Jessica Athayde
Fotografia: EF

Opinião. Porque é que na TV continuam a convidar mulheres só para enfeitar?

Num país onde a questão de género, esse tão grande monstro social, é cada vez menos um assunto tabu, a mais recente estreia de um simples programa familiar de domingo à noite é, de novo, um espaço seguro para que velhos e chatos estereótipos sejam normalizados. Não estás a perceber? Eu explico.

Estreou no passado domingo (15) mais uma edição do Dança com as Estrelas, na TVI. Com oito novos concorrentes, o regresso do mítico formato ficou marcado por novidades no que ao painel de jurados diz respeito. Estamos a falar de um clássico, de um regresso e de uma estreia, ou seja, de Cifrão, Sr. Alberto e Jessica Athayde.

Esta última, cara inconfundível do pequeno ecrã, foi alvo de inúmeras críticas pelo critério, ou falta dele, com que avaliou os candidatos. A atriz atribuiu a pontuação máxima a algumas atuações, em total discordância com os colegas de mesa. Mas não é aqui que a sua prestação me choca.

Choca-me sim que, mais uma vez, o estereótipo da carinha laroca que não percebe patavina do assunto seja convidada a avaliar uma arte que não compreende, ou que pelo menos não domina, de todo. Poderão dizer-me que o seu papel não é esse, que lhe compete avaliar o sempre invocado “sentimento” deixado em palco. Pois bem, então compete-me a mim dizer que já perdi a conta à quantidade de programas e concursos televisivos em que a Mulher serve única e exclusivamente para dizer que uma atuação foi completamente “emocionante”, “linda”, “maravilhosa”, talvez até “ar-re-ba-ta-do-ra”.

A paridade de géneros como júri na TV é pouca. A situação está, contudo, numa feliz mudança e vejamos os casos do The Voice e do Got Talent como bons exemplos. Não defendo de todo que deva existir um qualquer regime de 50/50, porque sempre fui adepto da meritocracia e não de escolher uma mulher apenas e só porque é mulher. Mas não posso fechar os olhos quando, sendo o sexo feminino menos presente nestes formatos, a Mulher seja constantemente um mero acessório no meio da experiência e sabedoria.

Falo de Jessica Athayde como poderia falar de Alexandra Lencastre em qualquer programa ou ainda de Maria João Bastos no Ídolos. Não me interpretem mal, reconheço talento em todas elas e não tenho a mais ínfima dúvida de que são grandes profissionais nas suas áreas. Mas por favor, porque não escolher alguém que realmente saiba do que está a falar?

Será que o nosso país, todo ele repleto de talento – por tantas vezes o ouvimos dizer – não tem uma única bailarina conceituada? Uma que seja? Seria mesmo necessário escolher uma atriz que claramente não tem sequer as bases para contextualizar as suas opiniões? Vamos lá TVI, vocês conseguem melhor. Basta querer. Ou neste caso, saber fazer!

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Dino d'Santiago
Já podes ouvir o novo disco de Dino d’Santiago