A Plataforma

‘A Plataforma’. Em tempo de pandemia, aqui a doença é outra

A distopia estreou no dia 20 de março e está a dar que falar.

Visto por muitos como um apelo público à solidariedade espontânea, o thriller A Plataforma está disponível na Netflix e veio incentivar à reflexão sobre as nossas ações e no impacto que estas podem vir a ter nos outros.

Para os que acompanham minimamente as produções espanholas, sejam filmes ou séries, a constante originalidade e qualidade dos novos projetos que vão surgindo já não é surpresa para ninguém.

Uma análise genérica desta premissa

Preso por um período de seis meses, Goreng está numa prisão vertical com inúmeros pisos que representam celas, cada uma com dois ocupantes e um buraco gigante no chão, onde encontramos um precipício desde o topo da torre até à base.

Esta abertura dá passagem a uma plataforma por onde, todos os dias, desce uma mesa com um banquete digno de um rei e que se destina a alimentar os prisioneiros de todos os níveis.

No final de cada mês, os presos acordam num novo nível e com outro colega de cela. Parece pouco promissor mas cabe aos pequenos detalhes desvendar os segredos que tornam esta história tão impactante.

A Plataforma vs a pandemia que estamos a viver

Realizado pelo espanhol Galder Gaztelu-Urrutia, o timing de lançamento deste filme não podia ter sido mais oportuno: com o mundo a enfrentar a pandemia da COVID-19, os casos de açambarcamento de medicamentos, enlatados ou papel higiénico levam a que as prateleiras de supermercado fiquem vazias, impedindo outras pessoas de comprar os bens essenciais.

Se alguns constroem autênticos armazéns em casa para sobreviver ao isolamento social e deixam as lojas com pouco para os que chegam a seguir, outros não têm a possibilidade de o fazer graças ao egoísmo das que chegaram primeiro.

Nunca o provérbio “não faças aos outros o que não gostavas que te fizessem a ti” fez tanto sentido. E nunca um filme se assemelhou tanto, embora que indiretamente, à situação social que estamos a viver.

Os parágrafos que se seguem contêm spoilers.

Para cada detalhe, um significado

  • ‘A PLATAFORMA’ quando sai do piso zero, a plataforma vai recheada de pratos principais, bebidas e sobremesas meticulosamente preparados. Nos primeiros níveis, os prisioneiros comem tudo o que lhes apetece, mas, à medida que vai descendo, os outros ficam apenas com os restos que sobram.
  • OS COLEGAS DE CELA – no seu primeiro mês de prisão, Goreng (Iván Massagué) acorda no nível 48 e partilha a cela com Trimagasi (Zorion Eguileor), um homem que foi preso por matar uma pessoa ao atirar a sua televisão pela janela. Perante este novo cenário, o novato expõe as suas dúvidas ao mais velho, que lhe explica que se tirar algo da mesa e guardar para comer mais tarde, morre, e, de vez em quando, vai ver gente a saltar do precipício. Ou serão empurrados?

  • OS OBJETOS – cada prisioneiro pode escolher algo para levar consigo enquanto estiver a cumprir pena. Goreng não cometeu nenhum crime, apenas se voluntariou porque quer receber um diploma e deixar de fumar. Escolheu levar o livro Don Quixote, ao contrário de Trimagasi que guarda consigo uma faca, um dos items mais que mais presos escolhem para ter consigo naquela prisão.
  • A MULHER NA MESA – numa das suas refeições, Goreng fica espantado por ver uma mulher sentada em cima da comida quando a plataforma desce mas Trimagasi rapidamente lhe diz que Miharu anda a tentar descobrir em que nível está o seu filho.

  • O CANIBALISMO – no segundo mês, a personagem principal acorda no nível 171, amordaçado, preso à cama e com o velho colega de cela a observá-lo de faca na mão. Pronto a cortar-lhe partes do corpo para se alimentar, é Miharu que o salva numa das suas descidas pela plataforma. A mulher ataca Trimagasi e liberta Goreng, que posteriormente mata o velho com várias facadas e se alimenta dele durante aquele mês.
  • SOLIDARIEDADE ESPONTÂNEA – no terceiro mês, Goreng acorda no nível 33, uma vitória para quem, ainda há bem pouco tempo, se alimentava da carne do colega. É nesse momento que conhece Imoguiri, uma mulher que já pertenceu à administração da prisão mas está agora a combater o cancro e pretende tornar os prisioneiros mais solidários uns com os outros de modo a todos sobreviverem.
  • ALTRUÍSMO – quando acorda no nível 202, GorengImoguiri enforcada num canto da cela. Sem esperança de vida, a mulher decide matar-se para que o colega se alimente do seu corpo e sobreviva por mais um mês.

  • A PANNA COTTA – depois do trauma que passou no quinto mês, Goreng acorda no nível 6 e tem Baharat ao seu lado, um homem cheio de energia e vontade de chegar ao primeiro nível com a ajuda da sua corda. Quando Goreng lhe explica o seu plano de descer todos os pisos para reverter o sistema, o colega alinha e, juntos, descobrem que a solução pode passar por preservarem um dos pratos até ao último nível – a panna cotta.
  • A CRIANÇA – depois de muitas lutas e mortes, os dois atingem o nível 333, onde encontram uma criança escondida debaixo da cama. A menina parece estar física e psicologicamente bem mas com bastante fome. É nesse momento que Baharat lhe dá a panna cotta e percebe que é a criança quem pode quebrar o sistema, pela sua inocência e por representar uma nova geração que pode quebrar este ciclo vicioso.

  • O MESSIASBaharat acaba por morrer e deixar Goreng sozinho com a menina no último piso. Este tem uma alucinação onde conversa com Trimagasi, que lhe diz que a sua missão de Messias acaba ali e este se pode finalmente juntar a ele. O final do filme não é totalmente claro, mas termina com a criança a subir na plataforma.

O capitalismo está camuflado nas metáforas

A prisão é uma clara metáfora para o capitalismo no seu estado mais corrupto. A ideia de classes é explorada pela premissa do filme como um reflexo da sociedade capitalista e da forma como as classes superiores são beneficiadas em relação às que estão em baixo.

Ao longo do filme vamos perceber que a comida fornecida é suficiente para alimentar todos os presos, o problema é que lhes falta generosidade e altruísmo.

É neste momento que entra em ação o pensamento ético das personagens: podem comer tudo o que lhes apetecer ou deixar algo para quem está nos níveis abaixo e que lhes permita sobreviver se, de seguida, forem parar à base da cadeia.

A Plataforma tem como objetivo mudar mentalidades e só requer 94 minutos da tua quarentena. Prometo que não te vais arrepender.

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