Terrence Malick regressa com um duelo interior do ser humano contra a sua própria consciência; a noção dos seus actos e as implicações das suas decisões como a derradeira salvação ou condenação da alma. Esta é a premissa base de quase três horas de um filme que levanta questões que uma vida inteira não solucionaria.

É quando Franz Jägerstätter (August Diehl), um agricultor austríaco que vive o sonho de uma vida idealizada, é chamado para a recruta por ordem do Reich em 1940, que se defronta com o tormento da sua consciência. Ao retornar para a sua mulher (Valerie Pachner), filhas, lar e comunidade, aquela que até então tinha sido uma existência pacífica e em harmonia perfeita com sonhos e realidade, converteu-se no abalo da hesitação e irresolução. A noção lúcida dos trâmites de uma guerra injusta e incoerente, na qual não se revê, levam à inaptidão de Franz em prestar o juramento de lealdade ao regime de Hitler quando chamado para prestar serviço. As consequências de tal posição eram amplamente conhecidas por todos. Desde a ostracização da família, que tanta amava, por parte da totalidade dos aldeões, ao seu encarceramento, culminando com a sentença final: a sua execução.

É-nos apresentado um protagonista cujo heroísmo não se define pelas suas acções, mas pela abstenção das mesmas. O fardo da sua decisão e o compromisso em viver com integridade as suas crenças e princípios, oscilam lado a lado num rumo cuja única certeza é a responsabilidade que impede sobre as suas escolhas, enquanto portador de livre-arbítrio. As suas convicções cristãs fazem-no sentir-se responsável pelo seu papel na terra, mas é a religião que lhe falha na busca de respostas. O fracasso da Igreja em opor-se ao regime nazi e fraca retórica do amigo e padre da aldeia, deixam Franz à mercê da sua fé e reflexão interior, tão presentes nos protagonistas torturados de Malick.

A estética inconfundível da obra aproxima-se da grandeza de outros trabalhos do autor, como The Tree Of Life e New World, deixando de lado alguns deslizes como Song to Song e Knight Of Cups (casos em que a forma vence sobre o conteúdo). A Hidden Life embala-nos com a nostalgia da técnica do realizador, que observa os personagens de modo poético, como que ansiando pelas respostas que apenas os próprios poderão decifrar. Ângulos amplos e movimentos ondulantes de câmara, como um vaguear num sonho, conferem um maior ênfase às meditações dos intérpretes. Distanciam o espectador da acção física, transportando-o para o cerne da questão e, assim, submetendo-o à própria verdade contemplada pelo filme. A beleza da filmagem funde-se na perfeição com as paisagens verdejantes dos Alpes austríacos, conferindo à Natureza, uma vez mais na sua obra, uma presença de relevo e evidenciando a convicção própria do autor na imprescindibilidade da mesma para o ser humano.

“A Hidden Life”, de Terrence Malick

Não obstante a delicadeza da fotografia, o calvário suportado por Franz não fica para segundo plano. Este é, efectivamente, um filme de guerra, que versa sobre a guerra e sobre as suas implicações para cada um, individualmente. Uma perspectiva atípica no que toca a esta temática e, talvez por isso, imprescindível. Muitas vezes, apenas quando confrontados com cenários inconcebíveis podemos alcançar o pleno entendimento de noções que temos como elementares, tais como coragem, integridade, amor e altruísmo. Franz teve a coragem de ter a atitude correcta e Franziska, sua mulher, o amor e generosidade de aceitar a escolha do marido. Ambos com perfeita consciência daquilo que teriam de enfrentar. Importante salientar, que Franz poderia ter contornado a sua situação, havendo a possibilidade de contribuir como soldado, não necessitando de ser única e exclusivamente em combate. Mesmo assim, estaria a trair os seus ideais, pois tinha absoluta noção de que é apenas ele que se define a si próprio, através do modo como decide viver. E o juramento que teria de prestar implicaria conformar-se com um mundo perverso.

Por diversas vezes oficiais alemães e membros da comunidade religiosa assinalam o alcance que as convicções de Franz não vão atingir, os lugares onde não chegarão e as mudanças que não conquistarão, como meio de o persuadir a aceitar o estado das coisas. Mas Franz nunca aspirou a ser um mártir, tão pouco a converter a humanidade. Apenas escolhe ser fiel à sua consciência e à beleza de um mundo no qual acredita, pois teve o privilégio de nele viver até ao momento.

Um filme que não poderia ser mais relevante à luz de uma era de indefinição, acentuando, com esperança, o impacto que a conduta de cada um pode ter num mundo de escolhas e consequências. Apesar da sua história não ter caído em desmemória (Jagerstatter foi beatificado pelo Papa Bento XVI em 2007), este é um tributo às vozes anónimas que não foram escutadas, aos heróis incógnitos não louvados, mas que salientam que a bravura está ao alcance de todos, mesmo quando a justiça se ausenta.

Artigo da autoria de Inês Bom, publicado originalmente na Comunidade Cultura e Arte