Opinião. ‘Quer o Destino’ é nova, mas em nada inova

Quer o Destino, a nova grande aposta da TVI na área da ficção, chegou com o objetivo de recuperar as audiências perdidas. Porém, ser mais do mesmo não facilitará o trabalho. Quer o Destino é só mais uma.

Adaptada da telenovela chilena Amanda, Quer o Destino conta a história de Vitória, uma enfermeira que se infiltra na casa da família da qual pretende vingar-se. Poderíamos dizer que a trama tem tudo para dar certo, afinal histórias de vingança costumam resultar em Portugal. Porém, a premissa da nova novela da TVI tem pouco de original e oferece-nos precisamente o contrário do que o público neste momento procura.

‘Quer o Destino’ é a nova novela da TVI.

Histórias de vingança não são uma novidade na nossa televisão. Vingança – a própria – novela protagonizada por Diogo Morgado, na SIC, é talvez o maior exemplo da representação da temática, que não só era tão presente que tornava o nome da história simbiótico à própria narrativa, como (quase) sempre deveria ser.

Porém, Vingança não foi a única. A Outra, Laços de Sangue, Sol de Inverno, Santa Bárbara, Ouro Verde e, mais recentemente, Terra Brava, são todas novelas cuja temática serviu de acelerador para toda a história. E esta lista – sintetizada – não refere aquelas cujo tema se desenvolveu em personagens secundárias ou, então, a meio da história, pois era necessário fazer render o peixe até aos 300 capítulos e a narrativa principal já se tinha gastado ao fim de 100. A televisão portuguesa parece, de alguma forma, atraída por vinganças. Há um certo fetiche, diga-se.

No Brasil, a história é semelhante. Não me atrevo a fazer uma lista, até porque não há necessidade, uma vez que os públicos de ambos os países são muito distintos, mas mencionarei apenas uma: Avenida Brasil. A história da jovem transtornada que decide regressar para se vingar – sob a sombra de um novo nome – e infiltrar-se como empregada na casa da família que pretende destruir, conquistou o mundo. Sim, o mundo. Não só é das novelas mais vendidas de sempre, como uma recordista de números de audiências em vários países. E Portugal não foi exceção.

‘Avenida Brasil’ (2012), Globo

Não recorreria ao exemplo de Avenida Brasil se não achasse necessário. As parecenças com Quer o Destino são gritantes, até mesmo no casal principal que, à semelhança da novela brasileira, já se conhecia desde a infância e que agora se reencontra. A única diferença na narrativa será, talvez, a história que origina a vingança. Numa é a morte e desgraça do pai. Noutra é uma violação feita por quatro irmãos. Sim, uma violação. Esse outro tema que já aparece em quase todas as novelas portuguesas.

A TVI parece alienada da realidade. Numa altura em que o regresso ao melodrama faz crescer as audiências – algo comprovado por Golpe de Sorte, por exemplo – seria de esperar que as histórias de vingança, de violações, de tiros e todo o tipo de violência começassem a ser banidas. Contudo, a direção da TVI achou que seria esta a história que recuperaria as audiências perdidas. E até poderá ser, afinal os números nem sempre andam de mãos dadas com a qualidade e existem vários exemplos disso. No entanto, Quer o Destino parece vir com a mesma proposta que as novelas anteriores.

A níveis de prestações de elenco, a nova aposta da TVI também não agradou propriamente. Por um lado, é ótimo ter Sara Barradas de regresso aos ecrãs, especialmente com um papel de protagonista com tal potencial, mas a verdade é que é difícil sentir empatia pela personagem que, por motivos da dureza da vida – talvez – parece apenas rude. O restante elenco, extremamente reciclado de novelas anteriores do canal (com uma ou outra exceção), não convence, não surpreende e, na verdade, não cumpre.

No entanto, tenho que apontar aquele que, para mim, é o pior dos erros: a realização. Na Corda Bamba estreou com uma boa qualidade de imagem e uma realização mais cuidada, apesar da imagem escura que, segundo alguns, terá sido a principal razão pela falta de audiência. Quer o Destino quebra a tendência e traz consigo uma imagem iluminada, mas sem qualquer tipo de naturalidade. A técnica artística da Plural continua exatamente a mesma. Um progresso aqui, um progresso ali, mas o produto final nunca se sobressai. A iluminação é artificial, os cenários são pobres e datados e os realizadores continuam a cometer os mesmos erros.

A história é protagonizada por Sara Barradas.

Dos vários países cuja produção de novelas ainda é um dos maiores ativos da ficção (falo do Brasil, México, Chile, entre outros), Portugal está no topo como um dos que produz mais horas de ficção ao longo de um ano. Não porque faz várias novelas, mas porque produz várias horas do mesmo produto. Não deixa de ser estranho que um país que passa tanto tempo a fazer novelas ainda não tenha aprendido a fazê-las como deve ser.

Não podemos comparar a fábrica que é o Brasil com a tentativa que é Portugal. Não é justo. Não temos os mesmos anos de história em televisão, não temos os mesmos recursos e não estamos nem perto de ter metade do investimento. É um facto que atrasa o progresso e não tem como ser negado. Porém, a qualidade das nossas histórias podia ser reforçada, se não andássemos sempre a apostar nas mesmas narrativas.

Quer o Destino não é uma má novela. É uma novela portuguesa, como tantas outras, mas não se destaca das demais. A TVI teve a oportunidade de arriscar e lançar todas as cartas numa produção diferente e inovadora, mas decidiu jogar pelo seguro e trazer mais uma adaptação. Não condeno. Mas talvez o público o faça.

Redator
  1. A tvi inovou com “Na Corda Bamba” e os números que a novela fez e faz estão à vista de todos, um fracasso total no horário! O que no fundo diz muito do público português que assiste a novelas, não é verdade… A “Nazaré” da sic nada tem de original também mas devido à ruralidade e simplicidade da história conseguiu agarrar as pessoas e a tvi decidiu copiar a estratégia (que a bem ver não é uma cópia e sim um regresso às produções iniciais do canal), de qualquer das formas que ninguém tenha ilusões, as pessoas estão pressas à sic desde Fevereiro e a tendência é a de continuação, fosse qual fosse o formato de ficção apresentado pela tvi neste momento, leve ou menos leve, de comédia ou drama, de acção ou rural, teria sempre dificuldade em impor-se! A ideia neste momento, a meu ver, não é liderar no horário e sim tentar chamar algum do antigo público que via a ficção tvi, e que entretanto mudou de canal para a concorrência, de volta para o canal. A ver vamos se a estratégia resulta. De qualquer das formas, e para terminar, esta estratégia de programação foi toda ela desenhada pela administração anterior, não foi o Nuno Santos quem aprovou a história pois as gravações já decorriam a todo o gás aquando da sua entrada nos quadros da estação. Também a próxima produção, “Amar Demais”, já estava em pré produção meses antes da nomeação do novo diretor geral do canal, e mesmo com elenco fechado!, seria muito arriscado também travar esta mesma produção que ao que parece também será um dramalhão… a ver vamos no que tudo isto vai dar e se de facto a tvi consegue voltar a conquistar o lugar de lider de audiências em Portugal. A minha opinião sincera? Vai ser preciso um milagre, mas como vivemos num pais repleto de pessoas de fé… nunca se sabe!

    1. Olá Rui, obrigado pelo comentário!
      Eu concordo, a inovação nem sempre será sinónimo de audiências e sei, também, que não é por a TVI seguir este caminho de regressar a histórias que já contou antes, que não conseguirá ter melhores resultados do que aqueles que vinha a ter. A minha opinião, no entanto, prende-se apenas no aspeto de não ser este tipo de histórias que procuramos agora. Penso que o público quer histórias mais leves e básicas, sendo que as novelas da SIC são exemplos disso. Falo de Nazaré e de Terra Brava, mas em especial da primeira, cuja história não tem grande densidade emocional e poderia ser algo ainda mais “adolescente” do que aquilo que já é. E com isto, apesar de serem mais simples, não digo que Nazaré seja melhor do que Quer o Destino, até porque é visível que o enredo na nova novela da TVI está mais trabalhado. Simplesmente não me parece ser a aposta que se precisa neste momento.

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