andré henriques
Fotografia: Sony Music Portugal

André Henriques: “Nunca tive a intenção de fazer um disco a solo”

André Henriques, um dos membros da banda de rock portuguesa Linda Martini, lançou na semana passada o seu primeiro disco a solo. Mais que um conjunto de 12 músicas, Cajarana é um novelo de contos que se vão desenrolando com o toque suave da guitarra e a voz lo-fi do vocalista.

Produzido em conjunto com Ricardo Dias Gomes e com a participação de Ivo Costa e Pedro Ferreira, o disco já está disponível nas várias plataformas de streaming.

Espalha-Factos esteve à conversa com André Henriques (por escrito, porque os tempos assim o obrigam) sobre este novo projeto musical.

Quase toda a tua carreira enquanto músico foi feita em conjunto, tanto em Linda Martini como enquanto compositor para outros artistas. O que significa para ti este novo projeto a solo?

É uma forma diferente de compor, que descobri quando comecei a escrever para outros intérpretes. O texto vem primeiro ou em simultâneo com a música e isso muda tudo. Com os Linda Martini, pontualmente já comecei canções assim, mas regra geral encaixo as palavras no fim. O Cajarana é uma experiência que só me apeteceu viver agora. Aconteceu tudo muito rápido, em 2 meses. Tenho que me distanciar do disco para perceber o que significam estas canções para mim.

Este disco parece muito íntimo e nu. Fazendo parte dos Linda Martini, uma banda com um som e aura tão explosivos há tantos anos, sentes que este álbum a solo foi algo que buscavas e vias como necessário ou foi apenas algo que surgiu inconscientemente?

Nunca tive intenção de fazer um disco a solo. Tudo aconteceu porque fiz duas músicas que não encaixavam na banda e apeteceu-me ver como ficariam assim mais despidas. Eu gosto de rock, é a minha piscina, mas não queria fazer um disco rock a solo, para isso tenho a banda. Essa foi a única premissa: tentar fugir ao som dos Linda Martini. Já que não posso fugir da voz nem dos meus maneirismos de composição, tentei fugir nos arranjos, nos instrumentos que utilizei.

Linda Martini
André Henriques é um dos membros da banda Linda Martini (Fotografia: Inês Pinto | CCA)

Em canções como ‘Uma Casa na Praia’ e ‘Tecido não Tecido’ falas de questões do quotidiano, como “a escola dos putos/e vivemos de quê?” e a vontade que às vemos temos de encontrarmos algo que nos permita esquecer as responsabilidades por um bocadinho. Durante anos, balanceaste a tua vida entre um trabalho de “fato e gravata” e o mundo da música. Vias a música como um refúgio ou consideravas tal e qual um trabalho como o outro? 

Foi sempre o meu refúgio. Foi o que me equilibrou ao longo de tantos anos, mas acabou também por ser o fator de desequilíbrio. Tornou-se incompatível trabalhar 40 horas por semana em algo que não me dava gozo, apesar de me dar conforto financeiro, e do outro lado ter a música e não me poder dedicar mais a ela.

Cada uma das músicas de Cajarana parece contar uma história. Escreves com esse objetivo?

Gosto de contar histórias. Às vezes são coisas pessoais, outras mais ficcionadas. O desafio é encontrares o teu ângulo, o teu espaço. Não tenho grandes objectivos quando escrevo. Sou muito intuitivo, não escrevo a pensar num tema. Normalmente surgem-me frases enquanto estou a tocar e eu insisto mais um pouco e tento puxar o novelo para perceber que história está por trás dessa frase.

Tenho acompanhado os diários das canções no Instagram e vi que algumas foram gravadas de maneira bastante não ortodoxa: uma na casa de banho, outra em cerca de 30 minutos. Concordas que, neste disco, menos foi mais? 

Essa da casa de banho não foi planeada. Era o único sítio onde me podia fechar e não ser interrompido pelos meus filhos. Aconteceu porque a versão de estúdio me parecia muito polida e eu queria que a entrada do disco mostrasse como ele começou: eu, sozinho em casa, com uma guitarra e um telemóvel. As outras canções têm histórias diferentes. O que acabou por ditar os arranjos foram também os textos, perceber de que falam, que emoção transmitem e depois encontrar o vestido certo para cada canção.

Há uns meses vi o Ricardo Dias Gomes tocar na ZDB e quando soube que ele tinha participado neste disco fiquei surpreendida, porque senti que os vossos estilos são muito diferentes. Já se conheciam? O que fez com que o escolhesses para participar neste disco? 

Não nos conhecíamos. Fomos apresentados por amigos em comum e fiquei rendido depois de perceber que tinha tocado com o Caetano no Cê (e nos dois discos seguintes, o Zii e Zié e o Abraçaço) e de ouvir os dois discos que tem a solo, onde aborda uma onda mais experimental.

Para além disso, agradava-me o facto de trabalhar com alguém que não fazia puto de ideia de quem eu era ou de que banda fazia parte.

Em ‘Uma Casa na Praia’, falas da “cidade que quer posar para o turista”, e voltas a falar da “soberba capital” na Pese Embora. Como é que vês a evolução na cidade, não só de uma perspectiva artística mas também enquanto pessoa que vive nela?

São coisas diferentes. ‘Uma Casa na Praia’ fala de fugir à cidade, que é uma ideia cada vez mais presente na minha cabeça. Já não me apetece viver neste ritmo, apetece-me abrandar. O “soberba capital” não é sobre Lisboa. Soberba é um dos pecados capitais, é sinónimo de orgulho, de altivez. A canção fala de uma mulher que é idolatrada por alguém e adora sentir-se especial mas vive num dilema porque não consegue retribuir essa paixão.

Os Linda Martini publicaram no Instagram uma versão “quarentenada” da canção Dez Tostões. Achas que este período de isolamento será frutífero em termos de criação artística ou o contrário?

Estou certo de que para muitas pessoas será um período fértil. No meu caso, com os meus dois filhos pequenos num apartamento, há demasiadas distracções durante o dia para conseguir ser produtivo na música. Tento-me dedicar mais à escrita durante a noite mas nessa altura não posso fazer barulho… Enfim, vou ter que ser criativo!

Para fechar: Quais são, para ti, as melhores canções de amor? 

Tantas que seria um esforço inglório tentar. Deixo algumas das minhas favoritas, não quer dizer que sejam as melhores: ‘Connie Island Girl’, de Tom Waits, ‘I fall in love too easily’, de Chet Baker e ‘Suzanne’, de Leonard Cohen.

Lê também: @FESTIVALEUFICOEMCASA oferece concertos em direto no Instagram

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