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João Simões dos Grand Sun: “Saltar do público para o palco acabou por mudar muito em nós”

O vocalista e guitarrista dos Grand Sun comenta o processo de criação do novo disco, Sal Y Amore.

O primeiro sal saudável para hipertensão. É assim que os Grand Sun descrevem o seu primeiro álbum, Sal Y Amore. O Espalha-Factos esteve à conversa com João Simões, vocalista e guitarrista do conjunto indie lisboeta, que nos levou pelo processo de criação deste último lançamento.

Simões também explora as últimas experiências da banda, com a digressão que fizeram no ano passado e como estes concertos moldaram esta nova fase. Em tempos de isolamento social, devido à pandemia de Covid-19, conta como as viagens fizeram dos Grand Sun cada vez mais cidadãos do mundo, e como planeiam voltar às tours assim que possível.

Em 2018, a banda editou o EP The Plastic People of The Universe, que os lançou para a cena musical da qual foram avidamente fãs e pela qual se inspiraram. Ao telefone, João Simões descreve como tem sido o percurso desde então.

Como foi participar nesses festivais pelo país após o lançamento do vosso primeiro EP,  The Plastic People of The Universe?

Para nós, foi algo novo, porque o nosso último trabalho foi o primeiro. Então, não tínhamos tido a oportunidade de tocar nestes festivais. Tocámos, por exemplo, no Avante, no Ecos do Lima e no Festival TermómetroAinda não tínhamos lançado o Sal Y Amor, mas já tocámos grande parte das músicas dele ali. Deu para ganhar alguma rodagem de palco, o que para nós foi importante.

Essas viagens influenciaram a criação do novo álbum?

Totalmente! O disco foi escrito enquanto estávamos em tour, sendo um pouco sobre as experiências que fomos tendo ao vivo. Cada concerto que íamos dando é como se houvesse uma surpresa nova, e fossemos descobrindo que efetivamente queríamos fazer um disco com um carácter um bocado mais live. 

Começamos a reparar que as pessoas gostavam das músicas assim mais rápidas. E então foi essa a vertente que decidimos puxar neste disco.

O novo álbum é anunciado como “o primeiro sal saudável para hipertensão”. Como chegaram a este conceito?

Foi fruto de uma piada: nós queríamos ter um nome que tivesse uma influência assim um bocado mais latina, mais quente. Então decidimos em “Sal Y Amore”, que na verdade é uma mistura de espanhol, com italiano, com português e com tudo. 

Qual é a mensagem que querem deixar para quem escuta Sal Y Amore?

Este disco é, no fundo, um conjunto de canções que fala sobre as nossas vivências no último ano: fala das relações que começaram, das que acabaram, de tudo isso. Queríamos falar de amor, mas já não era aquele tipo [de amor] suave, como havia no EP. É mais esse tipo de amor com sal, no fundo.

As atuações do primeiro EP afetaram a forma como vocês vêem a música?

Sim, sim. Nós vamos a concertos desde sempre. O que nos levou a criar a banda até foi porque na altura de 2013 e 2014 nós íamos ver concertos quase que semanalmente. Fomos hiper influenciados por bandas como os Linda Martini, os Capitão Fausto e os Paus — que, na época, andavam todos a lançar discos. 

Então quisemos começar a banda. É engraçado! Saltar do público para o palco acabou por mudar muito em nós. Mas toda a nossa idealização do concerto ao vivo sempre influenciou o que nós íamos vendo. O facto de irmos aos palcos com outras bandas também fez com que nós mudássemos um bocado a nossa forma de fazer música. Estivemos a tocar com bandas internacionais e nacionais, entretanto. Sim, é sempre um processo de aprendizagem e recolocação na nossa música.

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Ao longo do álbum, percebe-se que as faixas variam um pouco em estilo, algumas são mais delicadas, outras mais punk. Como chegaram a este equilíbrio?

Nós somos simultaneamente muito fofinhos e muito rock. As nossas influências dividem-se mais ou menos em dois grandes grupos. Gostamos muito do rock psicadélico dos anos 60, e do pop psicadélico — como Beach Boys, e por aí fora. Mas também gostamos muito da energia e do nervo das bandas de pós-punk, como King Gizzard & The Lizzard Wizzard e os Parquet Courts. Por isso, decidimos que queríamos explorar estas duas temáticas — daí o “Sal” e o “Amor”. 

Em comunicado, avisam que o amor vai de um mais inocente ao mais maduro. O que querem contar com isso?

No nosso EP anterior há uma faixa que se chama Flowers’, que é uma malha completamente de contemplação pop-psicadélica. Há um namoro, mas é muito visual e inalcançável. E neste disco não: tudo é muito efetivado, fala de porque  as coisas não resultam. O narrador tem ali um processo de catarse, de perceber porque não conseguiu fazer determinadas coisas. Ou seja, aqui, no Sal Y Amore, nós metemos mais o dedo na ferida do que propriamente no disco anterior, daí que falemos muito deste tipo de ilusão. 

Como é que vocês definiriam os Grand Sun de agora, deste novo álbum?

É difícil de definir. Agora nós lançamos este disco, o Sal Y Amore, que é provavelmente o mais genuíno que nós temos em relação a agora. Mas só o facto de estarmos agora parados, em quarentena, cada um na sua casa, e não estarmos em concerto, está a fazer-nos mudar outra vez. 

Conta-nos mais sobre os singles que anunciaram a chegada do novo disco. 

Nós lançamos três singles. O primeiro foi o ‘Feeling Tired’, e queríamos que fosse uma mudança face à nossa linha anterior, do EP. Recebíamos sempre esse tipo de crítica nos concertos: a malta ia ver, curtia muito, mas não estava à espera daquilo porque não tinha nada a ver com o que éramos em disco. Lançámos o segundo single em janeiro, que foi o ‘Veera’, uma música bastante mais espacial, mais contemplativa. 

Agora, há cerca de uma semana, estreámos o ‘Circles’, que é o single mais frenético, com mais energia do disco — e acho que é o que fala mais diretamente com as pessoas. Tanto que nós decidimos fazer um teledisco em casa. Apesar de aquilo parecer um talk show, é a casa do nosso tecladista. E a ideia é que estes três singles dêem um bocado do disco. 

E, sobre o teledisco, de onde surgiu a ideia do talk-show

Nós somos muito fãs de um apresentador, o Eric Andre, que é host de um talk-show americano que passa a altas horas da madrugada, com um tipo de humor completamente surreal. Ele leva lá os convidados e depois há uma sucessão de acontecimentos que ninguém está à espera, e aquilo torna-se mesmo bizarro. 

Hoje em dia há imensa informação, e há desinformação. Nós queríamos que o nosso talk-show fosse uma sátira ao ruído constante ao qual estamos expostos. Há tanta coisa a passar-se, e tanto conteúdo, que as pessoas acabam por ficar um bocado overwhelmed

Qual é a música que é mais ‘sal’ e a que é mais ‘amor’ do disco? 

Mais sal se calhar a ‘Palo Santo’, e mais amor a ‘Picture’. A Palo Santo acaba por falar de um amor mais carnal, [é] mais salgada, [fala] mais da cobiça. No fundo, são várias coisas numa. É um bocado um diálogo de uma pessoa, quase tipo um pavão, que está a mostrar as suas cores todas e tentar engatar outra pessoa. 

E depois tens a ‘Picture’, que é uma música de auto-análise. É a letra mais forte do disco, mais bem escrita, com mais metáforas. Lá está: é mais de amor do que sal. 

Achas que este é um álbum que é menos de Lisboa, de Oeiras, e mais do mundo? 

Nós cada vez menos gostamos de dizer que somos de Oeiras. Nós gostamos de dizer que somos lisboetas por uma questão de identificação de local. Mas somos um bocado cidadãos do mundo: viajamos muito, estamos muitas vezes fora, cantamos em inglês. 

Quais são os planos dos Grand Sun para este ano?

Há um bocado de tempo que nós pensamos sobre o que vamos fazer. O que posso garantir é que vamos dar um tempinho até a situação ficar mais calma, e só depois é que vamos começar a tocar. Estamos a tentar remarcar todos os concertos, e temos em mente fazer uma digressão europeia. É um plano que já temos desde antes de lançarmos esse disco. Agora não é uma boa altura, logicamente.

Temos agora uma agência, que é a Gig, e estamos a tentar marcar isso. E pronto: vermos se ainda conseguimos apanhar alguns dos festivais deste ano, quanto mais não sejam os finais. E temos que promover este disco. Estamos a pensar em mais trabalhos, e em escrever mais músicas, mas agora gostaríamos de escrever este disco ao vivo.

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