Eugénio de Andrade

21 de março. Hoje é dia de celebrar a poesia contemporânea portuguesa

Dia Mundial da Poesia

Há séculos que temos escrito poesia – desde os versos trovadorescos de D. Dinis I, o nosso Lavrador das artes, até à Mensagem de Fernando Pessoa sobre os feitos e defeitos portugueses que Camões já havia relatado.

Há 21 anos, o 21 de março era declarado pela UNESCO como o Dia Mundial da Poesia, o dia de pensar naqueles que trazem estas melodias dentro de si. Por isso, em 2020, o Espalha-Factos honra os poetas contemporâneos portugueses e a diversidade temática e estética que nos trouxeram nos últimos 200 anos.

Há quem use a poesia para as suas ânsias

Mário de Sá Carneiro nasceu em 1890 e na sua vida literária, em destaque na poesia, espelhou ansiedades e descontentamentos sentidos por si mesmo e pelo mundo que o rodeou.

Dispersão
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim. 

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(…)

O pobre moço das ânsias
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

(…) 

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traíu a si mesmo.

 Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro –
Não me acho no que projecto.

Mário de Sá Carneiro, in Dispersão

Há quem procure o seu Eu nas palavras

A busca intrínseca foi comum aos poetas do Orpheu, a revista cultural em que Sá Carneiro e Pessoa colaboraram. Mas, mais do que isso, esta busca intrínseca foi comum aos poetas do início do século XX.

Eu
Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca! –
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca! 

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

Florbela Espanca, in Charneca em Flor

7
Eu
não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Mário de Sá Carneiro, in Indícios de Oiro

Florbela Espanca e Mário de Sá Carneiro poderão não se ter encontrado – ambos abandonaram o mundo da mesma forma: despedindo-se de si mesmos propositadamente, e sozinhos.

Mário de Sá Carneiro, num hotel em Nice, em 1916. “Paris – 31 Março 1916. Meu Querido Amigo. A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo”.

Florbela Espanca, após diversos desgostos, uma doença mental e uma doença pulmonar e várias tentativas sem sucesso de, desaparecia deste mundo em 1930, em Matosinhos, por overdose. Em 1964, o seu corpo seria colocado no cemitério de Vila Viçosa, de onde era natural.

Não sei quem sou, que alma tenho
Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)…
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.

Fernando Pessoa, in Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação

Não resta dúvida de que há quem seja muitos. Muitos que falam de coisas ou de Deus(es)…

Se Pessoa se encontrou ou não, é incerto. O Livro do Desassossego (que nem assina por si próprio) ou textos soltos do escritor trouxeram dúvidas. Desabrochou em vários eus, que por associação poderiam ser (são!) Pessoa.

V
[…]
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

 Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
[…] 

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos in Poemas de Alberto Caeiro

Se a cada coisa que há um deus compete
Se a cada coisa que há um deus compete,
Por que não haverá de mim um deus?
Por que o não serei eu?
É em mim que o deus anima
Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo —
Coisas, homens, sem alma.

Ricardo Reis, in Odes de Ricardo Reis 

Muitos que encontram nos outros a sua inspiração…

Contrariedades
Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente. 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos. 

(…) 

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta. 

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene. 

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde

Tabacaria
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

Álvaro de Campos, in Poesias de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa expressou várias vezes ver Cesário Verde como uma inspiração. Habitualmente, associamo-lo a Alberto Caeiro. Mas Caeiro não é o único heterónimo onde o poeta de Loures pode ser encontrado.

Uns fazem de frescos poesia…

Cesário Verde cresceu com um pai lavrador, e acompanhou-o enquanto comerciante. Isso à parte, era escritor, e poeta que moldou o lirismo do século XX, mantendo-se humilde às vistas que sempre teve.

Num bairro moderno
[…]
E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, ao bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos – ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas – os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como alguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.
[…]

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde

Outros, do mar a palavra-chave de tudo

Os amigos
Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga –
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Musa

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A poesia está na rua, e move multidões

25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas

Sophia de Mello Breyner Andresen esteve na Assembleia Constituinte, militou pelo Partido Socialista e, mais importante do que isso, escreveu. A política não é nada se as pessoas não estão na rua e se os poetas não estão a cantar (por bem ou por mal). A poetisa tem no seu legado vários versos dedicados ao dia em que o povo português provava a liberdade – o ansiado 25 de abril de 1974.

A poesia difunde e defende a língua portuguesa

A poesia e a língua evoluem em conjunto, bastando-nos olhar para uma cantiga do século XIII e para o excerto que se segue (ou qualquer outro) para o perceber. Das palavras às escolhas estilísticas.

Vasco Graça Moura, divulgador das letras portuguesas (assim apelidado por Pedro Passos Coelho à data da sua morte), foi uma voz crítica na defesa da língua portuguesa, nomeadamente com a oposição a alterações formais da mesma (acordos ortográficos). A sua autenticidade passa nas palavras que conjugou, cuidadosamente, em todo o legado literário que deixou.

lamento para a língua portuguesa
não és mais do que as outras, mas és nossa,

e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
[…]

Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

A poesia faz-se, com amor, na primavera

Notre Dame Talvez
És um piquenique nos relvados de Belém

A toalha de mesa no pasto a fazer de chão
Aos quadrados vermelhos e brancos ou
És o chão de madeira por baixo da mesa com toalha
Aos quadrados vermelhos e brancos daquele
Restaurante italiano no Príncipe Real
Que costumávamos ir no verão
Ou és realmente o rei menino em Alcácer Quibir
Céus, não! És o alcácer à volta do meu peito
A respirar o ar fresco da mesquita azul
Ou era vermelha ou eras tu?
Ou és a catedral da dama quando jogamos às damas
Porque nos cansa o xadrez
Notre Dame talvez ou se nos conhecemos foi no xadrez
Duma toalha de mesa no café da aldeia
Do meu avô
És a fruta de época da sobremesa na cantina
És a sopa, o prato, a colher, a menina
Que vai à aula de religião e vejo passar
Pelo passeio Sábados de manhã
Ou que horas são?
És aquele segundo de tempo que penso
Que o relógio parou ou és o tempo parado
Ou se calhar és o sino da Igreja que marca as horas
Na aldeia, na cidade, na serra
Quando ia lá aos fins-de-semana contigo
Um albergue que albergas na algibeira
Que deixas quase que aposto de propósito
Para voltar aos sítios aonde não quero ir
Mas eu vou contigo porque são nossos
Os sítios aos que vamos os museus que
Visitamos os quadros que mal vês
O frio do vitral o fresco da catedral
Somos as cores da rosácea
Notre Dame talvez

Mariano Alejandro Ribeiro

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A poesia faz-se, profunda, nas estações mais frias

Outono
O outono vem vindo, chegam melancolias,

cavam fundo no corpo,
instalam-se nas fendas; às vezes
por aí ficam com a chuva
apodrecendo;
ou então deixam marcas; as putas,
difíceis de apagar, de tão negras,
duras.

Eugénio de Andrade, in O Outro Nome da Terra

A poesia mal reconhece o tempo

E todos gostam de o explorar. Está praticamente provado que escrever sobre os nossos sentimentos é uma forma bonita de os explanar. Escrever sobre nostalgia é o seu ponto máximo. Faz-nos senti-la mesmo quando não vivemos, exatamente da forma descrita, aquilo que o poeta descreve.

Álvaro de Campos explorou este campo com afinco nos últimos anos da sua contribuição para o espólio literário de Pessoa. Os versos de Aniversário deixam o leitor com um coração afogado. Eugénio de Andrade dedicou inúmeras palavras à mãe – uma palavra-mor da saudade.

Apredizagens
Era cromada e preta a bicicleta,

trazia um laço largo no volante circulando
o Natal e rodas generosas
como parecia o mundo

Eu, na manhã seguinte,
sem saber sustentar a rota nivelada,
o meu pai a meu lado, segurando o assento,
a sua mão: aceso fio de prumo,
em acesa confiança

Depois, era-lhe a voz entrecortada
pelo puro cansaço de correr,
tentando harmonizar a bicicleta

Hoje, muitos anos depois de gestos paralelos,
a minha filha sobre outras estradas,
a minha mão corrigindo o desvio de mais modernas rodas,
entendo finalmente que era emoção o que se ouvia
na voz interrompida do meu pai:

o medo que eu caísse,
mesmo sabendo que eram curtas as quedas,
mas sobretudo a ternura de me ver ali,
a entrar no mundo dos crescidos,
em equilíbrio débil,
rente à saída circular da infância

Ana Luísa Amaral

Ouvimo-la à hora que tiver de ser

E sobre o que tiver de ser. A grande qualidade dos nossos poetas mais modernos é poder escrever sobre tudo, até sobre os versos em si. Na sua poesia, Ana Luísa Amaral fala das coisas, das letras, de histórias pensadas. Aqui, temos intimidade e temos o céu da madrugada – conceitos indissociáveis para que o poema se faça.

Ilusionismos
Repara, meu amor: são duas da manhã
e eu ainda aqui a começar
(na minha hora que tem sido a hora
onde poemas são e se entrelaçam)

São duas da manhã e sem luar:
não sei atravessar-te pelo vidro
e criar-te metáfora de brilho

São duas da manhã e o céu
tão escuro como carvão-carvão:
onde vou inventar pequenos seixos
para fazer fogueira que te escorra?

Estamos dentro da noite que é mais noite
e que é que eu trago para te acordar?

Olha: ponho esta lâmpada a fingir
de estrela mais polar do que a polar,
e, vês, o vidro em frente: não me vejas
enrolada a escrever: é espelho mágico

e agora eu era o verso mais perfeito
e tu a mais perfeita das palavras
e às duas da manhã trago-te: um céu,

são estrelas e mil luas, são seixos
mais galácticos que a luz, mais velozes
que a luz e no teu corpo, vês, a minha mão

é chão feito de luz e estrelas e do
carvão-carvão nasceu um sol e do meu
pé, repara nesse céu: fogueira interestelar

e o que eu tinha escondido atrás do Tempo
e Deus: um tempo a sério para tu entrares
em bola de cristal feita de espelhos

Ana Luísa Amaral

E, especialmente, nos sonhos

Estas mãos sonâmbulas transcrevem
tudo o que sonhei em vigília
Estendo os dedos e toco a página de um lugar
fado dialógico, extremo de minhas mãos. 
Sou textura polifónica, luz sonâmbula
de um breve segredo em que me inscrevo.

Gisela Gracias Ramos Rosa, in O livro das mãos

Disse Eugénio de Andrade que “é na nossa poesia que se encontra isso que os políticos tão afanosamente buscam: a nossa identidade“.

Se o lirismo português viveu dos orgulhos do alto mar durante anos, desde o século XIX que a poesia se dedica às pessoas e àquilo que representamos no meio do cosmos, por mais insignificantes que aparentemos ser no seu conjunto infinito.

E é também por isto que a poesia contemporânea portuguesa não pode deixar de nos dizer muito.

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