Festival da Canção

Festival da Canção: as boas canções não vencem sem “fireworks”

O Festival da Canção será sempre um tema sobre o qual todas as pessoas têm opinião. Desde o espetador mais fanático até a quem o assunto não lhe aquece nem arrefece, a verdade é que todos gostam de opinar, pelo menos, acerca da música vencedora.

O certame está intrinsecamente ligado à História do nosso país. Desde a primeira participação de Portugal na Eurovisão até aos dias de hoje, e sobretudo no tempo do Estado Novo, o Festival da Canção serviu como rampa para a crítica ao regime que então vigorava. Provas disso são, por exemplo, os temas ‘A Desfolhada’ e ‘Tourada’. Mais recentemente, ‘A Luta É Alegria’, dos Homens da Luta, em 2011, também serviu para contestar o governo da altura. É pertinente salientar também que é caso único na Europa uma música do concurso ter sido usada para uma revolução, como foi o caso de ‘E Depois do Adeus’, em 1974.

Deste modo, apesar de um pequeno revés do que à qualidade diz respeito, sobretudo desde o início deste século, o Festival da Canção apareceu de cara lavada em 2017. Após sucessivas participações falhadas na Eurovisão, a RTP decidiu parar em 2016 para planear novos moldes para a prova nacional. Tal decisão parece ter sido bastante acertada, já que no ano seguinte Portugal alcançou a tão ansiada vitória que nunca nos tinha sorrido. Salvador Sobral, que nem sequer foi consensual por cá, bateu o recorde de pontos de um vencedor na Eurovisão, ao somar 758 pontos.

Desde essa vitória que os portugueses voltaram a encarar com algum entusiasmo o Festival da Canção. As pessoas voltaram a comentar e a interessar-se pelas músicas apresentadas, havendo as habituais discórdias quanto ao que deveria ser escolhido. E este ano não está a ser diferente.

O novo ano festivaleiro começou a 15 de janeiro, quando a RTP publicou todas as músicas a concurso. Os fãs já começaram a escolher aquela que acham dever ser a nossa representante em Roterdão, cidade holandesa que acolherá a Eurovisão 2020. Na minha opinião, a particularidade dos fãs deste concurso é que, na sua maioria, não conseguem reconhecer o valor de outras canções que não a sua favorita. Isto é: se eu gosto desta música, então tem de ser esta a vencer, e todas as outras não têm qualidade. É assim que os internautas iniciam as suas discussões.

Algumas apostas fortes

Julgo que este ano nos apresenta três ou quatro músicas com qualidade suficiente para nos representar lá fora. Começando por aquela a que atribuo menor favoritismo, menciono aqui a canção ‘Cegueira’, de Dubio feat +351. Penso que terá uma palavra a dizer.

De seguida, eis a música da qual os defensores de que se deveria levar algo com letra inglesa ansiavam: Rebellion’, dos Blasted Mechanism. Desde que me lembro, é a primeira vez que vejo uma música cantada em inglês ter qualidade para almejar uma vitória no Festival da Canção. Tem qualidade de sobra e um refrão que poderá ficar no ouvido dos fãs estrangeiros.

Bárbara Tinoco promete também lutar pela vitória do certame com o seu tema ‘Passe-Partou’, com música e letra de Tiago Nacarato. Uma música com influência francesa e com uma voz melodiosa e ternurenta. A jovem cantora, que ficou conhecida com o tema ‘Antes dela dizer que sim’, tem aqui mais uma prova de toda a sua qualidade como intérprete, podendo demonstrá-la ao país. Apesar das inevitáveis críticas e preferências, uma coisa é certa: a canção tem qualidade.

Por último, o tema que mais me tem cativado: ‘Medo de Sentir’ com letra e música de Marta Carvalho e interpretada por Elisa. A música provoca em mim um sentimento quase indiscritível, pela voz doce e arrebatadora que nos leva ao mais profundo e emotivo pensamento. Apenas com a sua voz e instrumental, a canção consegue catapultar-me para o longínquo, onde medito e retiro ilações, e o meu regresso acontece apenas quando a música se dá por terminada.

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Contudo, e com muita pena minha, o Festival da Canção e a Eurovisão não se fazem apenas de voz e melodia. O aspeto cénico, os dançarinos, as luzes, enfim, os “fireworks” têm também muita influência, e é por isso que não se pode apontar já um candidato a vencer o concurso. Apesar de alguns já conseguirem dizer qual a música perfeita, a verdade é que ainda é cedo para se indicar uma canção destacada entre as restantes, até porque ainda não assistimos às atuações ao vivo, o que por vezes altera de forma substancial a forma como a música é percecionada pelo público. Certo é que o Festival da Canção 2020 será bastante equilibrado, com géneros musicais diversos. E é isso que deve ser celebrado: a música portuguesa.

Este texto é da autoria de Bernardo Oliveira e foi originalmente publicado na Comunidade Cultura e Arte.

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