Dois Papas

Crítica: ‘Dois Papas’, uma aliança maior que a vida

Chegou à Netflix pouco antes do Natal. Este domingo (9), chega aos Óscares e pode levar alguma estatueta para casa. Polémico e desconcertante, Dois Papas é um dos melhores filmes já feitos para o streaming. 

Quando pensamos em cinema, Netflix não costuma ser propriamente a primeira palavra que nos vem à cabeça. Talvez porque o cinema ainda vive – na nossa memória – dependente das salas, mas a realidade é que todos os ecrãs ajudaram a transformar a ideia que temos sobre o filme enquanto peça cinematográfica.

Giuseppe Tornatore – realizador de Cinema Paraíso – mostrou-nos, durante uma das cenas mais belas da obra, o caráter universal do filme, quando Alfredo desviou a projeção de um dos filmes para um prédio da pequena aldeia de Itália. O realizador pretendia mostrar que o cinema e o filme são coisas autónomas e livres. E a Netflix, anos mais tarde, comprovou-o.

É impensável falar de cinema netflixiano sem referir Roma. A obra de Alfonso Cuarón permanece, até agora, como a obra-prima da produtora e não me parece que seja esquecida tão depressa. Dois Papas, no entanto, relembrou-nos que a Netflix merece um lugar nas cerimónias de entregas de prémios, pois não é todos os dias que o cinema mundial é presenteado com pérolas como a obra do brasileiro Fernando Meirelles.

Anthony Hopkins interpreta o Papa Bento VXI.

Focado na relação de Papa Francisco com o Papa Bento XVI, Dois Papas mostra-nos que a religião pode unir, mas que nunca junta sem separar. De visões totalmente distintas – um conservador e outro mais progressista – Ratzinger e Bergoglio vão percebendo que têm mais em comum do que pensam, à medida que uma das maiores revoluções de sempre da Igreja Católica caminha a largos passos para o seu momento.

Dois Papas é um filme que merece reflexão. Gera debate e não se escreve em linhas consensuais. Porém, não pode ser levado muito a sério, por não se tratar de um trabalho jornalístico ou minimamente investigativo. É ficção, por muitas semelhanças que encontre com a realidade. Apesar disso, a obra de Meirelles apresenta-nos um retrato intimista de duas das figuras mais influentes do nosso tempo e que, na verdade, são um mistério para muitos de nós.

Tecnicamente, não há um único defeito no filme de Fernando Meirelles. A fotografia é cativante e belíssima, acompanhada de diálogos que nos enriquecem a experiência. Há uma atenção ao detalhe na obra; nada saiu do campo da percepção do realizador, deixando-os sempre na expectativa de crescendo. Para alguns – contudo – a obra pode ser perigosa.

Anthony Hopkins e Jonathan Price estão ambos nomeados ao Óscar nas categorias de Melhor Ator e Melhor Ator Secundário.

Ratzinger teve um papel difícil e injusto. Substituía um dos Papas mais acarinhados pelo povo e sabia, de antemão, que o seu passado seria esmiuçado por aqueles que acreditam que a Igreja já viu melhores dias e que deveria abandonar o seu estatuto. Sabia que o seu papel enquanto Homem seria discutido e que a sociedade, por muito calorosa que fosse, saberia ser fria e ríspida quando o estranho chegasse. Mas nunca desistiu, embora a obra o veja como uma atitude ambiciosa e até, em alguns momentos, gananciosa. O mais importante, no entanto, foi a sua desistência, que não só o deixou preso à História, como permitiu a chegada de Francisco, um Papa com novas visões e amado por todos, depois de tanto ter amado em vida.

Os eventos retratados em Dois Papas não podem – de qualquer modo – ser aceites como verdades indiscutíveis, já que nada comprova que, por exemplo, Francisco saberia da renúncia de Bento VXI antes do tempo. Ainda assim, este encontro papal é delicioso de se assistir.

Anthony Hopkins oferece-nos, vários anos depois, uma das suas melhores atuações da carreira, enquanto Jonathan Price nos faz questionar o porquê de nunca ter sido considerado um dos grandes. Porém, é certo que agora o é.

Curioso, polémico e envolvente, Dois Papas é um dos grandes nomeados ao Óscar, cuja cerimónia acontece esta noite em Hollywood.

Título original: The Two Popes
Realização: Fernando Meirelles
Argumento: Anthony McCarten
Elenco: Anthony Hopkins, Jonathan Pryce, Juan Minujín
Género: Biografia, Drama, Comédia
Duração: 125 minutos

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