All the Bright Places é adaptado ao cinema pela Netflix
Fala-me de Um Dia Perfeito (Netflix/DR)

Crítica. A imperfeição de ‘Fala-me de um Dia Perfeito’

O novo filme Fala-me de um Dia Perfeito estreou dia 28 de fevereiro na Netflix. Com Elle Fanning e Justice Smith nos principais papéis, é uma história de amor entre dois jovens que lutam com problemas de saúde mental, baseado no livro homónimo. Um drama que cai no trágico, perdendo a chance de ser mais do que aquilo que é.

Violet (Fanning) e Theodore (Smith) são colegas de turma, mas não se conhecem. Uma madrugada, enquanto corre, Theo encontra Violet no parapeito de uma ponte, e salva-a. De luto pela morte da irmã, Violet é uma jovem afastada dos amigos e da vida social. Theodore sofre em silêncio, com uma mãe ausente e colegas que o acham estranho e perigoso. Após o incidente, Theo tenta aproximar-se de Violet, procurando trazê-la de volta à vida… mas sem nunca contar como, ao mesmo tempo, está a sofrer.

Fala-me de um dia perfeito ou All the bright places da Netflix
Elle Fanning e Justice Smith são Violet e Theo. (Divulgação/Netflix)

Dois grandes protagonistas

Elle Fanning e Justice Smith protagonizam e destacam-se neste filme, que adapta o romance de Jennifer Niven, que é co-autora do argumento da película (do qual Fanning é também produtora). A intenção do filme é clara: chamar a atenção para os problemas de saúde mental e o seu impacto na vida dos jovens. No entanto, o coração da história está no casal que a protagoniza, Violet e Theo.

Apesar de ser um filme sóbrio, por vezes sombrio, a verdade é que certos momentos com eles revestem-se da felicidade dos dias perfeitos que dão título ao filme. E o tom é muito importante em Fala-me de Um Dia Perfeito, que (deve e) foge da leveza e do romantismo e nos atira constantemente para a instabilidade emocional das personagens principais. Isto é alcançado pela realização, pelas cores e iluminação (o oposto de uma comédia romântica jovem como outro filme da Netflix, A Todos os Rapazes Que Amei), mas também pelos atores, dedicados em trazer vida e realidade a personagens que, quando existiam apenas nas páginas de um livro, foram muitas vezes criticadas por serem a corporização de problemas mentais, simples ilustrações daquilo que se queria retratar.

All the Bright Places de Jennifer Niven deu origem ao filme Fala-me de um dia perfeito
O livro que inspirou o filme, de Jennifer Niven. Imagem: Goodreads

Há vida para lá da doença

Por todo o mundo, muitos são os jovens (e adultos) que sofrem com doenças ou problemas de saúde mental, que requerem a atenção médica indicada e específica como qualquer outro problema de saúde. A intenção é respeitável, mas talvez como 13 Reasons Why, Fala-me de Um Dia Perfeito falha na concretização de uma mensagem que seja esperançosa em vez de catastrófica, que mostre a resolução dos problemas que quer apontar em vez de mais uma versão da história – já tantas vezes vista no ecrã e na vida real – do que acontece quando tudo falha.

Para evitar spoilers, basta dizer que tudo neste filme resulta até deixar de o fazer, até martirizar mais um jovem e torná-lo numa mensagem bonita e numa lição para as outras personagens, em vez de a salvar e, assim, mostrar como outros podem ser salvos. E o que irrita são as escolhas feitas pelo caminho que levam até isso, as personagens cujos comportamentos não evoluem, os pais que não estão presentes, os adolescentes que inexplicavelmente não sabem o que é um psicólogo, uma terapia, o esticar de uma mão amiga em vez de ignorar, aceitar, e um constante “deixar andar” da situação que, por muito realista que seja, não é o que é preciso mostrar num filme cujo intuito é passar a mensagem de que uma maior compreensão dos problemas de saúde mental salvará vidas.

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No final, o que fica é um sabor amargo na boca, uma tristeza que tem um propósito, mas que podia ser muito mais. Podia ser uma história para a qual poderíamos apontar para ilustrar o que fazer, como agir, como salvar alguém naquela situação. Porém, acaba por ser mais um trágico drama romântico adolescente, rapidamente esquecido, lembrado apenas pela tristeza infligida e no desserviço que faz a quem procura representação e uma história em que tenha o final feliz que lhe é merecido.

6.5
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