Dela Marmy
Fotografia: Alípio Padilha

Dela Marmy apresenta “Captured Fantasy”: Um EP que nos conduz pelos meandros da condição humana

Quando, aos cinco anos, Joana Sequeira Duarte começou a ter aulas de piano, guiada por Francisco Diego Doutel, talvez não imaginasse o que a música viria a representar na sua vida. Mas foi precisamente aí, e sem se dar conta, que tudo começou. Ao amor pela música, seguiu-se a paixão pela dança e a arquitetura.  E, nestas três disciplinas, Joana encontrou vários conceitos convergentes: “a luz, o espaço, a sombra, o cheio, o vazio, o silêncio, o realce, as massas, as texturas, a fricção, o movimento, o ritmo, a experimentação, o detalhe, o rigor, o caos”. Compreendeu-os, assimilou-os, começou a construir a sua identidade artística e, quando deu por si, Joana estava, irremediavelmente, ligada às artes. Primeiro como bailarina, depois como voz e nos sintetizadores em The Happy Mess e, mais tarde, nos bastidores das digressões de GNR.

E, foi já no começo de 2019, que Joana se tornou Dela Marmy. Um objeto artístico ao estilo Dream Pop, que a artista define como um “corpo novo com uma identidade coesa“. O seu tempo livre e o seu tempo de ocupação. Um projeto que integra na música outras realidades artísticas e que marca o começo da sua carreira a solo.

Depois do EP homónimo de estreia lançado em novembro do ano passado, Dela Marmy chega até nós com Captured Fantasy. Uma viagem que espelha a sua identidade sonora e que nos coloca diante da nossa condição e de nós próprios.

Captured Fantasy fica a partir desta sexta (27) disponível nas várias plataformas digitais e Joana, ainda que em modo teletrabalho, porque o “bicho” não permite mais, contou-nos tudo sobre ele.

Antes de mais, talvez perguntar-te a origem do nome Captured Fantasy

A temática é, talvez, a maior diferença deste EP para o anterior. Ainda que alguns elementos já estivessem presentes no outro, em Captured Fantasy são mais claros. Há uma especial atenção à condição humana: o elo entre o corpo e a sua casa, o seu planeta, a sua imaginação, outro corpo e espiritualidade. É, no fundo, um EP que fala da vida que acreditamos viver, desta fantasia que fica comprometida no momento em que o que tínhamos como garantido deixa de o ser e nos vemos obrigados a lutar pela sobrevivência da espécie.

Damo-nos conta disso em “Not Real,” o single que já está nas ruas e que nos coloca, exatamente, perante aquilo que para nós é real e que deixa de o ser aos olhos dos outros. Uma espécie de dualidade realidade/imaginação…

A imaginação é uma arma muito forte, basta observar os tempos que se vivem. Não fosse a imaginação e seríamos apenas bichos confinados a um espaço restrito. Faz-nos falta colocar em causa e/ou equacionar outras realidades possíveis dentro do universo do Real que é tudo e, nesse sentido, a imaginação pode ser uma ferramenta muito útil.

Mas, imaginar e colocarmo-nos em perspetiva requer tempo… Podemos afirmar que um dos objetivos deste EP é contrariar os tempos acelerados e de consumo rápido que se vivem hoje?

Não de forma plenamente consciente, mas talvez seja sim… Acredito que o público de Dela Marmy seja, ainda, adepto de música e, como tal, não estará à espera de encontrar um álbum de consumo fácil e rápido. As pessoas que ouvirem o EP não irão apreendê-lo da mesma forma e isso é que é lindo!

Como é que Captured Fantasy está estruturado?

Captured Fantasy é uma viagem ao longo de cinco temas, cinco elos registados ou capturados; cinco sentidos.

E como foi construído?

Este EP, contrariamente ao primeiro, em que a produção foi minha, do Nuno Roque e do João Hasselberg,  foi produzido por Charlie Francis, produtor e músico muito experiente (que também colaborou no baixo), o que me permitiu estar mais atenta a outras opções que tinha vontade de experimentar e a outras que foram aparecendo no momento. Esta dinâmica alterou a forma de estarmos em estúdio durante as gravações – todos muito focados, mas igualmente descontraídos, sem a pressão do tempo. O tempo que passou foi degustado dia-a-dia, instrumento a instrumento, “tema-a-tema”. Foi fixe isso. De resto, a sonoridade em si não mudou por aí além – estão lá os traços identitários de Dela Marmy – contudo quisemos aprimorar a construção das canções, os arranjos e a forma de integrar a voz no instrumental.

Charlie Francis é, de facto, uma figura de renome no panorama artístico… Como chegaste até ele?

O Nuno Roque é uma figura muito importante neste disco. Para além de ter gravado e misturado, com o Charlie, o EP, é meu conselheiro geral. O Nuno trabalhou vários anos num estúdio em Londres e conheceu o Charlie nessa altura. Deu-me o melhor feedback dele, estive a ouvir alguns dos seus trabalhos, fiz-lhe a proposta e ele aceitou.

Captured Fantasy conta ainda com a colaboração de outros artistas, nomeadamente, Raquel Serejo Martins para a letra de “Flying Fishes”, TYTUN em “Take Me Back Home”, Vasco Magalhães na bateria, Tiago Brito e Steven Goundrey nas guitarras…

São pessoas maravilhosas, extremamente talentosas, sensíveis, generosas e trabalhadoras, características que muito aprecio e que têm tudo para funcionar.

Dela Marmy
Fotografia: Divulgação / Alípio Padilha

Já mencionámos aqui algumas peças fulcrais no processo de construção deste EP, mas há mais…

Sim! Apesar de, na parte artística, estar a ser um desafio bonito que estou ainda a começar a esculpir, a solo, a parte de organização e produção é mil vezes mais custosa. Por isso, tenho de referir o Nuno Roque, de quem já falei antes e que é super importante. Sem ele isto seria tudo mil vezes mais difícil. O João Alexandre, que me emprestou um mar de teclados e sintetizadores. Os meus pais que são uma equipa de peso e incondicional. A minha família e amigos mais próximos que me encorajam e dão apoio continuamente. A minha própria editora KPRecords*KillPerfection. Os meus amigos talentosos que asseguraram sempre toda a parte visual das capas do single e do álbum, bem como as imagens promocionais, são eles o Jas, o Alípio Padilha e a Filipa Areias. E, ainda a Casota Collective, estes seres incríveis, responsáveis pelo vídeo do single “Not Real”.

Como é que achas que este álbum, “mais maduro e consistente”, vai ser recebido pelos fãs de Dela Marmy, ou como gostarias que fosse?

Cada dia que passa nas nossas vidas dá-nos mais experiência e um leque maior de conhecimento do que aquele que tínhamos no dia anterior. Isso acontece na vida das pessoas e na vida dos projetos. É natural. Contudo, na realidade, não me importa que essa coisa do amadurecimento seja visível. Espero, acima de tudo, que lhes faça sentido ouvir, que se surpreendam (porque não!?) e que depois de o terem ouvido, voltem a ter vontade de ouvir, várias vezes.

Depois de teres lançado dois EPs no espaço de quatro meses, não posso deixar de ter perguntar quais são as perspetivas para o terceiro?

Antes desta situação surreal, tinha pensado lançar o próximo disco em 2021. Depois disto, definitivamente, estamos em modo dia-a-dia. 😊

Quarentena, onde, como e com quem nos aconselhas a ouvir Captured Fantasy?

Este é um momento de desequilíbrio para toda a gente. Ninguém estava preparado para um acontecimento global desta espécie, creio. É tenebroso, é ficar retido numa bolha, ou pelo contrário, é furarem-nos a bolha onde vivíamos até aqui. Por isso, depois de chegarmos ao fim do Apocalipse sãos e salvos, quero tocar os temas ao vivo, em concerto, num espaço físico, com pessoas perto uma das outras. Assim simples, juntos de novo. Mas para já, podem ouvir comigo, em directo do instagram @delamarmy, hoje, dia 27 de março, às 22h00, numa Listening Party. Um momento informal e descontraído, com testemunhos e confidências, mas, acima de tudo, um lugar de proximidade, onde todos são convidados a interagir. Um ato de resistência que nos mantém juntos! espero por vocês!

Entretanto, podes ver o vídeo do single “Not Real

Entrevista de Patrícia Vinhais

Fotografias de Alípio Padilha

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