O anúncio de um vencedor. Os aplausos da plateia. A subida ao palco para receber a estatueta. Um discurso para encerrar a noite. De repente, um burburinho. Movimentos agitados. Pessoas a ir de um lado para o outro. E, finalmente, um esclarecimento que só lançou mais confusão: Temos o vencedor errado.

Foi assim que sucedeu aquele que talvez seja o momento mais chocante dos Óscares. Em 2017, na 89.ª edição da cerimónia, Moonlight ganhou o prémio de Melhor Filme, mas foi La La Land a subir ao palco primeiro.

Era, afinal, o envelope errado. Uma cópia da categoria de Melhor Atriz, na qual Emma Stone tinha saído vitoriosa, pelo seu papel no musical de Damien Chazelle. Uma edição particularmente bem-sucedida do evento acabou com a melhor reviravolta do seu enredo.

A dias da próxima edição dos Óscares, é importante refletir sobre o porquê de ambos os filmes serem vencedores credíveis de Melhor Filme. Porque é que Moonlight acabou por ganhar. E, já agora, perceber como 2017 pode muito bem ditar os resultados de 2020.

Realidade mais surreal do que o sonho

Vamos acertar e chamar Moonlight ao palco primeiro. O filme de Barry Jenkins acompanha Chiron, um homem negro a viver nos subúrbios de Miami, durante três fases da sua vida: infância (Alex Hibbert), adolescência (Ashton Sanders) e idade adulta (Trevante Rhodes). O protagonista tem de crescer num ambiente hostil, com uma mãe viciada em crack e cheio de inseguranças relativas à sua sexualidade.

A obra de Jenkins é Cinema na sua beleza mais pura. A tendência das produções americanas é  de se focar num argumento propício a interpretações vistosas, para o deterioramento das outras componentes da sétima arte. Não é o caso de Moonlight. Argumento e atuações subtis, mais sensoriais, intrinsecamente ligadas à cinematografia e banda sonora hipnotizantes. É uma experiência audiovisual melancólica e tímida, poderosa e indomável. Um pouco como os traços de personalidade de Chiron.

Só porque não há show-off  no trabalho dos atores, não quer dizer que o elenco não faça um ótimo trabalho. Que o diga Mahershala Ali, vencedor de Melhor Ator Secundário pelo trabalho neste filme. Naome Harris esteve nomeada para o prémio feminino equivalente, mas não alcançou a vitória. E os três atores que representam Chiron fazem através de arte e engenho o que Boyhood não conseguiu.

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A vitória de Moonlight foi uma resposta forte da indústria. Depois do ano anterior ser marcado pelos #OscarsSoWhite, este filme tornou-se o primeiro com elenco totalmente negro a ganhar o grande prémio da Academia. Foi, de igual importância, o primeiro filme com temáticas LGBT+ a alcançar o feito.

Talvez tenha sido esse contexto que permitiu ao filme superar o favorito à vitória dessa noite. No entanto, ao contrário de outros anos, as políticas dos Óscares não afetaram a justiça do prémio. É uma obra fantástica que tem perdurado no tempo pelo impacto da sua história.

Quando Barry Jenkins entrou em palco chocado para receber a estatueta disse que nem nos seus sonhos esta realidade podia ser verdade. A vida superou a ficção do próprio realizador e eternizou Moonlight na história do Cinema e da Academia.

A magia dos velhos tempos

Em anos anteriores podia ter sido vencedor. Assim são os timings da indústria. La La Land é um tributo à velha Hollywood musical. Uma era com muitos esqueletos no armário, mas momentos belos de Cinema. Foi o glamour desses tempos que Damien Chazelle quis recriar e, simultaneamente, modernizar.

Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone), os dois sonhadores que se cruzam em Los Angeles. A cidade ainda hoje é o símbolo de sucesso e da gloriosa vida artística. Para os dois protagonistas é um local com poucas vagas para novos aventureiros. É nesta realidade dececionante que o par tenta alcançar a carreira mágica com que sempre sonhou.

Cada um com uma ambição diferente, o amor que os une não consegue resistir aos sonhos que os dividem. É neste aspeto que La La Land se diferencia dos musicais tradicionais dos anos 50. A fantasia romântica começa em força, mas degrada-se ao longo da narrativa. A segunda metade do filme é muito mais realista que a inicial. E quando as canções regressam, não conseguem escapar às expetativas defraudadas.

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Até agora, Damien Chazelle tem uma temática comum em todos os seus filmes: contos sobre quem vai atrás da sua ambição custe o que custar, às vezes com resultados mais tóxicos, outras com conquistas impressionantes. La La Land é a obra que equilibra o bom e o mau da perseguição dos nossos objetivos de vida. É uma reflexão sobre o amor, o conformismo e do que temos e devemos ou não abdicar.

Ganhou Melhor Realizador, Melhor Atriz, Melhor Banda SonoraMelhor Cinematografia, entre outros. Alguns prémios são mais merecidos do que outros, mas nenhum é descabido. Tal como o filme que acabou por o derrotar no grande prémio, La La Land é uma viagem audiovisual impressionante.

Cábula para 2020?

Para muitos, a História repete-se, ou pelo menos rima. E a poucos dias de mais uma noite de ouro em Hollywood, é impossível não reparar nos paralelos entre 2017 e 2020. Pois é, Moonlight vs La La Land pode ajudar a determinar o resultado de… Parasitas vs 1917. Como? Ora vejamos.

O filme sul-coreano era, até aos Globos de Ouro, o grande favorito. De repente, 1917 surge como o vencedor do prémio de Melhor Filme Dramático – sem Parasite ser elegível para a categoria. A partir desse ponto, a história de guerra de Sam Mendes só tem ganho mais força e é o grande favorito a ganhar.

Porquê? Porque venceu os PGA, prémio dos produtores americanos considerado o maior indicador à vitória nos Óscares, os DGA, prémio dos realizadores americanos, e os BAFTA. Quem é que conseguiu todas estas vitórias, em 2017? La La Land.

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Parasitas de Bong Joon-ho tem arranjado menos prémios, mas é um fenómeno de popularidade. A indústria de Cinema está encantada com a história sul-coreana. E esse aspeto, a narrativa, é dos mais elogiados do filme. Tanto que ganhou o WGA, prémio dos escritores americanos, derrotando o próprio 1917. Quem é que conseguiu esse mesmo prémio, em 2017? Moonlight, tendo ganho igualmente Melhor Argumento Adaptado, nos Óscares.  E já que estamos a falar de estatuetas para escrita, em oito dos últimos dez anos o vencedor de Melhor Filme da Academia venceu um prémio de Melhor Argumento na mesma cerimónia.

As parecenças entre os dois casos são estranhamente evidentes, até nas questões políticas. Tal como o vencedor de 2017, Parasitas seria uma tomada de posição em nome da diversidade. E, por fim, o filme sul-coreano tem algo que Moonlight não tinha. Tem um SAG de Melhor Elenco e os atores são o maior grupo de eleitores da Academia. Tem o favoritismo para ganhar Melhor Edição Melhor Design de Produção.

Há indicações muito fortes de que 1917 será o grande vencedor do próximo domingo. A questão é que são os mesmos indicadores que La La Land tinha antes do sonho de Barry Jenkins ser superado pela realidade. Nada é certo enquanto o envelope não for aberto, mas o choque de 2017 pode muito bem ser uma cábula para 2020.

Moonlight

Parasitas de Bong Joon-ho está nomeado para sete Óscares.