Capitão Fausto
Fotografia: Sofia Rodrigues / Comunidade Cultura e Arte

Entrevista. Capitão Fausto acreditam que música terá “maior expressividade” no concerto com orquestra

Alvalade chama pelos Capitão Fausto. Depois de um fim-de-semana de trabalho a tocar em Torres Vedras e Oliveira de Azeméis, é aí, na casa da banda e no quartel-general da editora Cuca Monga, que encontramos o quinteto novamente a trabalhar. Tomás Wallenstein, Francisco Ferreira, Domingos Coimbra, Manuel Palha e Salvador Seabra, acompanhados pelo maestro Martim Sousa Tavares, ultimam alguns detalhes dos arranjos orquestrais que vão acompanhar a música do grupo no concerto no Campo Pequeno do próximo dia 7 de março.

Somos recebidos por Domingos Coimbra de forma muito cortês, que rapidamente se dispõe a fazer uma tour pelas instalações e a mostrar as mais recentes “construções da Leroy Merlin” que magicaram para insonorizar a sala. Mas a ‘Marcha Turca’ ouve-se a bom som enquanto Tomás Wallenstein e Domingos Coimbra lutam pela dominância das teclas antes da pose para a fotografia. Não é claro qual deles está a tocar, mas a simbiose entre a banda é tanta que se torna irrelevante a origem.

Com seis amigos a conversa flui naturalmente. A banda fala de forma relaxada e no discurso do maestro há um rigor descontraído, talvez só reservado para esse seleto grupo de pessoas que são amigos e que se preparam para partilhar um palco. Num clima ameno, a Comunidade Cultura e Arte sentou-se com os Capitão Fausto e o maestro Martim Sousa Tavares para discutir a vontade de tocar com uma orquestra, amizades antigas e ainda vivas, e o que podemos esperar do seu concerto no Campo Pequeno, com algumas surpresas sobre a lista de músicas pelo meio. A guitarra empunhada pelo baterista Salvador Seabra ouviu-se durante grande parte da entrevista. É imperativo que a música nunca esteja longe destes rapazes.

De onde surgiu a vontade de tocar com uma orquestra? 

Manuel Palha: Desde que começámos a fazer discos, fomos gradualmente tendo a vontade de ter mais timbres do que aqueles que conseguíamos atingir pelas nossas próprias mãos, e começámos a escrever algumas coisas para instrumentos que não os nossos. Gostámos da ideia e não deixámos de o fazer, e [tocar com uma orquestra] é a epítome dessa experimentação, de repente poder ter uma cor completamente diferente a acompanhar-nos, as mesmas músicas mas com a cor que só uma orquestra consegue dar.

Tomás Wallenstein: A orquestra é o expoente máximo do conjunto de músicos. Acho que para um músico deve ser natural ambicionar ouvir a sua própria música numa orquestra, com uma maior quantidade de paletes de cores diferentes e maior expressividade. É uma vontade que nós já trazíamos de algum tempo. Consciente ou inconscientemente, já todos tínhamos pensado e discutido esta ideia várias vezes.

MP: E inclusivamente com o Martim já desde há muitos anos que tínhamos roçado levemente no assunto, “Um dia vamos ter de fazer alguma coisa”.

Porquê a Orquestra Filarmonia das Beiras?

TW: No fundo são das únicas orquestras que, na sua unidade, são bastante ecléticas e fazem programas de música clássica e este tipo de concertos também. E nós primeiro decidimos que queríamos fazer um concerto com orquestra, depois decidimos que queríamos fazê-lo com o Martim, e depois acabou por vir à baila a Orquestra das Beiras. E por eles serem bons e serem já uma orquestra constituída acabou por ser o melhor, o mais seguro e o mais interessante.

Martim, já trabalhaste com esta orquestra antes? 

MST: Já, foi a primeira orquestra portuguesa que eu dirigi. 2014 ou 2015, Stravinsky, César Franck, já não me lembro… Mas foi programa clássico, em Aveiro que é onde eles têm a sede.

Tens experiência em adaptar músicas deste universo mais pop?

MST: A única coisa que fiz parecida com isto foi um concerto que dirigi com uma orquestra em Itália e que fiz alguns arranjos. Tinha algumas coisas de Michael Jackson, Frank Sinatra e depois repertório de cinema, tipo Nino Rota dos filmes do Fellini. Normalmente não toco este repertório, mas o exercício de escrever para orquestra já fiz muitas vezes. Foram cinco anos a estudar orquestração e com vários tipos de repertório, portanto é uma coisa que eu me sinto muito à vontade, é uma coisa que é funcional.

Fotografia de Sofia Rodrigues / CCA

Acho que a Invenção do Dia Claro é o vosso álbum mais coeso em todos os sentidos. Quererem acrescentar uma orquestra ao vivo é um reflexo dessa coesão musical que este último álbum mostra?

TW: A vontade não é fruto disso mas o momento se calhar é. Chegámos a uma altura do nosso percurso em que nos sentimos capazes de embarcar nesta aventura. Quando fizemos o Coliseu [dos Recreios] em 2016 foi um primeiro passo para um gesto destes, tínhamos um pequeno ensemble a tocar connosco. Depois do trabalho que fizemos neste disco e depois de termos tido muita experiência com ele a tocar ao vivo sentimo-nos prontos para isso.

Domingos Coimbra: Eu acho que é também um concerto de duplo sentido. Nós gostamos do lado de desafio, de nos pôrmos à prova e de sairmos um bocado da nossa zona de conforto. Mas também gostamos de proporcionar às pessoas que têm vindo a acompanhar a nossa carreira um concerto que seja marcado por outras circunstâncias e assumidamente diferente, uma celebração. Tenho a certeza que muitas das pessoas que vão ao Campo Pequeno já nos viram antes, é um concerto que vai agradar não só pessoas novas que de repente possam querer ouvir-nos mas também quem tem vindo a acompanhar a nossa carreira. E ao mesmo tempo estamos a desafiar a forma como olhamos para as nossas canções e a colocá-las noutro sítio.

MP: É um auto-presente que dá jeito lá para casa [risos]

TW: É um presente aos fãs que na verdade nos dá muito jeito a nós!

Então já têm os arranjos todos feitos?

TW: Praticamente tudo.

Não podem revelar algumas das músicas?

MP: Não, o que podemos dizer é que não vai ser uma coisa estática, vai haver um certo dinamismo, uma dança simbiótica.

Francisco Ferreira: Vamos dançar através da discografia toda.

Como é que tem sido trabalhar com o Martim?

MST: Nós já nos conhecemos há muitos anos.

DC: Nós éramos amigos do liceu e agora somos amigos de vida.

MST: Falta-nos só a Carolina Deslandes para fechar o grupo, porque isto era um liceu que deu esta gente toda e a Carolina Deslandes, que era da minha turma.

DC: Éramos um pequeno grupo de amigos que volta e meia trocava ideias. No caso do Martim, nós partilhávamos o gosto por Frank Zappa, ele era o grande defensor de Frank Zappa.

MST: Eu era o arquivista da primeira banda deles. Eu filmava-os e fotografava-os, há muitos anos.

DC:  E cada um seguiu pelo seu caminho.

TW: Mas naquele liceu não havia muita gente que ouvisse música e que tivesse muita curiosidade, e portanto quem tinha esse gosto acabava por se encontrar.

MST: Eu cheguei a ir filmar o concerto da banda do Tomás, dos Sound Mongers, porque já fazia os meus gigs com os IC-19 e fui filmar-vos a vocês também. Este projecto tem raízes curiosas.

Salvador Seabra: Podemos dizer está a correr muito bem, nós, Faustos, estamos muito contentes. Isto é uma coisa que está a ser feita num espaço de tempo tão curto que podia de facto não correr bem, podíamos não gostar das coisas que o Martim nos enviava, e isso era uma chatice [risos]. Mas felizmente tem sido um casamento feliz, e isso deixa-nos muito descansados.

MST: Eles queriam muita a harpa, e estou-lhes a tentar dar quantidade suficiente de harpa.

DC: O nosso grupo de Whatsapp chama-se “Quilómetros de Harpa”

MST: Está tudo péssimo e eles vêem glissandi de harpa e ficam “Ok!” [risos]

DC: Eu estou a sentir que a nossa música vai chegar a uns sítios onde nunca esteve. Só ouvir neste programa que usamos para trocar correspondência – uma coisa toda em midi mal amanhada – já traz um sorriso.

Fotografia de Sofia Rodrigues / CCA

Existem algumas para as quais foi mais difícil fazer os arranjos?

TW: Houve umas que nós escolhemos não arranjar sequer, decidimos que elas viviam mais da sua essência e existe ali um pequeno momento do concerto em que são tocadas sozinhas, mas isso será a excepção.

SS: E no fundo acho que o Martim saberá isso melhor do que ninguém, se teve mais dificuldade.

MST: A “Santa Ana”, que eu achava que ia ser mais difícil, na verdade foi a mais fácil. Porque aquilo é tão forte, é tão rápido, tem um ritmo muito característico, foi a que demorei menos tempo a fazer, é muito straightforward. É o que lá está e acho que vai resultar bem, ninguém vai dizer que está pouco sinfónico. A priori, quando ouvi a música pensei que ia ser interessante, porque é a abrir, e uma pessoa pode pensar que a orquestra é só para as suaves e para as baladas. Não é verdade, dá para fazer tudo.

Fotografia de Sofia Rodrigues / CCA

Então as que se antecipavam ser mais difíceis acabaram por não ser?

DC: Nós começámos por transcrever as nossas partes, que nós os cinco fazemos, para pauta e enviámos para o Martim e demos liberdade para o Martim arranjar.

TW: Na parte que existe de troca entre o que nós enviamos e o que o Martim nos envia, houve alguns momentos em que reajustámos ou vice-versa. Mas regra geral foi tudo muito simples e muito directo.

Houve algum método para escolher as músicas?

FF: Passou um bocado pela nossa imaginação. Antes de enviarmos a lista de músicas que queríamos que o Martim arranjasse, começámos a olhar para elas e a pensar nas que temos tocado ultimamente e umas que já não tocamos há muito tempo. E depois começámos a imaginar “esta se calhar era mesmo fixe” ou “esta se calhar não tem assim tanta graça”, músicas que podem não ser assim tão férteis para a orquestra fazer crescer tudo. E nós à partida cortámos essas pela raíz, um pouco por gosto e um pouco porque se calhar músicas desse género podiam já viver muito bem sozinhas.

DC: Não havia aquela intenção de ir meramente tocar com uma orquestra, ponto final, atira para lá canções. Houve um processo mais delicado e de perceber à partida o que é que tem esse potencial e o que é que não tem.

TW: Foi uma mistura de tudo. Daquelas que nós gostamos de tocar, daquelas que nós sentimos que resultam bem nos concertos e daquelas que iriam ficar bem, na nossa imaginação, aliadas à orquestra.

MST: Há algumas [músicas ] que vocês têm que para mim são uma espécie de um dilema. Por exemplo, uma música que tem um instrumental com flauta e trompete e em que posso fazer flauta e trompete que seria o lógico, ou então pensar se seria interessante dar esses solos.

Na “Semana em Semana” vocês têm tocado ao vivo aquele solo final de sopro na guitarra, é outro instrumento e também resulta. 

TW: E aqui vai voltar para o trompete, não é? Trompete com trompa.

MST: É aquele longo que cortámos uma parte da trompa e ficou só [entoa melodia do instrumento].

Fotografia de Sofia Rodrigues / CCA

Já pensam num álbum ao vivo, um Grelhados ao Vivo Vol. 2?

TW: Pelo sim, pelo não, caso seja uma porcaria ou seja bom, vamos pelo menos gravar e arquivar. E depois logo se vê quando é que vamos ao arquivo desenterrar outra vez.

DC: Mais do que gravar, agora estamos preocupados é que [o concerto] seja digno, especial e uma grande festa.

TW: Com toda esta preparação e tudo a correr bem, ainda há coisas a acontecer que podem estragar tudo.

E ainda há a questão dos ensaios, que ainda não começaram.

DC: Há sempre um lado de antever problemas, e é o que nós temos vindo a fazer de algum tempo para cá. Parece que é um bocado pessimista mas é só para ter a certeza que as coisas estão bem preparadas para minimizar as coisas que podem correr mal, e só pensar nas que vão correr bem no dia em que realmente interessa. Desde que começámos a levar cada vez mais a sério e profissionalmente a música que já deixou de ser só sobre música, é de muito mais coisas. No nosso caso, tomamos um bocadinho conta de todas as partes do processo: ao mesmo tempo que isto está a acontecer estamos a tratar de lançamentos da Cuca Monga. Há dias em que é chegar aqui às nove da manhã e sair à meia-noite. Mas é a vida que escolhemos.

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Artigo de Miguel de Almeida Santos, originalmente publicado na Comunidade Cultura e Arte.

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