Iguana Garcia
Divulgação

Iguana Garcia: “À medida que o tempo passa vou tendo cada vez menos ídolos”

Vagas é o título do novo disco do artista lisboeta

Iguana Garcia é o nome artístico de João Garcia que lançou o seu segundo disco, Vagasa 28 de fevereiro. O Espalha-Factos esteve à conversa com o artista sobre este seu novo trabalho – à distância, por obrigação dos tempos que se vivem.

Natural de Cascais, Iguana Garcia iniciou a sua carreira como vocalista dos The Kafkas, mas acabou por ser em formato one-man band que começou a crescer dentro do panorama musical português.

Depois de em 2017 ter lançado Cabaret Aleatório, o artista lisboense regressou em fevereiro deste ano com Vagas. Produzido pelo próprio, João descreve-o como um “álbum pop e melódico, um álbum de inverno com cores mais frias e ambientes mais intimistas”.

O disco, que se encontra disponível nas habituais plataformas de streaming, é acompanhado por um documentário, Call Me: Iguana Garcia, realizado por Henrique Guerreiro.

De onde surgiu o nome “Iguana”?

Basicamente, torno-me Iguana no HAUS quando estava em estúdio a gravar o Cabaret Aleatório, não tinha um bom nome artístico e à conversa com o Makoto veio à baila a palavra iguana. Tive logo a sinapse de juntar o meu apelido, e nesse mesmo dia encontrei nas minhas fotos do computador uma foto de uma iguana tirada pelo meu pai, que mais tarde serviu para capa do disco. Achei que eram sinais suficientemente fortes para assumir o nome.

Vagas é o título do teu novo álbum. Como é que o apresentarias a alguém?

Este é um álbum pop e melódico, um álbum de inverno com cores mais frias e ambientes mais intimistas, e onde a voz também assume o papel de ator principal.

O álbum soa diferente de Cabaret Aleatório. Como é que decorreu o processo de escrita de Cabaret Aleatório, e de que forma se alterou para este novo projeto?

O processo de escrita de um e de outro foi feito de uma forma completamente diferente. No primeiro álbum, as músicas foram compostas de mão dada com o processo da sua interpretação ao vivo. Neste caso, escolhi compor canções sem me preocupar como seriam transportadas para o palco, e isso fez com que o álbum divagasse menos, fosse mais direto ao lugar onde eu queria que ele chegasse, um pop alternativo com texturas mais contemporâneas.

Uma das principais diferenças que se fez notar do Cabaret Aleatório para Vagas foi a duração das músicas. Isto deve-se a quê?

Foi em tudo uma decisão minha fazer um álbum essencialmente cancioneiro, com uma duração mais curta, para mostrar ao que soa uma canção à Iguana Garcia.

Iguana Garcia
Iguana Garcia é o nome artístico do lisboense João Garcia. (Divulgação)
Tens alguma música que consideres como favorita neste projeto?

Gosto de todas e a que gosto mais vai mudando com a fase em que oiço o álbum. Talvez a Animais Silvestres seja a que esteja a gostar mais neste momento.

Quais são as inspirações que te guiam – tanto a nível musical como pessoal?

À medida que o tempo passa vou tendo cada vez menos ídolos. Tem-me inspirado cada mais a partilha que tenho com as pessoas com que vou conquistando intimidade e proximidade a sério. Isto quer dizer que muitos momentos me deixam uma emoção em forma de memória física e sinestésica na nostalgia, e essa emoção, e o que ela transmite, é altamente inspiradora.

Como é que funciona o teu processo criativo, e o que procuras alcançar com os sons que utilizas na tua música?

O meu processo criativo tem sido consistente. Começo a minha música no meu computador, a produzir beats, baixos e teclados, trabalhando bem a produção, as equalizações, compressões e afins de cada som. Quando sinto que esse lado está resolvido avanço para o processo de vozes e guitarras. A escrita da letra acompanha o processo transversalmente e vai sendo aquilo. Escrevo e reescrevo até chegar ao que quero dizer. Essencialmente, mais do que nunca, interessa-me alcançar sons que nos façam dançar, mas que, ao mesmo tempo, vão beber a sonoridades do passado e são apresentados numa bandeja futurista.

Como é que é crescer no mundo da música em Portugal? Sentes que a era do streaming ajudou a dar a conhecer a música do Iguana? 

Tem sido um caminho giro, tenho vivido muito do que sempre quis enquanto adolescente, quando sonhava com um dia tornar-me músico, e é bom ver que aos poucos o meu trabalho ganha visibilidade. Na parte da notoriedade, é óbvio que o streaming é uma ferramenta essencial e muito útil para divulgares o que fazes, a tua música está acessível a todos.

Existe alguma diferença entre o Iguana em estúdio e o Iguana em palco? E entre o João e o Iguana?

Todos se misturam um pouco com todos, o desafio é manter o equilíbrio entre tudo. Quando estou em palco é o momento mais isolado entre todos, a minha postura enquanto comunicador e artista de palco tem de ser mais forte que no quotidiano ou em estúdio. Em estúdio, sou bastante focado e metódico.

Qual é o futuro do Iguana daqui para a frente, tanto a nome próprio como em nome de colaborações?

Neste momento o mundo mudou, e eu não sei que oportunidades existirão quando retomarmos a normalidade, mas o que tinha planeado é assumir uma sonoridade mais eletrónica, que me ajude a viver musicalmente em dois mundos. O dos concertos ao vivo, e o da música eletrónica enquanto DJ. Tenho ideias para uma editora também, e quanto a colaborações estou certo de que serão imensas ao longo da carreira.

Neste período de isolamento, tenho seguido as faixas que tens colocado no Soundcloud. Como é que isto está a ajudar a lidar com os tempos difíceis que se vivem?

Tem sido essencial. A vida parou, e em casa precisava de algo a que me agarrar para manter motivação, um pouco de disciplina, e que me desse prazer. Neste momento, assumi o desafio para mim mesmo e estou empenhado em fazer o máximo de música possível. Está a ser completamente terapêutico.

Tinhas dois concertos agendados para a estreia de Vagas que foram cancelados. Sendo um artista, como é que pode ser possível colmatar a perda de rendimento para os próximos tempos? E que medidas devem de ser impostas de forma a proteger a indústria?

Tenho pensado muito e refletido muito sobre o que está a acontecer, porque o espetáculo ao vivo foi o primeiro setor a ser anulado nesta crise, e será seguramente o último a retomar normalidade. Não sei que medidas podem ser tomadas, até porque haverá seguramente uma crise financeira a seguir. Mas num mundo de créditos e capitalismo, imagino que a solução passará por apoios, ou empréstimos a artistas e todos os profissionais do meio.

Por último: alguma recomendação para esta quarentena?

Várias. Em cinema, os clássicos de Hitchcock; vi há pouco tempo o português A Herdade e adorei, e cinema-noir claro – Chinatown, para quem nunca viu. E música, oiçam as playlists que o Lux tem feito, estão ótimas e super ecléticas.

Esta entrevista foi realizada por e-mail.

Mais Artigos
TEDxULisboa. “O online é uma forma de despertar a mente”