Sónia Véstias Fotografia

Reportagem. Festival Micro Clima: Um pequeno tesouro na Marginal

A terceira edição do festival Micro Clima aconteceu nos dias 14 e 15 de fevereiro na SMUP, na Parede. O Espalha-Factos acompanhou, de perto, a organização e o ambiente do festival.

Em pleno dia de São Valentim, a equipa do Espalha-Factos chega ao número 319 da Rua Marquês de Pombal na Parede. O ambiente que constatamos é de alguma algazarra, que seria de esperar de um festival. Vários elementos da equipa do Festival Micro Clima acertam os últimos preparativos para oficialmente arrancar a sua terceira edição.

Passamos o portão do exterior e vislumbramos, do lado esquerdo, junto da bilheteira, o cartaz do festival, o mesmo que se encontra nas redes sociais, mas com uma diferença: tem um recorte de papel a informar que a lotação do espaço está esgotada. Um sinal claro que existe público fiel ao evento e que faz questão de deslocar-se à Sociedade Musical União Paradense, que é mais conhecido pela abreviatura orelhuda SMUP.

Já dentro do edifício, ainda se ouvem os derradeiros ensaios de som por parte de Luís Severo, o artista responsável por dar início às festividades na sala principal. O nervosismo está presente no ar, mas o entusiasmo de querer que o Micro Clima se inicie por parte das pessoas da organização é superior a qualquer outro tipo de sentimento.

“Celebrar a SMUP”

Daniela Serra, vice-presidente da SMUP e uma das organizadoras do evento, falou com o Espalha-Factos e explica como nasceu o Micro Clima. “Surgiu da vontade de jovens voluntários (…) O núcleo duro é composto por cerca de 15 pessoas mas depois juntam-se mais alguns para ajudarem nos assuntos com necessidades mais práticas. No fundo, o grupo tem uma grande vontade de mostrar que existe ‘vida’ neste espaço e este festival pode servir como porta de entrada para que pessoas da zona de Lisboa possam vir e conhecê-lo”, refere.

O cartaz da terceira edição inclui nomes como Bonga, Sensible Soccers, Luís Severo, Cave Story, ou seja, o alinhamento contém um balanço de artistas emergentes mas também de veteranos. Sobre isso, a vice-presidente esclarece que a “programação rica e diversa” tem sido o mote do festival e é algo que deve manter-se em edições futuras.

Daniela Serra, vice presidente da SMUP
Daniela Serra, vice presidente da SMUP (Sónia Véstias Fotografia)

O rapper Allen Halloween era presença confirmada, mas, por motivos religiosos, cancelou a sua participação e também a sua carreira na música. “Foi algo muito inesperado. Na verdade, nós [organização] não soubemos de forma tão oficial e por isso foi algo muito estranho. Felizmente tínhamos o Bonga na lista e pensámos: ‘agora vamos voar mais alto’. Foi um grande esforço para nós, tanto a nível de cachê e de tudo mais. Era um artista que já queríamos cá desde o início e, felizmente, concretizou-se.”

Sobre a eventual quarta edição, Daniela Serra acredita que tem condições para avançar. “Tudo indica que sim! Isto dá muito trabalho [risos] mas ficamos super felizes. Aliás o facto de estar a acontecer uma terceira edição, deve-se a isso mesmo. Estar tanta gente na SMUP, um local centenário, a curtir e a criar memórias felizes, acho que isso é um fator determinante. Também estamos dispostos a melhorar as nossas condições como, por exemplo, ter bilhetes disponíveis online. Foi algo que queríamos este ano, mas não foi possível concretizar“, assegura.

Primeiro dia de “Corações ao alto”

Apesar do atraso nos horários dos concertos, Luís Severo foi o primeiro a abrir o palco da SMUP. Entre o piano e a guitarra, o jovem cantautor provou que é um dos novos artistas com um repertório de canções rico. Mal os primeiros acordes de guitarra soaram pelas paredes da SMUP, o público apressou-se a entrar na sala principal.

Um concerto muito celebrado que deambulou entre temas do disco O Sol Voltou e o homónimo. Viam-se muitos casais de namorados na plateia que, durante as canções, faziam provas de amor. Luís Severo foi o responsável de “pintar um clima”.

A SMUP estava já bem composta de público que circulava entre três áreas possíveis. A esplanada com acesso à sala principal, o hall de entrada e o bar no primeiro andar. Durante os concertos, o público. O civismo e o bem estar imperaram nestes locais. A lotação, apesar de esgotada, não criava sensações de excessiva multidão. Há espaço para todos os tipos de público: os que vibram com os concertos nas filas de frente ou aqueles que estão mais atrás e querem simplesmente “saborear” a música de uma diferente forma.

Seguiu-se o quarteto Alek Rein, que estreou uma nova formação no Micro Clima. As sonoridades folk e algo psicadélicas do disco Mirror Lane fizeram-se ouvir na SMUP. Para além do novos integrantes, o projeto, liderado por Alexandre Rendeiro, apresentou também novos temas de um novo álbum que está por surgir.

A noite encerrou ao som dos sintetizadores dos Sensible Soccers que transformaram a sala numa pista de dança, num concerto em que os ostinatos dominaram a atuação. Uma conjugação perfeita de artistas num dia de celebração de São Valentim.

O alternativo e a festa do Bonga

Segundo dia de festival e os preparativos finais continuam, apesar do cansaço visível da noite anterior. Em termos de restauração, o Micro Clima possui ofertas vegetarianas que foram feitas por elementos da SMUP. No que diz respeito à preservação do meio ambiente, o festival possui copos reutilizáveis. Os mesmos implicam o pagamento de uma caução, que, no final do noite, pode ser reavida.

Já na música, coube aos Cave Story abrir as hostilidades no segundo dia de Micro Clima. Com dois álbuns de estúdio, a banda das Caldas da Rainha proporcionou paisagens musicais constituídas por distorções de guitarras. O som esteve irrepreensível e ouviram-se temas dos discos Punk Academics e West.

Zanibar Aliens, banda da “casa” e com já várias atuações na SMUP, era um dos nomes mais aguardados do festival. Com um álbum novo acabado de sair, o concerto foi focado na apresentação deste novo trabalho, a reação foi boa por parte do público, mas os momentos apoteóticos aconteceram nos temas mais conhecidos.

Uma festa e celebração do hard rock com muito público jovem a cantar em plenos pulmões as letras do grupo. Há libertação de uma energia contagiante tanto do lado dos Zanibar, como do público. Quando o relógio passa pouco depois da meia noite, o baterista, que estava a fazer uma pausa entre músicas, sai do seu lugar para dar um grande abraço ao seu colega baixista. Apercebe-se pouco depois que é o aniversário do mesmo.

“Não sei se é bom sinal ou não, mas temos estado sempre a tocar quando é o aniversário do nosso baixista Ricardo”, atira o guitarrista Filipe Fernandes com um sorriso malandro.

Com 77 anos de vida, o veterano Bonga e a sua banda mostraram que têm genica para animar o serão. Os problemas de som foram evidentes, o que causou incómodo aos músicos, mas a experiência em palco supera qualquer adversidade técnica.

Alternando entre o dikanza e as congas, Bonga evidenciou maestria na sua arte. Canções como ‘Lágrima no canto do olho’ e ‘Mariquinha’ foram, evidentemente os temas mais ovacionados pelo público.

É com um grande clima de festa que termina assim a terceira edição do festival.

Todas as Fotografias são da autoria de Sónia Véstias.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Videoclube do Sr. Joaquim
‘Videoclube do Sr. Joaquim’: um livro com humor, cinema e solidariedade