Crítica. ‘Toy Boy’ é mais uma ideia reciclada que conseguiu atingir o sucesso

Toy Boy estreou na Netflix no dia 28 de fevereiro e rapidamente se tornou numa das séries mais populares da plataforma de streaming.

A história consegue resumir-se em poucas linhas: Hugo Beltrán (Jesús Mosquera) é um stripper acusado de matar e queimar o corpo de Philip, o marido da amante, Macarena (por favor não confundir com o hit espanhol dos anos 90). Sete anos depois, uma jovem advogada, Triana Marín (Maria Pedraza), está determinada a provar a sua inocência no meio de um jogo de interesses, segredos e disputas de poder.

Por mais que esta seja uma ideia já explorada vezes sem conta na ficção, o facto é que a premissa tem sido suficiente para prender os espectadores ao ecrã.

Uma ideia reciclada com ausência do fator surpresa

Basta atirarmos Magic Mike e How to Get Away With Murder para numa taça e misturarmos bem para obter a receita dos 13 episódios desta série.

É óbvio que toda a trama se centra à volta de Hugo e da sua sede de vingança. Tudo acontece num estalar de dedos: de um momento para o outro, Hugo é libertado após Triana, membro de uma empresa de advocacia, ser contratada por um cliente mistério para tirar o stripper da prisão.

De facto a jovem é bastante dedicada e inteligente, chega até a descobrir várias provas manipuladas e que levaram à condenação de Hugo há sete anos. Assim, Triana ganha a confiança do stripper e passa a ser o seu braço direito nesta luta para encontrar o culpado.

Na minha opinião, o desenvolvimento da história não justifica os 70 minutos de duração de cada episódio. Acho que até teria suportado vê-los na íntegra e sem saltar algumas partes se os diálogos maçadores e dispensáveis não tornassem essa tarefa impossível.

Manter uma narrativa interessante durante tanto tempo é um desafio, acho que é essa a justificação que encontro para desculpar as reviravoltas que vão surgindo e só complicam a história, acabando, eventualmente, por ser esquecidas.

Triana durante a sua primeira visita oficial a Hugo na prisão

Ao longo dos episódios, Hugo vai investigando várias pistas por conta própria e acaba por descobrir que, afinal, Philip está vivo. O problema é que esta procura pela verdade coloca sempre Hugo em problemas, precisando de Triana para o resgatar. A pouca expressividade do ator também não me ajudou a empatizar muito com a personagem.

Será por esta razão que, mesmo assim, continuei colada ao ecrã?

São (pouco) exploradas todo o tipo de relações

O protagonismo de Hugo vai-se perdendo para Andrea (Juanjo Almeida), o único filho de Macarena e que garante saber toda a verdade sobre o crime que aparentemente matou o seu pai. Após descobrirmos que foi violado nessa noite, Andrea fecha-se e não revela nada sobre o que aconteceu. Frustrante.

Jairo (Carlo Constanzia), outro Toy Boy, acaba por ser a tábua de salvação para Andrea e os dois desenvolvem uma relação improvável que me fez não desistir da série logo no segundo episódio.

Quanto a Hugo e Triana, a sua advogada, é óbvio que os dois acabam por se envolver. Previsível e apenas necessário (não para mim) para trazer o mínimo de romance à série e contrastar com a relação de interesse e diversão entre o stripper e Macarena (Cristina Castaño).

Quanto à magnata, desde o início que a considerei uma mulher decidida, mas também muito manipuladora. Dona da empresa Medina, gere o negócio com os irmãos Mateo e Borja ao seu lado. Os três partilham uma ligação bastante forte e escondem muitos segredos, tanto pessoais como profissionais, no entanto, esta narrativa vai-se tornando saturante e confusa.

Ao longo dos episódios, descobrimos que Macarena é a causadora de muitas das desgraças que aconteceram a Hugo, visto que sempre soube que o marido estava vivo. Quando descobre que o filho foi violado, desconfia imediatamente de Philip, precipita-se, e acaba por o matar. Parece que desta vez se dignou a fazer algo pelo filho, já que o tinha negligenciado até ao momento.

Má construção das personagens

Para além de achar que várias personagens do elenco têm grande potencial mas acabam por ser desleixadas, como é o caso de Iván (José de la Torre), que com o seu envolvimento na droga e desespero para salvar o Inferno, local onde dançam os Toy Boy, podia ter adicionado algo importante à história.

O grupo dos cinco Toy Boys

Zapata, o inspetor corrupto encarregue do caso, também não veio revolucionar a série. É revelado que este tem um envolvimento no crime mas, até aí, a sua presença em alguns momentos não adicionava muito à história. Parece que foi colocado ali à toa só para arranjarem um bode expiatório.

Resumindo, parece que os produtores não colocaram muito esforço na apresentação de algumas personagens.

Ocorre-me o exemplo de Triana: não basta um par de óculos e algumas roupas clássicas para conseguir camuflar a sua aparência de 24 anos e convencer-nos que interpreta uma advogada madura.

Depois de prestações como Marina Nunier em Élite e Alison Parker em La Casa de Papel, admito que esperava mais da atriz. Talvez a culpa seja do guião e não da atriz em si.

Uma narrativa pouco surpreendente

Nota-se que os produtores tentaram adicionar alguma diversidade na série, já que Jairo apenas comunica por linguagem gestual, mas a inclusão parece ficar por aí.

Jairo e Andrea

Também o culpado do assassinato permanece incógnito até perto do final mas posso dizer é que, por volta do sexto episódio, já tinha um palpite sólido sobre o autor do crime… e não estava enganada. Não é difícil de adivinhar.

A verdade é que, depois de sucessos como Élite, Vis a Vis, La Casa de Papel ou Las Chicas del Cable, esperava muito mais de Toy Boy. O conceito pode ser repetitivo mas acredito que com o desenvolvimento necessário das personagens, as interações certas e um guião mais entusiasmante, esta podia ter sido uma aposta com ainda mais sucesso.

Não senti uma ligação forte com nenhuma personagem e tudo me pareceu apressado demais, havia demasiado a acontecer e poucas explicações dadas, contudo, admito que a curiosidade levou a melhor e ao final de cada episódio, queria logo começar o próximo.

Hugo e Triana

A boa notícia é que o final termina em aberto, portanto podemos sempre manter a esperança  que seja lançada uma segunda temporada.

As lacunas são muitas mas garanto que, apesar de novela mexicana, Toy Boy é um bom plano para estes dias de quarentena e acaba por ser um guilty pleasure que nos entretem nesta época pobre em atividades exteriores.

5.7
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