Foto: site oficial Teatro Nacional D.Maria II

Dia Mundial do Teatro. A arte no Teatro passado, presente e futuro

Estivemos à conversa com o professor José Miguel Braga sobre a história, a força e sobre a esperança num futuro com Teatro

A 27 de março assinala-se o Dia Mundial do Teatro. Há 59 anos que a data é comemorada por atores, dramaturgos, encenadores, entre outros que têm um papel importante na indústria. A origem da comemoração remonta a 1961, implantada pelo Instituto Internacional do Teatro. Um ano depois, foi escrita a primeira mensagem internacional do dia por Jean Cocteau, sendo assim tradição uma figura importante da arte dramática proferir uma mensagem todos os anos.

De modo a celebrar a arte da representação, o Espalha-Factos quis abordar o passado, o presente e o futuro deste mundo que sempre teve um lugar importante na nossa história desde a fundação da nacionalidade, que foi capaz de abrir portas para um modo literário bastante cultivado ao longo dos tempos, e que ainda hoje se encontra tão presente no nosso quotidiano.

Há um Passado

A origem do Teatro é incerta, mas pensa-se que este poderá ter surgido na pré-história. Alguns relatos indicam que, na altura, um grupo de pessoas à volta de uma fogueira, enquanto se aqueciam do frio, viam as suas sombras projetadas numa parede. Curiosos, levantaram-se e começaram a fazer gestos engraçados que se refletiam nas mesmas sombras. Seguiu-se um texto improvisado, que estabeleceu personagens fortes, fracos, opressores, oprimidos, entre outros.

O que é mais associado à área é a Grécia antiga. Foi nessa época que o Teatro se consolidou, usado para manifestações a Dionísio, deus do vinho. Após as vindimas, realizava-se uma festa e algumas procissões de forma a agradecer as boas colheitas. Nelas surgiam os “ditirambos”, um canto coral de caráter apaixonado que era constituído por uma parte narrativa. Com isto, chegaram também as máscaras que representavam emoções, introduzidas por Téspis, que mais tarde viria a ser o primeiro ator grego.

Portugal também não foge a um passado das artes cénicas, que refletiu os tempos históricos do país de forma rica, com dramaturgos como Almeida Garrett, Júlio Dantas, Luzia Maria Martins e, claro, Gil Vincente. Foi com ele, aliás, que tudo começou. Através deste dramaturgo e poeta português conhecemos o Teatro na transição da Idade Média para o Renascimento, tendo sido o primeiro dos nossos autores a cultivar o modo dramático. Gil Vicente é, assim, considerado o fundador do Teatro português, no início do século XVI, tendo-nos deixado várias peças aclamadas, entre as quais a Trilogia das Barcas, o Auto da Alma e o Auto da Índia.

O Teatro sempre existiu no ato comunicativo do homem, e uma vez colocada no campo artístico, nunca foi possível parar o seu percurso que chega aos dias de hoje.

O Presente

Dramaturgo e comediante italiano, Dario Fo, ao falar da situação contemporânea da arte teatral na sua mensagem para o Dia Mundial do Teatro em 2013, apontou existir um problema de falta de público. Disse que “governantes já não se preocupam em controlar quem os cita com ironia e sarcasmo,  uma vez que os atores não têm espaços nem públicos que os veja”.

Para percebermos melhor esta realidade, o Espalha-Factos falou com José Miguel Braga, professor convidado na Universidade do Minho e professor do curso de Interpretação na Escola Secundária de Alberto Sampaio, que tem consigo mais de 40 anos de experiência nos palcos. Quando questionámos a falta de público apontado por Dario Fo, o mesmo afirmou que “não temos problemas de público no contexto de festa popular, nós temos o problema de público no quotidiano”. O problema com o público no quotidiano, segundo ele, está em conseguir convencê-los a “pagar o bilhetinho”, e nestes saberem que não estão só a contribuir para o Teatro, mas também para o bem-estar de quem fez e produziu a peça.

Num ponto de vista nacional, o professor aponta as diversas escolas de Teatro que se encontram no nosso país. Diz haver um aumento “quer de atores formados em nossas escolas, quer de jovens profissionais”, sublinhando ser uma “situação incomparável”. Em paralelo a esta situação, nota uma “construção, ou até reconstrução, de uma rede nacional de escolas de Teatro que não tínhamos”. Em todas as cidades, em diversas vilas e até aldeias “espaço para a representação”.

No entanto, José Miguel aponta que ainda existem “muitíssimas dificuldades”. “O dinheiro que o Estado consegue entregar ao Teatro é muito pouco, dependendo da quantidade dos projetos. Vale-nos bastante o apoio das Autarquias”, acrescenta.

Existe Futuro?

De forma a tentar perceber qual o futuro da arte cénica em Portugal, questionámos, mais uma vez, o professor Jorge Miguel sobre a ligação da próxima geração ao Teatro, já que este lida com ela bem de perto. Com toda a convicção respondeu-nos que ela “não vai puder escapar ao Teatro”.

Na sua opinião, os jovens “vivem com uma intensidade relacional e cooperativa completamente diferente”, “num mundo livre”, algo que ele compara à sua experiência pessoal por ter crescido em tempo de ditadura. E deixa claro que a teatralidade está em todo o lado atualmente, seja em concertos ou qualquer outra forma de entretenimento. “Deixa as coisas giras, para motivar, para tornar as coisas interessantes”, afirma.

Partindo então do princípio que a arte da representação estará presente de forma intrínseca na próxima geração, Jorge Miguel confessa ter “alguma esperança que o Teatro possa crescer um pouco”.

E assim, em síntese, o professor contou-nos, ainda que na sua perspetiva e experiência, grande parte daquela que é a história da arte dramática. Ao interpretarmos as suas palavras, percebemos como o Teatro é um pedaço do homem. A arte dos palcos pode ter o futuro que tiver, ainda assim será sempre capaz de persistir contra os egoísmos e a censura. O Teatro é considerado arte porque critica, porque entretém, porque liberta e porque nos faz sentir. Por este motivo, se há algo que podemos afirmar com toda a certeza sobre o futuro das artes cénicas, é que ela sempre vai prevalecer. O Teatro permanece vivo! E como Jan Lauwers disse: “O Teatro é o meio do futuro, um espírito livre”.

Na mensagem deste ano, da autoria de Shahid Nadeem, o encenador e dramaturgo paquistanês também nos fala sobre o caráter espiritual do teatro, sublinhando que esta arte pode mesmo aproximar os seres humanos.

“O Teatro tem um papel, um nobre papel, para energizar e mobilizar a Humanidade a erguer-se da sua descida para o abismo. O Teatro pode elevar o palco, o espaço de representação, a algo sagrado. (…) É tempo de reganharmos a relação simbiótica entre o artista e o público, o passado e o futuro. Fazer Teatro pode ser um ato sagrado e os atores podem, de facto, tornar-se avatares dos papéis que interpretam. O Teatro eleva a arte de representar a um plano espiritual superior. O Teatro tem o potencial de se tornar num santuário e o santuário num espaço performativo.”

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