Maria Elisa Silva
Fotografia: André Madeira

Elisa. “O meu coração partiu duas vezes: como fã da Eurovisão e como participante”

Até há pouco tempo, o nome de Maria Elisa Silva — mais conhecida como Elisa — era desconhecido para o público português. Mas a sua recente vitória no Festival da Canção mudou tudo para a jovem madeirense. O Espalha-Factos conversou com a artista de 20 anos, que é também aluna da Escola Superior de Música de Lisboa.

Elisa cresceu na Ponta do Sol, “uma vila na zona oeste da Madeira”, no seio de uma família que teve sempre “gosto pela música”. A sua mãe tocava órgão e o seu pai tocou num conjunto que fazia parte dos arraiais na Madeira.

Começou a cantar aos sete anos de idade, e aos 13 apercebia-se de que a música podia ser a sua vida. Sete anos depois, a 7 de março de 2020, vence o Festival da Canção com a sua interpretação de ‘Medo de Sentir’, de Marta Carvalho, numa das edições mais renhidas do concurso.

A sua vitória no Festival da Canção garante-lhe a oportunidade de representar Portugal na Eurovisão 2020, mas pouco depois é anunciado o cancelamento do evento devido à pandemia de Covid-19.

De onde é que nasceu esta paixão pela música?

Já me fizeram tantas vezes essa pergunta e eu acho que disse sempre a mesma coisa, mas é a verdade. Eu sou da Madeira e os meus pais sempre tiveram um gosto pela música. A minha mãe tocava órgão quando era mais nova e o meu pai fez parte de um conjunto, que fazia parte dos arraiais, que era supermoderno. Não tocavam pimba, tocavam Beatles, Creedence, bandas da altura. Depois, comecei a cantar em festivais da escola quando tinha por volta de sete anos, porque o meu professor de música nessa altura notou que eu tinha um grande interesse pela música e gostava sempre de cantar. Mas a verdade é que nem eu nem os meus pais dávamos assim muita importância. Por volta dos 13 anos apercebi-me que a música podia ser a minha vida. Foi a partir daí que comecei mesmo a focar-me mais nisso.

Apesar de seres da Madeira, agora estás a estudar na Escola Superior de Música de Lisboa. Notaste alguma diferença entre o ambiente da Madeira e da cidade de Lisboa?

Sim, totalmente. Lá na Madeira é tudo muito calmo, parece que nunca acontece nada. Os dias de semana são trabalhar e casa, durante a semana nunca há nada assim de louco. Ainda por cima, eu sou da Ponta do Sol, que é uma vila na zona oeste da Madeira. Por isso, para mim, chegar aqui a Lisboa e ver que há basicamente festa todos os dias da semana à noite — pode ser um domingo e o Bairro Alto está cheio, pode ser segunda-feira, o Bairro Alto está cheio — isso foi um choque.

Maria Elisa Silva
Fotografia: André Madeira
Tens algum lugar que te tenha marcado até agora, em Lisboa?

Sim. Quando vim para Lisboa, gostava imenso de ir a jam sessions e fui a quase todas. Cheguei a ir às do Tati, que era um café que, infelizmente, já fechou no final de 2018. O Café Tati, O Bom, O Mau e O Vilão, que há pouco tempo teve um incêndio também. O Menina e Moça é também um lugar que me marcou muito porque acho que foi mais ou menos aí que esta aventura toda da música, cá em Lisboa, começou. Por isso, acho que os lugares das jam sessions são lugares que me marcaram muito.

Antes da tua participação no Festival da Canção, já tinhas tido experiência em algum programa de televisão?

Em 2015, quando tinha 15 anos, participei no Ídolos. A minha mãe inscreveu-me e foi a primeira vez que andei de avião sozinha. Esperei horas infinitas naquela sala de espera, mas foi uma experiência muito boa. [É] óbvio que aquilo por detrás das câmaras é sempre muito diferente e, ainda por cima, quando tens 15 anos não tens muita noção do que se passa. Cheguei até ao top 20, mesmo antes de chegar às galas. Mas retiro muitas coisas boas dessa experiência.

Como surgiu a Marta Carvalho e, depois, o Festival da Canção na tua vida?

Bem, a Marta surgiu no final do ano passado. Para chegar até aqui, tenho de voltar um pouco atrás. Falei das jam sessions, que tiveram uma componente muito importante para mim na carreira musical aqui em Lisboa. E eu estava numa dessas jam sessions, cantei, e uma rapariga veio ter comigo, que é a Tainá, e disse que estava a gravar um álbum no Great Dane Studios, estúdio do Mikkel Solnado, e se queria passar lá e conhecer o pessoal. Acabei por ir, e o pessoal gostou imenso de mim e eu imenso deles. Fizeram-me sentir em casa e comecei a trabalhar lá. Perguntaram-me se queria ser artista deles, e a partir daí começámos a ver originais, comecei a compor. E no final do ano passado, por volta de outubro, conheci a Marta, e passado uns dias ela foi convidada para compor um tema para o Festival da Canção e quis que fosse eu a interpretá-lo. Foi tudo muito ao acaso, mas foram acasos muito bons.

Contribuíste de alguma maneira na escrita de ‘Medo de Sentir’?

A música nasceu de uma conversa entre nós as duas. Estávamos a ter apenas uma conversa normal, lá no estúdio, e começámos a ver que éramos muito parecidas em várias coisas. Há uma certa altura em que digo “Pá, não sei se tenho medo de sentir” e parece que aquilo fez-lhe um clique, e começou a escrever uma letra e a tocar.

Então, deste o nome à música?

Sim, dei-lhe… vá, o nome e o tema [risos].

Sentes que a tua relação com a Marta cresceu mais com o Festival da Canção?

Sim, sem dúvida. Ela foi uma compositora muito presente em todo o processo, no staging, no que seria bonito para vestir.  [É] óbvio que para a interpretação ela queria sempre que fosse uma coisa muito genuína, que fosse minha, mas também sempre me deu conselhos e ajudou-me. Nós aquecíamos a voz sempre juntas. Acho que foi uma amizade que cresceu mesmo durante o processo todo, e no final já parecíamos irmãs mesmo, gémeas. Acho que agora é uma amizade que tenho para a vida, mesmo.

Notou-se pela cumplicidade e química em palco entre ambas.

Sim, ainda bem. Essa foi a maior razão para a Marta estar no palco comigo na final. Fazia todo o sentido, a música é dela, e conta a nossa verdade. Conta coisas que nós as duas já passámos e acho que se notou mesmo a amizade e a cumplicidade, e não podia ser de outra forma.

Após a votação do júri, ‘Medo de Sentir’ encontrava-se em segundo lugar. Acreditavas que a vitória seria possível?

Não [risos]. Vou explicar porquê. Eu sou péssima a matemática e vejo muito mal. Eu estava lá sentada e todos os ecrãs estavam muito longe. Quando começaram a vir as pontuações do público, há uma certa altura em que dá para perceber que só nós é que podíamos ganhar. Não deu para acreditar mesmo que ganhar podia ser uma possibilidade.

Mas acabaram por vencer. Consegues descrever o que sentiste?

Eu nem sei muito bem, ainda não digeri o que aconteceu. Foi tudo muito rápido, e depois aconteceu esta coisa toda da quarentena e então eu fico ainda um pouco “O que é que aconteceu? O que está a acontecer?”. Parece tudo muito irreal. Esta parte da minha vida está um blur total, e ainda não tive mesmo a capacidade de entender e, com o cancelamento da Eurovisão, nada disto faz muito sentido.

A canção ‘Medo De Sentir’ recebeu carinho tanto de portugueses como de estrangeiros. Tiveste alguma perceção dos comentários que faziam à canção?

Por acaso, não sou nada de ler comentários nem de ver visualizações. Não sou de ver gostos. Não vi absolutamente nada. Reações e isso, eu tinha amigos que me enviavam, mas eu não via porque não queria deixar que os comentários — podiam ser bons ou maus — me afetassem de qualquer maneira. Por isso, a única perceção que tive, e tenho, porque continuo sem ver comentários, é as mensagens que as pessoas enviam para o Instagram e Facebook. Maior parte dessas mensagens são muito boas, sejam de pessoas cá dentro, ou pessoas lá de fora, mas sei que existem comentários muito mauzinhos.

Infelizmente, a Eurovisão foi cancelada. Como já referiste, esta fase da tua vida parece algo desfocada face aos eventos atuais. Como é que estás a viver todos estes altos e baixos?

Como disseste, tive o alto, que foi ganhar o Festival [da Canção]. Fiquei muito feliz e, consequentemente, era para ir à Eurovisão. Eu e a Marta estávamos muito entusiasmadas com isso, e depois isto tudo aconteceu, e foi um desabar. Entendemos as razões e as decisões e estamos de acordo, mas não deixa de ser triste para nós, porque sempre acompanhámos o Festival [da Canção] e a Eurovisão. Por acaso, no dia em que soube isso, eu chorei [risos], chorei muito. Ainda por cima, estou em Lisboa sem a minha família, por isso foi assim tudo… não tenho aquela base de apoio que são os pais e a família, e então tive de digerir isso um pouco sozinha e tentar que não me afetasse. Agora já estou melhor.

Consegue-se sentir a tua tristeza a falar do assunto.

É porque eu sou fã da Eurovisão, mesmo fã. Eu todos os anos via, não podia faltar, e não era só a final, tinha de ver tudo. E eu cheguei a dizer isto num post do Instagram: o meu coração partiu duas vezes, como fã da Eurovisão, e como participante.

Maria Elisa Silva
Fotografia: André Madeira
Olhando para um cenário mais feliz, já referiste que os teus pais foram grande influência para ti na música. Mas em termos de artistas, quais são aqueles de quem retiras mais admiração?

Como já disse, sou muito fã dos Beatles. Ouço Beatles quando estou triste, ouço Beatles quando estou contente, é a soundtrack da minha vida. Gosto imenso dos clássicos, gosto muito de música dos anos 60, 70, 80. Gosto imenso de jazz. Eu acho que nasci na década errada. Uma parte de mim queria viver nos loucos anos 20, mas do século passado, não estes loucos anos 20 [risos] que são demasiado loucos para mim. Eu acho que tudo o que seja arte inspira-me, de certa forma.

A tua vitória no Festival da Canção elevou o nome Elisa no panorama da música portuguesa. Apesar deste período de incerteza que se vive, o que tens planeado para o futuro?

Antes de aparecer no Festival, já estava a compor originais e a trabalhar com músicos e, este ano, se tudo correr bem, vai haver lançamento de singles. Acho que era também suposto haver álbum, mas está complicado por causa disto tudo. Tinha concertos, mas, entretanto, foram adiados. Tocar ao vivo é das coisas que mais gosto de fazer porque é o único lugar onde posso ser realmente eu. Esta situação toda deixa-me um pouco triste porque estou parada mesmo. Vejo imensos artistas agora a comporem e a darem asas à imaginação, e quem me dera ser assim! Eu vejo-me aqui basicamente engaiolada, não consigo compor, não consigo puxar da minha vertente criativa nesta situação, o que me deixa mesmo mal.

Referiste que estavas a compor originais. Como funciona o teu processo criativo?

Eu não sou nada boa a tocar instrumentos. Toco um pouco de ukelele, mas muito mal [risos]. Mas gosto imenso de escrever letras, de escrever poemas e contar histórias. Por isso, o meu processo de composição parte muito de eu escrever um poema e depois tenho uma sessão com músicos, onde começam a fazer a melodia para ver como conseguimos musicar o que eu escrevi.

Se pudesses falar com a Elisa de há um ano, o que lhe dirias?

O que é que eu dizia… diria apenas: continua o que estás a fazer. Continua mesmo, continua a trabalhar, continua a acreditar em ti. Perde noites a ir às jam sessions, porque vai chegar aquela jam session em que alguém vai olhar para ti, vai-te chamar para o estúdio e vais conseguir um contrato discográfico e vais conseguir ser agenciada por um estúdio muito fixe com uma equipa incrível. Por isso, continua. Acho que era isso que eu dizia. Continua o que estás a fazer e acredita em ti.

Tens alguma recomendação para animar a quarentena dos nossos leitores?

Nesta quarentena, estou a aproveitar para ler imenso. Para quem gosta de Fernando Pessoa aconselho, e que já tenha lido os poemas, a ler o livro que estou a ler agora que é as Cartas de Amor de Ofélia Queirós e Fernando Pessoa. É muito giro. Não tem muito bem história, são só as cartas, mas eu acho isto muito interessante, porque é incrível pensar que o Fernando Pessoa, que parece uma criatura assim mística não o é e que ele tinha uma vida fora da vertente do escritor. Quanto a séries, recomendo The Crown, que só comecei agora. Lamento para quem já tenha começado e acabado. De música, o álbum da Claúdia Pascoal saiu à pouco tempo – o ! – e recomendo que o ouçam.

Esta entrevista foi realizada por videoconferência.

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