Plataforma de concertos online At Your Home
Where the Music Meets

At Your Home. Como apoiar a música lutando por uma causa maior

At Your Home é uma plataforma online cujo objetivo é apoiar músicos, mas também ajudar a combater a Covid-19. Criada pela Where the Music Meets, a iniciativa recolhe doações para estas duas causas. O Espalha-Factos falou com José Baptista Coelho, um dos fundadores da plataforma, acerca desta iniciativa e ainda sobre como podemos apoiar a cultura, e os artistas, em tempos como os que vivemos.

Numa altura em que não podemos assistir a concertos, mas temos simultaneamente uma oferta imensa de conteúdo online, como escolher o que consumimos? Os concertos em direto no Instagram tornaram-se cada vez mais populares, após as Home Sessions da Mega Hits e do @FestivalEuFicoEmCasa.

Mas ver um direto no Instagram substitui o bilhete que pagarias para ver o concerto ao vivo? E o que acontece aos promotores e às salas de espetáculos, aos agentes e aos produtores culturais? Como podemos nós apoiar os artistas, efetivamente, sem sermos meros espectadores passivos ou números num ecrã?

A pensar nisto, a Where the Music Meets criou uma plataforma de concertos online, fora da popular rede social. At Your Home visa apoiar os músicos, dando-lhes algum amor de volta, agora que passamos tanto tempo a consumir o seu trabalho, muitas vezes gratuitamente. Além disso, tem também como objetivo ajudar a combater a pandemia que nos prende em casa e que, além de cancelar concertos e eventos por todo o mundo, mata pessoas diariamente.

Inicialmente, “esta ideia surgiu porque vimos muitos artistas a terem concertos cancelados”, conta José Baptista Coelho, fundador da revista online Where the Music Meets. No entanto, apoiar a música e os artistas não foi a única preocupação da revista, pois a maior luta que enfrentamos é contra a Covid-19.

O projeto escolhido para a recolha de doações foi o Project Open Air. Tudo começou com um cientista português, com um tweet, e com a ideia de desenvolver novos ventiladores, facilmente replicáveis em qualquer lugar, através do trabalho voluntário e colaborativo de cientistas de todo o mundo.

José trabalha na Faculdade de Ciências e quis contribuir de alguma forma para este projeto, aliando-o à sua grande paixão: a música. “Queríamos mostrar que a música também pode ajudar”, explica. “Não são só os artistas que estão a sofrer com isto. O grande problema é a falta de ventiladores, é por isso que as pessoas estão a morrer em Itália e em Espanha.”

Contudo, há flexibilidade em relação aos projetos e organizações que a At Your Home apoia. José conta-nos que poderá ser escolhida outra instituição – e há várias opções em cima da mesa – quando este projeto conseguir todo o financiamento necessário.

Respeitar o trabalho dos artistas, apoiando uma causa maior

Durante os concertos online, são recolhidas doações para os artistas, mas também para o projeto Open Air. Em relação à percentagem que cada um recebe destas doações, José explica, sem rodeios: “nós deixamos isso sempre do lado do artista”.

“Propomos sempre que a proporção seja 60/40, 60% para a causa e 40% para o artista, mas há artistas que preferem receber mais, e nós esticamos no máximo até aos 70/30, 70% para o artista e 30% para a causa”, continua.

No entanto, há artistas que preferem apoiar a causa e abdicar da maior parte do dinheiro que receberiam. “O que me surpreendeu foi que muitos artistas – apesar de eu não concordar com isso, porque os artistas devem ser pagos pelo seu trabalho – preferem que vá tudo ou quase tudo para a causa”, conta.

Além disto, todas as doações feitas na plataforma fora do tempo de qualquer concerto, vão diretamente para a causa.

Os músicos que dão os concertos vêm de todo o mundo e de todos os géneros musicais. “Isto é para todos”, garante José. A plataforma pretende apoiar artistas de qualquer dimensão, e “está aberta a todos, seja ao artista maior, seja ao artista que está a começar, o artista que ia agora dar os seus primeiros concertos e lançar-se na música, e vê o seu trabalho ainda mais dificultado”.

“O nosso objetivo é sempre ter artistas grandes com outros pequenos, ou seja, não ter dois artistas grandes juntos. Assim, o artista maior, quando promove o seu concerto, está também a promover dois artistas pequenos”, explica.

É difícil envolver as pessoas

Desde 15 de março que os concertos acontecem todos os dias da semana, três vezes por dia, na plataforma At Your Home, numa nova secção do website da Where the Music Meets. Direcionados para as duas causas já referidas, os concertos são organizados de forma voluntária e colaborativa por três membros da revista online.

Porém, às vezes é difícil fazer as pessoas chegar à plataforma, ou, quando chegam, é difícil fazê-las apoiar a iniciativa com doações. “Inicialmente, pensámos em colocar um pagamento de 2€ obrigatório para quem quisesse ver os concertos”, revela José. No entanto, isso poderia afastar ainda mais as pessoas. Em vez disso, há avisos e banners que vão aparecendo no site a apelar à doação, ao mesmo tempo que a equipa da Where the Music Meets o vai relembrando no chat do concerto.

“Já tivemos concertos com mais de 100 pessoas a ver sem uma única doação”, confessa o organizador.

Plataforma de concertos online At Your Home
O apelo às doações é feito desta forma.

Os artistas também dependem das doações, ou seja, “têm de promover ao máximo o concerto” para que os seus fãs venham apoiá-los e também apoiar a causa. Porém, nem todos os artistas estão habituados a fazer esse trabalho, que normalmente é da responsabilidade das promotoras.

“Como não há concertos ao vivo, as promotoras também não estão a fazer o seu trabalho”, diz. “Idealmente, o que devia acontecer era que as promotoras promovessem os concertos que acontecem online da mesma forma [que promoviam os concertos ao vivo]”.

José conta-nos que já pensou em desistir da iniciativa, mas que foi convencido pelos seus colegas a continuar. “Às vezes fazemos três concertos por dia, às vezes estamos horas a fazer testes [de som e imagem] com pessoas em Israel, em Nova Iorque, e depois não recebemos uma única doação. É desmotivador”, desabafa.

“Nós não recebemos nada, nem um euro por estar a fazer isto”, esclarece, acrescentando que “é muito difícil conseguir divulgação, conseguir chamar as pessoas para esta plataforma”. Há muitos outros concertos a acontecer, especialmente no Instagram “e está tudo tão fragmentado” que se torna difícil mobilizar muitas pessoas para a plataforma.

A falsa utopia dos concertos no Instagram

Sobre os concertos na rede social, que se tornaram cada vez mais populares, José mostra-se completamente contra este formato. Por ser uma plataforma social, traz demasiadas distrações à experiência musical, além de apresentar as atuações em formato vertical, o que “não faz sentido para um concerto”.

No entanto, o mais relevante, e uma das razões que levou a Where the Music Meets a afastar-se da rede social para esta iniciativa, é que “não dá para fazer doações diretamente através do Instagram”.

Além disso, “o que o Instagram live faz é habituar as pessoas a concertos grátis”, afirma. Para a plataforma At Your Home, era indispensável haver doações, não só para pagar o devido trabalho aos artistas, mas também para apoiar o combate à Covid-19.

These are not Instagram lives. These are opportunities for musicians to do the only possible live shows they can during…

Publicado por Where the Music Meets em Quarta-feira, 1 de abril de 2020

“Queríamos sempre que os concertos acontecessem numa plataforma onde fosse possível fazer doações diretamente”, explica José. “O Instagram só deixa fazer doações a instituições específicas, já registadas. Ainda tentámos ver se nos podíamos inscrever como uma organização sem fins lucrativos, mas para isso era necessário ir presencialmente a um sítio fazê-lo, algo que agora era impossível”.

As transmissões dos concertos acontecem através do Twitch, uma plataforma associada a livestreams de videojogos, mas são incorporadas no site da Where the Music Meets, “porque é a maneira mais eficaz de fazer o artista chegar até ao público”.

“Tentámos fazer através do Youtube, mas, durante um concerto, o Youtube decidiu parar a livestream por violação de direitos de autor”, explica. “O Youtube para um livestream por violação de direitos de autor, mesmo que a música a ser tocada esteja a ser tocada pelo seu autor.”

Como apoiar a música e a cultura

Os Instagram lives e os concertos online não substituem nem compensam os rendimentos que os músicos, promotores e produtores culturais fariam com um concerto ao vivo. Além disso, “criam a ideia de que não precisamos de pagar aos artistas, porque basta abrir o Instagram e estão a dar um concerto”.

Por outro lado, “os artistas sentem que se não fizerem estes lives não estão a ser vistos”, explica José. Sentem-se assim obrigados a fazer o mesmo que todos estão a fazer para permanecerem relevantes, mesmo que isso não os beneficie.

Em tempos difíceis como os que vivemos, como podemos então apoiar os artistas que ouvimos e tanto gostamos? Para José, a resposta é clara:

“Se gostas de um artista, se gostas de uma banda, agora é a altura para lhes comprares o CD, é a altura para os apoiares no bandcamp”.

As bandas que viram os seus concertos serem cancelados estão particularmente vulneráveis neste momento, especialmente as bandas independentes. Além de terem de dividir os rendimentos que consigam receber pelos vários membros, acresce a dificuldade em continuarem a trabalhar. Enquanto os artistas individuais podem dar estes concertos online, por enquanto ainda não é possível à maioria das bandas fazê-lo, porque não estão fisicamente juntas, e não há tantas ferramentas tecnológicas que o permitam.

José Baptista Coelho diz que a At Your Home já tem bandas em espera para realizar concertos à distância, mas que estão à procura de ferramentas para o alcançar. “Já tivemos artistas a tentar isso. O Zé Manel, por exemplo, pôs na televisão, atrás dele um vídeo do guitarrista a tocar, para ser acompanhado dessa forma”. Porém, não é a mesma coisa, e estão a ser exploradas opções mais fidedignas ao trabalho das bandas.

Como vai esta pandemia alterar o futuro da indústria musical?

Sobre se esta pandemia vai mudar a forma como a indústria funciona, José diz que não faz ideia do que pode acontecer. Para o fundador da Where the Music Meets, “muitas salas [de espetáculos] não vão sobreviver, especialmente as mais pequenas”.

“Os primeiros concertos a serem adiados ou reagendados foram os de músicos grandes, porque há contratos a cumprir”, diz, “mas sem as salas pequenas, os músicos pequenos não sobrevivem”, acrescenta.

“Acho que isto vai mostrar aos artistas que devem ser mais exclusivos, que devem sempre aceitar algo em troca do seu trabalho, ou de um concerto”, comenta José, acrescentando a ideia de que talvez os artistas passem a cobrar um preço pelo acesso ao seu trabalho, às suas canções e vídeos, “nem que seja simbólico”.

Os concertos da plataforma At Your Home vão continuar, mas passarão a dois por dia, em vez de três, tentando ainda deixar menos espaço entre cada concerto. O objetivo é atrair mais público para assistir aos concertos.

“Queremos também simular o que é ir a um concerto real, quando vais a um concerto vês sempre dois artistas, por isso queremos reduzir o tempo de intervalo entre concertos”. Se antes se realizavam às 13h, 16h e 18h, agora os concertos passam para o final da tarde, para que quem está em teletrabalho possa ter mais tempo para se juntar a esta iniciativa.

Os próximos concertos acontecem este domingo (5) e são de Vasco Completo, às 18h, de Gabriel Petra, às 20h45, e Tom Lee-Richards, às 22h. Todos os concertos anteriores permanecem disponíveis no site e no Youtube da Where the Music Meets.

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