Fotografia: Ana Marta / Teatro Ibérico

Daniel Carapeto dos Roda Bota Fora: “Já tivemos ideias estapafúrdias como aparecer em palco todos nus”

Em plena terceira temporada de espetáculos dos Roda Bota Fora, o Espalha-Factos conseguiu conversar com dois elementos deste conjunto de humoristas portugueses para saber um pouco mais sobre este projeto.

Antes de subirem ao palco de um dos auditórios do Iscte, no contexto do FISTA 20, encontrámo-nos com Daniel Carapeto e Pedro Sousa, dois integrantes dos Roda Bota Fora. Este projeto é também constituído por Pedro Durão, Guilherme Fonseca, Diogo Abreu e Duarte Correia da Silva.

Roda Bota Fora
Fotografia: Divulgação

Antes de mais, quero que me expliquem qual o conceito do espetáculo dos Roda Bota Fora.

Pedro Sousa: Nós somos um conjunto de seis humoristas e o nosso espetáculo é constituído por dois momentos. O primeiro é de stand-up comedy, que dura uma hora. [Tendo em conta o número de humoristas], nós damos dez minutos a solo e, depois, temos a [segunda] parte, que vai para o YouTube,  que consiste numa ‘batalha de piadas’, onde duas piadas [de filas diferentes] entram em conflito uma com a outra e o público escolhe a que gostou mais.

Cada pessoa tem duas vidas, que estão coladas no peito e, consequentemente, quem chegar ao fim com mais elementos vence o jogo. Para quem quiser perceber isto pode ir ao YouTube, onde já estão disponíveis 18 vídeos de entre 20 a 30 minutos. Tenho necessidade de esclarecer, para as pessoas que nos vêem [nessa plataforma], que o nosso espetáculo tem uma hora e muito de duração. Já recebemos alguns comentários a dizer que não nos iam pagar bilhete para ver 30 minutos de atuação.

E, Daniel, de onde vem o nome?

Daniel Carapeto: Vem disso [que o Pedro Sousa explicou]. Lembrámo-nos por causa do jogo de futebol que todos nós jogámos quando éramos miúdos [risos].

Referiram a presença dos Roda Bota Fora no Youtube. Estive a ver as vossas visualizações totais nessa plataforma e vocês já superaram a marca dos dois milhões. Isto é algo que vos surpreende?

DC: A mim surpreende-me e acho que para a maioria também. Nós [grupo Roda Bota Fora] tinhámos expectativas muito baixas com exceção do produtor. Achávamos que não ia correr mais do que médio, ou seja, ia ser um projeto mediano em termos de sucesso. Podia não ser horrível, mas não ia superar o [nível] médio.

PS: Sim concordo contigo. Ao início ninguém achava que isto ia ter sucesso [risos].

DC: Tenho ideia de comentar com alguém do género “vamos fazer estas datas [em 2018]. Se não der nada, cada um continua com a sua vida”

PS: E se corresse mal éramos só seis amigos a fazer stand-up em teatros, mas felizmente não aconteceu.

Roda Bota Fora
Fotografia: Daniel Carapeto | Divulgação

Focando agora no vosso papel a nível individual, qual é a vossa preparação para um espetáculo deste género? Existem diferenças em preparar um solo e uma atuação em grupo?

PS: Sim. Aliás, vou dar-te duas respostas. O espetáculo a solo, como ele [Daniel Carapeto] fez há pouco tempo, tem uma preparação completamente diferente do que quando fazemos o Roda Bota Fora. Para qualquer outra coisa, como hoje aqui no FISTA, fechar o dia dando a nossa palestra também [risos].

DC: Imagina agora chegarmos ali [no auditório], ‘bom, os discos rígidos…’ [risos]. Era lindo e o pessoal ficava todo baralhado [risos]. O que difere nos Roda Bota Fora é que existe aquele momento de batalha, mas, mesmo assim, não envolve grande preparação. Escolhemos apenas piadas e escrevemo-las. Nós não ensaiamos [esse segmento]. Fizemos isso no primeiro espetáculo para entender as dinâmicas, mas agora é tudo orgânico.

Não sentem nervosismo quando sobem a palco?

DC: Sinto na parte do meu stand-up, mas no jogo não.

PS: Há nervosismo na medida em que quero, e queremos, mostrar um produto final bom e que o público goste. Mas nervosismo, no geral, não tenho.

Estão no meio da terceira temporada dos Roda Bota Fora e têm espetáculos marcados até maio. O que é que o público pode esperar?

PS: Nós temos um acordo tácito entre nós em que tentamos variar parte do stand-up. O jogo em si é sempre diferente. Quem quiser ver mais do que uma vez, pode fazê-lo.

DC: Em cada temporada, o texto de stand-up é sempre diferente. Aí não há dúvidas. Por exemplo, quem nos viu em Guimarães no ano passado, pode ver novamente porque será novo.

Nunca pensaram em gravar e disponibillizar um espetáculo vosso na íntegra?

DC: Já pensámos, sim.

Aliás, seria bom porque dissiparia aquelas dúvidas que os espetáculos dos Roda Bota Fora duram apenas meia hora.

PS: Talvez aconteça.

DC: Mas não há nada planeado. Apenas tivemos essa ideia, mas também já tivemos ideias estapafúrdias como aparecer em palco todos nus ou irmos todos atuar a Londres…

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Mas há planos para internacionalizar este projeto?

PS: Nenhum. Por isso, atuar em Londres seria estúpido [risos].

DC: Podíamos atuar para as comunidades portuguesas e não fazer o espetáculo na língua inglesa.

Sim, eu percebi. Mas às vezes as ideias mais estúpidas são as mais válidas.

PS: Sim, olha o caso dos Roda Bota Fora [risos].

Roda Bota Fora
Fotografia: Pedro Sousa | Divulgação

Quero fazer-vos uma pergunta, agora enquanto comediantes, ou seja, podem responder da vossa opinião. Qual é o estado do humor em Portugal?

PS: Para facilitar a resposta posso dizer que existem fases do humor em Portugal. Falo por mim, mas acho que há quatro fases e atualmente estamos a viver na melhor. Há muita gente, muitos espaços e sobretudo muitos espetáculos a acontecer. Quem era conhecido passou a ser mais conhecido e acho que isso é sintomático da saúde do humor de stand-up comedy em Portugal.

DC: Concordo. Estamos numa fase boa devido à quantidade de gente e gente com qualidade. Acho, no entanto, que o mercado está a entrar num ponto de saturação. Por exemplo, nos últimos dois anos cresceu o número de pessoas a fazer espetáculos a solo, mas chegou a uma instância em que vai haver oscilações de popularidade de pessoas. Lembrei-me agora de um tweet do Manuel Cardoso, com que me ‘esbardalhei’ a rir, em que diz que os comediantes de stand-up dizem, desde 2003, que há um circuito nacional. Portugal é um mercado pequeníssimo. Nunca vai haver um circuito como há nos Estados Unidos, ou em países anglosaxónicos, nem no Brasil. Aquilo que temos de fazer é crescer as redes sociais. Nos Roda Bota Fora apostámos no Youtube. Quando as pessoas do nosso meio se mentalizarem disso, será melhor para elas.

Qual achas é que será a melhor arma para combater essas oscilações que referes?

DC: Não faço ideia. Eu tento focar-me em ser melhor no que faço, porque quero acreditar que, quem for bom, prevalece.

Para terminar, acham que o humor é uma arma útil para falar sobre assuntos fraturantes da sociedade, como aborto ou eutanásia?

PS: Eu acho que pode ser, mas não deve ser.

Pergunto isto para saber mesmo a vossa opinião sobre este assunto.

DC: Insiste-se em perguntar isso aos humoristas, porque criou-se a sensação que nós temos de ser uns ‘gurus da moralidade’. Não temos de ser p**** nenhuma. Ninguém pergunta à Beyoncé se a música dela pode ter mensagem. Há espaço para haver um Zeca Afonso e uma cantora desse género. Eles estão a fazer música. Não entendo porque perguntam isso aos humoristas, sinceramente.

É mais por uma questão de visibilidade…

DC: Então e os atores, os músicos e os políticos? Não têm visibilidade? Nós somos comediantes. O nosso objetivo é fazer rir. No meu último espetáculo falei de alterações climáticas, mas isso não implica que tenha de ‘despertar consciências’. Quando os humoristas priorizam isso a fazer piadas, quase sempre acabam a não ter piada nenhuma, e é algo curioso.

PS: Não acho particular graça quando um espetáculo de comédia tem uma agenda por detrás.

DC: Mas das cenas que mais adoro é quando um tipo me faz rir sobre um assunto do qual discordo totalmente.

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