Love is Blind
Fotografia: Netflix / Divulgação

‘Love is Blind’. Um retrato do desespero por encontrar o amor

Love is Blind, um reality-show da Netflix que se baseia na premissa de que o amor é cego, chegou ao fim esta quinta-feira (27). Deixou-nos colados ao ecrã durante dez episódios, e o final foi realista, tal como precisávamos.

Tudo começa numa casa que inclui dois espaços: um destinado às mulheres, e outro destinado aos homens. Todos os participantes estão à procura do amor – na forma de uma relação heterossexual – e esperam sair do programa casados.

Os participantes conhecem-se através de “cápsulas”. Aqui, têm encontros a dois, onde podem ouvir a voz um do outro, sempre sem verem com quem conversam. Parte-se do pressuposto que conhecendo a verdadeira personalidade de alguém, sem conhecer o seu aspeto físico, será mais fácil estabelecer uma relação emocional e encontrar o amor.

Depois destes encontros, podem escolher pedir em casamento uma das pessoas que conheceram. Segue-se a vida no mundo real, após uma breve ida a um destino paradisíaco, onde depois podem conhecer as famílias um do outro e perceber se querem realmente continuar juntos.

Uma premissa condenada

Tal como muitos outros programas do género, Love is Blind impõe a ideia de que o casamento é a maior ambição das mulheres na nossa sociedade. Não só das mulheres, porque há vários homens à procura de se casarem no programa, mas especialmente das mulheres.

Love is Blind afirma-se como uma experiência social, mas não passa de um programa de entretenimento que, como muitos outros, sabe à partida que a sua premissa está condenada. A maioria dos pares acaba por não se casar, deixando-nos com a certeza de que o amor não é cego, nem capaz de acontecer a todos os participantes de reality-shows.

Apesar de se “apaixonarem” sem se conhecerem, os casais rapidamente são confrontados com o “mundo real”, onde o dinheiro, a classe social e as aparências, afinal, importam.

Alguns casais teriam resultado se a relação continuasse cega, dentro da casa luxuosa criada num estúdio de televisão, ou até passando à fase seguinte, mas nunca ultrapassando a estadia num resort de cinco estrelas.

Encontrar o amor ou fabricar o amor?

Love is Blind pegou na chamada fase de lua-de-mel, moldou-a televisivamente, e impô-la sobre indivíduos desesperados por afeto. Depois, tirou-lhes novamente as rédeas, obrigando-os a enfrentar familiares e amigos de alguém que conheciam há menos de um mês. Fê-los planear um casamento e decidir o seu futuro sem tempo ou espaço para pensar.

Como pode alguém encontrar o amor quando é apenas uma marioneta num programa de televisão? E por que razão querem estas pessoas sujeitar-se a isto? A uma forma tão artificial e planeada de encontrarem “o tal”? O casamento não é uma brincadeira, nem um conto de fadas. Não é algo a que devemos aspirar por si só e é uma decisão marcante na vida das pessoas.

Talvez usemos demasiado o casamento como tema para entretenimento. Mas os programas que mais nos entretêm devem ser aqueles sobre os quais mais refletimos. E pergunto-me: por que razão me diverti tanto a ver Love is Blind? Por que razão desatei a rir às gargalhadas, ou fiquei emocionada nos primeiros episódios?

O programa está bem construído, bem editado. A música triste chega nos momentos certos. Mas eu sei que representa estereótipos ultrapassados e até duvidosos. Sei também que não é tudo genuíno, que é um embuste, que o seu objetivo é mesmo eu rir e chorar, neste e naquele momento.

Mas não consigo impedir as minhas emoções. Não consigo não gostar de ver Love is Blind, tal como não consigo deixar de gostar de ver Casados à Primeira Vista a cada nova temporada, mesmo sabendo que nunca nenhum casal irá resultar.

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Há qualquer coisa dentro de mim que quer descobrir esta nova “experiência social”, qualquer coisa que me coloca nos pés dos participantes. Só no último episódio se tornou tão claro como foi tudo banal. As minhas expectativas românticas voltaram à realidade, enquanto aqueles homens e mulheres explicavam as suas razões para irem ou não avante com o casamento.

No final, a série mostra-nos pessoas reais, desesperadas por encontrar o amor, com todas as suas falhas. Mostra-nos o mais comum do quotidiano e acaba por não nos acrescentar nada de bom, nada de novo, nem nada de diferente. É mais do mesmo, numa embalagem mais moderna e disponibilizada em streaming. Além disso, para um programa que se mostra tão moderno, é superficial e falta-lhe diversidade – ainda que o melhor casal da série seja interracial.

Love is Blind acaba por ser mais um reality-show como tantos outros, irremediavelmente ridículo, mas igualmente divertido. Se, além disso, o conseguirmos ver com uma lente crítica, para nos questionarmos sobre nós próprios, sobre a nossa sociedade e sobre o casamento, vale a pena espreitar o novo fenómeno internacional da Netflix.

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