Tozé Martinho (1947-2020): um marco na ficção nacional

O argumentista e ator, Tozé Martinho, faleceu este domingo (16), em Cascais. O autor foi responsável por grandes sucessos, sendo um dos maiores impulsionadores da ficção nacional. O Espalha-Factos relembra a carreira do argumentista.

O ano era 1982 e Tozé Martinho estreava-se nos ecrãs e, com ele, a primeira novela portuguesa, produzida pela RTP1. Vila Faia vinha com o objetivo de fazer a audiência aderir a um novo produto, o teleromance, para se distanciar daquilo que seriam as telenovelas, que na altura tinham começado a fazer um grande furor na população portuguesa, com Gabriela, O Astro ou Dancin’ Days, três dos maiores sucessos da Globo que passaram por Portugal no final da década de 1970. Com uma grelha assente em telenovelas, a RTP1 apostou em Vila Faia, uma história que viria a marcar a televisão nacional e que trazia Tozé Martinho no papel de Inspetor Silveira.

‘Origens’ foi a segunda telenovela portuguesa.

Menos de um ano depois, o ator aparecia em Origens, na pele de José Dourado, naquela que era a segunda telenovela portuguesa, mas também a primeira telenovela musical realizada pela RTP1. Pouco tempo depois, Tozé Martinho dava novamente o corpo a uma personagem: João Salgado, na telenovela Palavras Cruzadas, assinada pela sua mãe, Tareka. Palavras Cruzadas foi também a primeira produção da produtora do argumentista, Atlântida.

Os anos foram passando e Tozé Martinho nunca deixou de ser presença assídua nos ecrãs da RTP1, participando em produções como Passarelle, Os Homens da Segurança ou Ricardina e Marta. Entrou ainda em Telhados de Vidro – a primeira novela da TVI. Porém, foi em 1996 que Tozé Martinho trocou as voltas à televisão e se lançou para trás das câmaras, assinando a sua primeira telenovela na RTP1: Roseira Brava.

‘Roseira Brava’ foi a primeira novela escrita por Tozé Martinho.

A história contou com grandes nomes da ficção nos papéis principais, como o próprio autor, Rogério Samora, Sílvia Rizzo, Lurdes Norberto e Nuno Homem de Sá, mas nunca teve força suficiente para fazer frente às novelas brasileiras que a SIC exibia desde o início do ano de 1995, quando havia roubado o contrato com a Rede Globo à estação pública e transformando-se, em pouco tempo, na estação líder em Portugal. Apesar de incapaz de superar Explode Coração, Roseira Brava teve audiências satisfatórias e foi a primeira de muitas no currículo do argumentista.

A Roseira Brava seguiram-se Vidas de Sal – cuja vilã Madalena Fragoso foi vivida por Simone de Oliveira – e A Grande Aposta, que conseguiu enfrentar Suave Veneno, a produção brasileira que a SIC transmitia na altura, cuja estreia havia conquistado mais de dois milhões de telespectadores.

Na viragem do século, Tozé Martinho mudou-se para a TVI. Todo o Tempo do Mundo foi a primeira de seis novelas que o autor viria a assinar durante a década de 2000, sendo elas Olhos de Água, Amanhecer, Dei-te Quase Tudo, A Outra e Sentimentos.

‘Dei-te Quase Tudo’ (2005)

No entanto, foi com Dei-te Quase Tudo que Tozé Martinho garantiu o seu lugar na história da televisão portuguesa, ao assinar aquela que se mantém, quinze anos depois, a telenovela portuguesa mais vista de sempre, desde que existem registos. Protagonizada por Pedro Granger e Vera Kolodzig, Dei-te Quase Tudo conquistou uma média de 16,6% de audiência média e 43,6% de quota de mercado, superando os números de Ninguém Como Tu, que já havia sido um grande sucesso.

Em 2007, Tozé Martinho assina A Outra. A história de vingança foi protagonizada por Margarida Marinho, Nuno Homem de Sá, Margarida Vila Nova e Dalila Carmo contou com 180 capítulos, conquistando mais de dois milhões de telespectadores no seu último episódio – marcando 22,5% de audiência média. Anos mais tarde, a produção foi reexibida nas tardes da TVI e voltou a garantir a liderança absoluta.

Sentimentos foi a novela que se seguiu, mas se A Outra é das novelas mais lembradas da ficção portuguesa, o mesmo não se pode dizer da produção que colocou Joana Solnado no papel principal, que nunca conquistou os números desejados pela TVI, acabando por transitar para a última faixa do horário nobre.

Fernando Serrano foi a protagonista de ‘Louco Amor’.

A fechar o currículo, dois anos mais tarde, Tozé Martinho assinou Louco Amor, protagonizada por Fernanda Serrano e Nicolau Breyner, com quem já havia partilhado diversos projetos. A telenovela da TVI estreou a 6 de maio de 2012, anunciada como “a novela do ano“, registando na estreia uma audiência média de 16,1%. Porém, com a estreia do remake de Dancin’ Days na SIC, escrita por Pedro Lopes, Louco Amor não aguentou e tornou-se a primeira novela da TVI a perder para uma novela portuguesa da SIC, acabando mesmo por ceder o primeiro lugar à novela protagonizada por Joana Santos. Ainda assim, a TVI considerou-a um êxito de audiências, terminado com uma média superior a um milhão e 100 mil telespectadores.

Em 2013, Tozé Martinho largou o lápis, mas não largou os ecrãs. Em 2018 fez uma participação na série Sara, da RTP1, onde interpretou Afonso D’Orey.

Ao longo de 72 anos e mais de 37 de carreira, Tozé Martinho inscreveu-se na história da televisão portuguesa e da ficção nacional, sendo responsável por inúmeros sucessos da teledramaturgia e por inúmeros papéis que o mesmo representou. Exímio a escrever histórias, Tozé Martinho tem agora um lugar na História da Televisão.

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