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Noiserv em estúdio | Fotografia: Vera Marmelo

Noiserv: “A verdadeira intensidade da música está numa boa sala de concertos”

Quatro anos após o último disco, Noiserv está de regresso às edições com um projeto ainda sem nome.

Com quatro singles já disponíveis, Noiserv tem álbum marcado para setembro de 2020. Quatro anos após 00:00:00:00, a “banda sonora de um filme que não existe“, David Santos regressa a prometer a melancolia e contemplação que já é habitual nas suas composições e assume a sua veia multi-instrumentalista.

Espalha-Factos conversou com Noiserv – através de e-mail – sobre este novo projeto, cujo nome ainda não conhecemos, o processo de criação musical a meio de uma pandemia e o valor das edições físicas.

Lançaste, na semana passada, um cover da canção ‘No Cars Go’, dos Arcade Fire, com o Pedro Branco. Como é produzir um tema à distância? Quais são as maiores dificuldades?

Com o Pedro o processo foi bastante fluído e sem dificuldades. Acabou por ser engraçado, trabalhámos a música em vídeo chamadas constantes.

Esta pandemia está a ter um impacto fortíssimo na produção e vida cultural de Portugal. O teu disco, previsto para Setembro, mantém as datas previstas ou pensas em adiar alguma coisa? 

Por enquanto sim, espero que tudo se consiga resolver, ou pelo menos, acalmar até lá.

Esta “pausa” deu-te oportunidade de te focares mais nos últimos detalhes deste novo projeto? 

Verdadeiramente sinto esta pausa como algo estranho, e acabo por não me conseguir focar muito em nada, parece que qualquer comportamento de normalidade é sempre bloqueado pela estranheza de todo o momento.

O teu mais recente single, ‘Neste Andar’, trata da “impotência de nos entendermos a nós próprios num mundo inventado por outros”. Quem são os outros? 

Os outros são todos aqueles que não conhecemos e que verdadeiramente construíram o mundo onde vivemos. Mas a ideia da música, passa muito pela inevitabilidade de nunca conseguirmos perceber muito bem o que somos e o que andamos por cá a fazer, a não ser viver um conjunto de anos insuficientes para nos entendermos na totalidade. Acaba por ser também uma reflexão para nos tranquilizarmos ao termos noção disso.

No videoclipe desta canção casas música e o jogo GTA V, o que parece explorar exatamente esta capacidade de podermos “encenar tudo”. Como surgiu esta ideia de fazer um teledisco a partir de um videojogo? 

Nunca sei explicar muito bem de onde vêm as ideias, aparecem, e poucos minutos depois já existem muitas outras relacionadas com a primeira. Aqui foi o caso, algures no processo de pensar o video achei que seria engraçado a base ser um videojogo.

Na verdade, as tuas canções vêm sempre acompanhadas de elementos visuais muito criativos, seja pelos videoclipes seja pela capa dos teus discos. Os quatro singles que lançaste até agora têm todos vídeos muito diferentes entre si. És tu que estás por trás deles também? 

Sim, gosto sempre de pensar todos os processos do disco. No caso dos vídeos estou a fazê-lo em parceria com um grupo de pessoas incríveis que se apelidam Casota Collective, de Leiria.

Arranjas sempre maneiras diferentes de promoveres as tuas canções fisicamente – uma caixinha de música, um álbum que vem com um lápis para colorir… Num mundo cada vez mais dominado pelo online e pelo streaming, continuas a valorizar a edição física dos discos? Podemos esperar algo diferente para este? 

Acredito que enquanto formos humanos e não máquinas, o objecto é das coisas mais importantes que temos, no qual guardamos memórias e histórias. Tenho pensado bastante no objecto deste disco, agora se depois as pessoas vão gostar, isso já não sei.

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Noiserv em estúdio | Fotografia: Vera Marmelo via Noiserv
Em 2014, em entrevista ao Espalha-Factos, dizias que o público português é muito recetivo aos artistas portugueses, independentemente do género. Sentes que esta é uma realidade que perdura? 

Sinto que está cada vez melhor [risos].

Durante estes tempos de pandemia, os diretos no Instagram têm sido uma maneira dos músicos continuarem a apresentar-se ao público. Inclusivamente, foi realizado um festival, o Eu Fico em Casa, onde foste “cabeça de cartaz”. O que achas desta utilização da tecnologia para trapacear a falta de concertos e apresentações físicas?

Acho que é importante que os músicos se consigam apresentar de alguma forma, até porque isso acaba por ser um conforto para as pessoas. Só espero é que no final de tudo isto as pessoas se lembrem que isto era um “plano B” e que a verdadeira intensidade da música está num boa sala de concertos, repleta de público, onde esse público não teve preguiça de sair de casa e quis ouvir a música que mais gosta de forma verdadeira e não digital. 

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