O Campo Pequeno assistiu, no dia 21 de janeiro, ao regresso de Melanie Martinez a Portugal para um concerto que aconteceu quatro anos após a sua estreia em território nacional. Apresentando o seu segundo álbum de estúdio, K-12, a cantora trouxe consigo toda a elevação artística que adveio de um longo período de pausa.

Abraçando a sua forte paixão pela teatralidade, Melanie Martinez criou um espetáculo em que os figurinos extravagantes acompanharam as composições musicais, trazendo ao Campo Pequeno uma constante celebração da excentricidade. Assistiu-se ao desenrolar de uma narrativa fantasiosa que conferiu ao público um pouco mais da visão ambiciosa da artista, que tem vindo a destacar-se pelo seu trabalho a nível musical e visual.

Ao contrário do que estava previsto, a abertura do concerto pela convidada especial Naaz não foi possível. O público foi imediatamente introduzido ao universo de K-12. Através da projeção em vídeo de uma das professoras do mundo imaginativo de Melanie, apresentou-se uma mensagem positiva aos milhares de fãs atentos. Este apoio audiovisual foi sendo intercalado com as várias atuações ao longo da noite, oferecendo aos fãs um total de sete lições de respeito e de amor próprio.

As atuações arrancam e torna-se evidente que a setlist é fiel à tracklist do álbum a apresentar, apostando-se na linearidade e na tentativa de seguir a história de forma coerente. As músicas Wheels On The Bus, Class Fight e The Principal dão início a uma noite tão extravagante quanto performativa. Em todas elas, foi possível testemunhar os elementos que iriam marcar o espetáculo do início ao fim: as coreografias elaboradas, a constante interpretação de todos os bailarinos em palco e a presença de diversos adereços teatrais que complementaram cada momento.

melanie martinez

Fotografia: Tiago Cortez

Lê também: THE STROKES CONFIRMADOS NO NOS ALIVE

Independentemente da música, o palco nunca esteve vazio: houve camas de hospital, tábuas de ferro e mesas escolares. Dispararam-se até aromas de laranja e morango contra o público, ampliando a experiência oferecida. Poucas foram as vezes em que se dispensou o acompanhamento dos bailarinos que respeitaram sempre os papéis a interpretar. “I never signed up for you drama club“, cantou Melanie ao mesmo tempo que provou o seu total domínio das artes cénicas.

As músicas Show and Tell e Strawberry Shortcake foram os momentos que melhor representaram a visão exuberante da artista. Além disso, provaram que Melanie não é, de todo, apologista do lema que afirma que “menos é mais”. Na primeira performance, o palco transforma-se num teatro de bonecas de proporções desmedidas com a cantora a encarnar uma marioneta. Já na segunda, o fenómeno pop surge no topo de um vestido com um tamanho descomunal no formato de bolo.

melanie martinez em Lisboa

Fotografia: Tiago Cortez

Aproximando-se o fim não só do concerto, mas também da viagem pelo álbum, High School Sweethearts e Recess permitiram testemunhar os momentos mais intimistas de toda a noite, com a voz da cantora a revelar alguma emotividade antes da primeira despedida. A coesão estética e narrativa não foi descartada uma única vez.

Lê também: SALVADOR SOBRAL ENTRA NO FILME DE WILL FERRELL SOBRE A EUROVISÃO

No encore, houve ainda tempo para recordar o primeiro trabalho da artista pop. A nostalgia traduziu-se no ardente entusiasmo por parte dos fãs que cantaram Mad Hatter e Alphabet Boy de forma fervorosa. A mesma intensidade repetiu-se em Fire Drill. Esta canção fez apenas parte dos créditos da longa-metragem da artista e colocou fim a uma experiência que combinou um pouco das várias artes performativas.

Melanie é uma contadora de histórias nata. Há contos inerentes à grande maioria dos projetos em que a artista se envolve e as suas atuações ao vivo não são exceção. Mais do que um espetáculo, foi possível assistir à forma como um livro de histórias ganhou vida através de todos os elementos que encheram o palco de magia, de teatro e, acima de tudo, de música.

melanie martinez

Fotografia: Tiago Cortez