu, viveu e fez toda a sua produção artística em Portugal, na vila que lhe deu nome. Filha de pintor, manifestou desde cedo talento para a pintura. Considerada uma dos mais talentosos artistas do barroco português, preferiu as cenas religiosas, talvez por influência da sua passagem pelo noviciado – apesar de não ter seguido a vida religiosa -, e as naturezas mortas, onde é mais notório o seu talento e maestria. Chegou a pintar retratos da família Real Portuguesa, nomeadamente de D. Maria Francisca de Sabóia e de sua filha, a princesa D. Isabel. Falece aos 54 anos em Óbidos.

Angelica Kauffman (1741 – 1807)

Maria Anna Angelika Kauffman, conhecida como Angelica Kaufman, foi uma pintora neoclássica suíça, nascida em Chur. Demonstra talento desde cedo, durante uma infância itinerante que a leva a viver em Itália, onde é aceite na Academia de Belas Artes de Florença em 1762. Muda-se para Londres em 1765, e é uma das duas mulheres membros-fundadores da Real Academia das Artes em 1768. Domina a pintura de retrato, paisagística e decorativa, mas é na histórica que se destaca, derrubando as barreiras que impediam de se dedicarem a esse estilo devido à necessidade de conhecer profundamente os clássicos, mitologia e textos bíblicos e de estudar anatomia a partir do modelo nu. Volta a Itália em 1781, onde conhece um jovem Goethe e onde falece em 1807, com direito a funeral de honra organizado pelos seus pares. Depois dela e de Mary Moser, demoraria mais de 150 anos até a próxima mulher ser aceite na Real Academia das Artes britânica – Laura Knight, em 1936.

Élisabeth Vigée Le Brun, ou Madame Le Brun (1755-1842)

Pintora francesa dos finais do século XIX, ganhou fama como retratista durante o Antigo Regime ao ganhar o favor da rainha Marie Antoinette. De estilo rococó com elementos neoclássicos, viveu em França até à Revolução Francesa a fazer fugir com a filha. Durante os seus 12 anos de exílio, viveu e trabalhou em Itália, Áustria, Rússia e Alemanha, retornando a casa em 1802. É aceite em dez Academias de Artes pela Europa, e terá pintado cerca de 660 retratos e 200 paisagens, mas as suas obras favoritas seriam aquelas com temas históricos. Publicou as suas memórias entre 1835 e 1837, já com mais de 80 anos. O seu sucesso profissional em vida leva-a a estar hoje exposta nos mais importantes museus do mundo.

Marie Spartali Stillman (1844 – 1927)

Marie Spartali Stillman nasceu em Inglaterra no seio de uma rica família burguesa grega, e foi não só uma modelo mas também pintora do movimento Pré-Rafaelita. Ela e as suas primas Maria Zambaco e Aglaia Coronio ficaram conhecidas como as Três Graças, cuja beleza coincidia com o ideal pré-rafaelita. O seu pai apoiava as artes e ela foi tutorada pelo pintor Ford Madox Brown. Os temas das suas obras vão ao encontro daqueles que este movimento abordava: figuras femininas, paisagens italianas, e cenas dos clássicos (ao invés de bíblicas) de Petrarca, Dante, Boccaccio e Shakespeare. Ela foi a única artista pré-rafaelita baseada em Londres a trabalhar nos Estados Unidos, onde expôs, e ao longo da sua carreira de mais de 60 anos produziu mais de 150 obras de arte.

Suzanne Valadon (1865 – 1938)

Nascida Marie-Clémentine Valadon e criada na pobreza em Montmartre, Suzanne Valadon, como ficou conhecida, sempre foi rebelde. Autodidata, aprendeu a desenhar aos nove anos. Determinada, aprendeu observando alguns dos maiores nomes da pintura pós-impressionista enquanto pousava para eles durante a década de 1880s. Por não ter uma educação formal, Valadon nunca se sentiu presa a um único estilo, e na sua carreira de 40 anos pintou principalmente nus, femininos e masculinos, retratos de mulheres e paisagens, fugindo aos lugares-comuns e às regras. Pintada por Renoir e Toulouse-Lautrec, um dos seus primeiros clientes foi Edgar Degas, e foi amiga de Pablo Picasso e Georges Braque.

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