Tokyo Museum Co-vid 19
Fotografia: Lucrezia Carnelos (via Unsplash)

COVID-19: Como está o novo coronavírus a afetar a cultura?

China, Coreia do Sul, Itália e França – quatro grandes focos da propagação do COVID-19, o novo coronavírus que desde dezembro tem gerado o pânico a nível mundial.

Independentemente da forma como as nações têm lidado com o vírus, a queda do lucro económico é já uma evidência. Para as grandes cidades europeias, o turismo já não é uma fonte segura e, durante as próximas semanas, o panorama manter-se-á assim.

A tendência do online tem sido reforçada pelos consumidores, não se verificando apenas em compras banais (ou luxuosas, como é o caso das compras online milionárias na Farfetch, que alguns conectam ao vírus), mas também na preferência pelas plataformas de streaming como forma de consumo de entretenimento.

Os concertos dão-se a medo. Os eventos são adiados. Em ambos os cenários, estão consideravelmente vazios, quando deveriam ser espetáculos esgotados. E, embora pareçam problemas menores em comparação com os perigos de saúde pública que o vírus apresenta, o impacto cultural da sua propagação não pode ser negado e afeta produtores, em primeiro plano, e consumidores, em segundo.

Na China

O coronavírus ameaçava os primeiros milhares de habitantes chineses, em Wuhan. Coincidiu com a época do Ano Novo Chinês, que viu as festividades canceladas na província afetada.

China, 2020, COVID-19
Os festejos do Ano Novo Chinês foram, gradualmente, cancelados em toda a China.

Coincide também com esta época a estreia de vários filmes, que o público espera entusiasmado. O entusiasmo este ano não pôde ser sentido, e a maioria das estreias foram canceladas ou adiadas por tempo indeterminado.

Depois de estreias canceladas, fecharam-se as salas de cinema, a ordem do Governo. Os produtores optaram por estreias online: primeiro com a estreia gratuita de Lost in Russia (Huanxi), e depois com Enter the Fat Dragon.

A produção e a distribuição cinematográficas chinesas pararam, enfraquecidas depois de serem uma promessa enquanto rivais de Hollywood. O lucro esperado com a chegada do Novo Ano Lunar foi deitado ao ar, impossível de respirar, agora não pela poluição, mas por um vírus facilmente propagado.

E então fecharam-se os museus, as atrações turísticas, o acesso a uma parte do Muro da China até. No final de janeiro, a Disneyland encerrou preventivamente os seus parques temáticos em Shanghai e em Hong Kong.

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Na ordem do dia está o live-action de Mulan, produzido pela Disney, que se previa estrear a 27 de março. A sua estreia na China é, agora, indefinida – ironicamente, visto que todo o filme se centra no mesmo país.

Além da Disney, já outros estúdios em Hollywood deram sinal de alerta relativamente à propagação do vírus, cada vez mais global, como a Netflix, a Paramount, a Sony, a Universal e a Warner Bros. A Motion Picture Association, composta por todos estes nomes, e a SAG-AFTRA, associação representante de atores, assumem preocupação pelos seus trabalhadores, que se encontram um pouco por todo o globo.

Jojo Rabbit e 1917 também demorarão a chegar aos cinemas chineses. E o novo filme de James Bond, No Time To Die, está preso fora das fronteiras do país asiático – com os fãs de todo o mundo a pedir o adiamento da estreia por causa da propagação do vírus.

Na Coreia do Sul

A meio de fevereiro, eram menos de 30 os casos confirmados do COVID-19 na Coreia do Sul, mas ainda não acabara o mês e já se ultrapassava os 1000 infetados. O país, só separado da China pela Coreia do Norte (que, como habitual, tem estado bastante silenciosa), tornou-se no segundo maior foco do novo coronavírus, apenas em cerca de 15 dias, seguindo-se-lhe Itália com recordes da última semana.

Coronavírus
No cartaz, lê-se “Salvem Daegu”. Daegu é o epicentro da propagação do vírus na Coreia do Sul. (Lee Moo-ryul/Newsis/AP)

Comentários à eficácia do sistema de saúde sul-coreano à parte, que tem dado o seu melhor na resposta aos casos suspeitos, aos infetados e, também, àqueles que temem o vírus, a preocupação no entretenimento centra-se naquilo que é mais popular e que incorpora esta palavra no seu nome: o k-pop.

Os grupos musicais já se encontram a cancelar concertos e eventos relacionados. É o caso dos BTS, já internacionalmente reconhecidos, que já não vão atuar em Seoul em abril, ou dos GOT7, dos WINNER e das (G)I-DLE, cujas tours foram suspensas. Os primeiros apelaram aos fãs, numa chamada de vídeo, que cuidem da sua saúde, salientando que as suas frequentes mensagens de amor próprio, passadas através das músicas, ultimamente “só são possíveis quando somos saudáveis“.

O setor de entretenimento coreano, uma das indústrias mais saudáveis do país, a par com as indústrias tecnológicas pelas quais os bem conhecemos, sofreu quedas de lucros inexpectáveis:

O lucro nas bilheterias caiu cerca de 40% no primeiro mês de 2020, em comparação com 2019, o que não seria a tendência em circunstâncias naturais, visto que o cinema sul-coreano foi condecorado de forma inagualável nas devidas cerimónias do início deste ano.

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Em Itália

COVID-19, Itália
Catedral de Milão, ou Duomo di Milano. (Reuters)

Um dos principais focos de propagação do novo coronavírus, já apelidado por alguns como o “laboratório europeu do coronavírus”, está em Itália. E começou no norte do país, em Veneza.

Já não podemos dar um passeio de gôndola ou visitar a Basilica di San Marco, pelo menos não nas próximas semanas. E o impacto não fica pelo decréscimo do turismo, principalmente preocupante na economia italiana, mas estende-se para as produções cinematográficas que tiveram que desligar as câmaras e arrumar os cenários.

É o caso de Missão Impossível 7, com o rosto familiar de Tom Cruise, que suspendeu a sua produção em Veneza, devido ao esforço do governo local por evitar que multidões se juntem em público, e zelando pelo bem-estar da equipa e do elenco do filme. As filmagens decorreriam, durante três semanas, em Veneza, e eram parte essencial da produção extensiva do sétimo filme do franchise.

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A própria indústria cinematográfica italiana tem visto o seu lucro decrescer gradualmente. Mais de metade do país tem, agora, as salas de cinema fechadas, e o lucro de bilheteira caiu cerca de 75% em comparação com 2019. Num fim de semana de fevereiro do ano anterior, o lucro ficava acima dos 10 milhões de euros, enquanto que nos últimos dois fins de semana as bilheteiras arrecadaram apenas entre 2 e 5 milhões de euros.

Dario Franceschini, o Ministro da Cultura italiano, declarou um estado de emergência e reuniu, na semana passada, com os representantes da indústria cinematográfica italiana, propondo monitorizar os locais mais críticos, assim se permitindo identificar quais as áreas em que é seguro reabrir as salas de cinema.

À semelhança do que se passou um mês antes na China, em Itália são canceladas estreias de filmes internacionais. É o caso da escolha da Universal, que já adiou a estreia de O Homem Invisível, com Elisabeth Moss como protagonista.

Perto de Itália, também a 22.ª edição do Festival de Documentário de Salónica, na Grécia, foi adiada. No campo da literatura, foi adiada a Feira do Livro Infantil de Bolonha, seguindo-se vários cancelamentos devido ao coronavírus em países vizinhos. A Feira do Livro de Leipzig, na Alemanha foi cancelada, tal como o Salão do Livro de Paris, em França.

Em França

Festival de Cannes. É um grande amigo dos cinéfilos mais dedicados, e este ano essa amizade está ameaçada por um terceiro, que não vale a pena voltar a nomear. A chegada do COVID-19 a França e a confirmação de um caso positivo em Nice, relativamente perto de Cannes, poderá levar a um adiamento imprevisto do festival de cinema que, originalmente, deveria acontecer em maio.

À possibilidade do crescimento de casos confirmados em França junta-se o facto de o Festival de Cannes atrair produções de todo o mundo, das quais a ausência provocaria uma enorme perda de qualidade.

Entretanto, a organização do Festival acalmou os ânimos: “Ainda é prematuro assumir algo sobre um evento marcado para daqui a dois meses e meio”, foi o garantido pelo porta-voz do festival, que proferiu ainda que “no tempo preciso e dependendo das circunstâncias, o Festival de Cannes irá, naturalmente, tomar as medidas necessárias, atendendo à proteção de todos os participantes e preservando a sua saúde durante o evento“.

O cinema francês luta, por enquanto, batalhas mais sérias que o COVID-19, com a polémica do César atribuído a Roman Polanski que, além de realizador (neste caso, da produção J’Accuse), é também um agressor sexual, já condenado por pedofilia. A polémica reacendeu várias chamas: por um lado, questiona-se se a arte poderá ser separada do artista; por outro lado, relembra-se o movimento #MeToo. Destaca-se a atitude da atriz Adèle Haenel, uma vítima de outro realizador, que abandonou a cerimónia gritando “Bravo à pedofilia!” após a premiação.

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