Bruno Nogueira. Fonte: Sapo MAG

Obrigado, Bruno Nogueira

Precisamos sair de casa nem que seja mentalmente, e por isso, obrigado, Bruno.

Todos vivemos tempos de incerteza. Alguns de nós estão em casa por obrigação, a tomar conta dos filhos, em teletrabalho ou em indefinição laboral. Outros de nós continuam ainda a ter a obrigação e inevitabilidade de ter de ir trabalhar todos os dias mesmo com receio de um inimigo invisível que ataca de surpresa, que prospera no silêncio e se propaga na confusão. Médicos, enfermeiros, farmacêuticos, transportadores de mercadoria, padeiros, operadores de supermercados, não interessa. Estamos todos no mesmo barco, a lidar com isto da melhor maneira que sabemos.

À noite ou durante o dia tem sido difícil nos concentrarmos na leitura, uma série simples consome-se mais rápido, pois não nos obriga a viajar, coisa que nem dentro da nossa cabeça conseguimos actualmente fazer – só queríamos mesmos sair porta fora e agir normalmente. Cumprimentamo-nos à distância, ou mantemos o contacto através de facetime, zoom, skype, o que quer que seja, nós, que somos tão portugueses, que não passamos sem um passou-bem, um abraço ou dois beijinhos (só depois de escrever isto me apercebi que é demasiado semelhante à música do Emanuel, mas não interessa). Não faz sentido, estranhamos, mas sabemos que por agora tem de ser. E depois? Não sabemos bem como é o depois. Os postos de trabalho estão em perigo portanto pedem-nos que a Economia não pare. Não pode parar, precisamos de pagar as compras, precisamos de ter futuro. Quando? Também não sabemos quando é.

Deixámos de ir a concertos, a peças de teatro, a encontros e a stand-ups que a tanto custo tínhamos comprado bilhete e combinado com o/a companheira ou o(s)/a(s) amigo(s)/(a) (este jogo de géneros e número é porque não quero ferir susceptibilidades quando andamos tão sensíveis). Não vou ao cinema há demasiado tempo. Não mando calar alguém que não respeita o que está a passar na tela ou critico quem come pipocas mesmo que boa parte das vezes também o faça – menos quando vou ao Charlot ou ao Nimas, óbvio – há demasiado tempo, também. Tenho saudades de jantar fora. Não fazemos muita coisa há demasiado tempo por causa do tal inimigo invisível. Oiço os diretos da DGS e do Ministério da Saúde todos os dias antes de almoçar, e se percebo muitas críticas à atuação ou às palavras de X ou Y, não posso deixar de ter a certeza que estão a fazer tudo o que podem para que voltemos a fazer tudo isto que já disse. Mas nunca sabemos quando será. Nem eles. Está tudo em suspenso.

Precisamos sair de casa nem que seja mentalmente, e por isso, obrigado, Bruno. Tu, que estás sem a tua mulher por perto por ela estar de quarentena e depois de um dia sozinho a tomar conta das crianças arranjas paciência, energia e tempo para nos entreteres. Todos os dias (úteis) da semana às 23 horas eu sei que vou poder rir de conversas improváveis e sei que estás no mesmo barco que eu, mas permites-me que saia da minha casa e entre na tua e na dos teus amigos para vos ouvir a conversar. Não é por acaso que está lá toda a gente nos comentários. Famosos, desconhecidos, não interessa, estamos lá todos a rir.

Estão quarenta mil (40 000!) a ver-te e eu sei porquê. Porque o inimigo é democrático e nos afeta a todos, mas também porque construíste sem saber uma comunidade que te admira e que se junta só para te ver. Eu nunca pensei gostar tanto de ver o Markl a cantar “Africa”, dos Toto, ou rir desalmadamente quando no direto com o José Castelo Branco o João Quadros disse nos comentários que a Betty estava no congelador. Aprendi até o que era o “trombone enferrujado” (obrigado, Beatriz Gosta) e como muitos – desculpa – mas durante uns minutos fui para o direto com o Martinha quando o traíste e foste menos simpático para o Manzarra – acontece, e ele às vezes merece, eu sei. Como muitos, fico até ao fim para ver a fantástica pessoa e pianista (e mais mil outras coisas) que é o Filipe Melo a tocar “Verdes Anos”, ou clássicos italianos. Fico até ao final para te ver a ti dizer “Aguentem-se. Vai correr bem.” Quero dizer-te a mesma coisa. Vai tudo correr bem. E obrigado, Bruno. Hoje, às 23 horas, vemo-nos outra vez para discutir “como é que o bicho mexe” enquanto bebemos um copo de vinho?

Artigo da autoria de João Estróia Vieira publicado originalmente na Comunidade Cultura e Arte.
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