Nos Óscares de 2016, todas as apostas para Melhor Filme estavam colocadas no épico de Alejandro G. Iñárritu, The Revenantum enorme sucesso de bilheteira protagonizado pelo queridinho de Hollywood, Leonardo DiCaprio. No entanto, e para grande surpresa da maioria do público, quem levou para casa a estatueta foi Spotlight.

Realizado por Tom McCarthy e protagonizado por grandes nomes do cinema como Michael Keaton, Rachel McAdams, Mark Ruffalo, Liev Schreiber e Stanley Tucci, o filme segue a história verídica da secção de jornalismo investigavo Spotlight, do jornal americano The Boston Globe.

Spotlight é um drama autobiográfico sobre a mais antiga equipa de jornalismo investigativo dos Estados Unidos da América, mais especificamente a sua investigação sobre casos sistémicos e generalizados de abuso sexual infantil na cidade de Boston, nos EUA, que acabou por vencer o Prémio Pulitzer Walter em 2003. Walter “Robbie” Robinson (Keaton), Michael Rezendes (Ruffalo), Sacha Pfeiffer (McAdams), Matty Carroll (Brian d’Arcy James) e o supervisor Ben Bradlee, Jr. (John Slattery) compõem a equipa que, pela minúcia que o trabalho exige, leva meses a publicar um artigo.

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Michael Keaton, Liev Schreiber, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, John Slattery e Brian d’Arcy James em “Spotlight”

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É a contratação de um novo editor, Marty Baron (Schreiber), que despoleta a investigação – depois de ler um artigo sobre o encobrimento de uma violação levada a cabo pelo Padre John Geoghan, Baron insiste que o grupo investigue sobre o caso. A investigação avança através de entrevistas, arquivo, longas conversas com advogados e um processo em tribunal leva-os a descobrir que o que achavam ser o caso de apenas um padre desdobra-se, revelando cerca de 90 membros do clero envolvidos em abusos a menores.

A investigação culmina com um artigo publicado, quase um ano depois do seu início, a 6 de janeiro de 2002, tornando públicas todas as alegações contra os padres e a corrupção intrínseca no seio da Igreja, evidente no epílogo textual – o Cardinal que encobriu os casos de abuso foi promovido para a Basillica di Santa Maria Maggiore, em Roma.

Spotlight mostra que, realmente, menos é mais. O filme não brilha por um visual chamativo – é discreto, quase anónimo, atingindo o seu momentum através de seriedade. A trama não é definida por qualquer tentativa de eleger um herói, nem pelo seu branqueamento – a história macabra destes padres e destas crianças (agora adultos) profundamente marcados pelo seu passado nunca é higienizada, mas sim contada exatamente como sucedeu. O elenco destaca-se com atuações brilhantes e sóbrias, e o realizador destaca-se com um trabalho completamente diferente daquele que era o seu registo, comédias preguiçosas como The Cobbler Meet the Parents.

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Michael Rezendes, Ben Bradlee Jr., Sacha Pfeiffer, Walter Robinson, Martin Baron e Matt Carroll na estreia de “Spotlight” | Foto: Eric Charbonneau

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A produção cauta e consistente que é Spotlight destaca-se num mundo onde, cada vez mais, a sinestesia reina. Calculamos desde o primeiro momento do que se trata a história mas o slow burn e a magnitude da história prega-nos ao ecrã até o último segundo. Entre uma lista de excelentes filmes como The RevenantMad Max: Fury Road, The Martian RoomSpotlight vence pela necessidade de relatar um flagelo constantemente repetido mas pouco explorado, pela honestidade com que o conseguiu fazer. Vence por denunciar a corrupção sórdida de uma Instituição milenar e por enfatizar a importância do jornalismo investigativo de qualidade.