Foram anunciadas as nomeações aos Óscares 2020. Com poucas surpresas e alguma falta de diversidade, a lista demonstra-se tão ambiciosa quanto bafienta. O que significam estas nomeações para a indústria de Hollywood? Que caminhos são possíveis de antecipar?

Joker segue na dianteira com 11 nomeações, é seguido depois por três filmes com dez nomeações cada: The Irishman, 1917 e Once Upon a Time… In Hollywood. Os filmes mais nomeados encerram com Jojo Rabbit, Little Women, Marriage Story e Parasitas, todos com seis nomeações cada.

Estas nomeações, anunciadas esta segunda-feira (13) em direto de Los Angeles, revelam-nos uma Academia capaz de aceitar a mudança e pronta para estar na dianteira da inovação, mas revelam também o cansaço de fórmulas passadas e a dificuldade em lidar com um dos grandes problemas que os Óscares enfrentam: a falta de diversidade.

Começando por partes, é importante destacar os claros vencedores destas nomeações. A Netflix prometeu há uns anos – depois de conquistar por completo o mercado televisivo mundial – apontar a sua mira para o cinema.

Lê mais ÓSCARES 2020: ‘JOKER’ E ‘THE IRISHMAN’ À FRENTE NAS NOMEAÇÕES

Chegamos agora a 2020 com 24 nomeações a filmes distribuídos pela gigante americana, tornando-se na distribuidora mais nomeada desta edição dos Óscares. Além da qualidade das apostas Netflix, esta é uma clara afirmação da Academia: ela está cada vez mais virada para novas formas de distribuição cinematográfica e acaba de as legitimar de uma forma quase apoteótica (agora é ver se a noite de 9 de fevereiro confirma também este favoritismo inicial).

O Joker é também outro dos grandes vencedores de hoje e uma aposta da Academia para confirmar a sua abertura a outros géneros menos académicos. Realizado por Todd Phillips – também ele nomeado a Melhor Realizador – estas nomeações coroam um ano de ouro para este filme, depois de ter estreado em Veneza e ter levado consigo o Leão de Ouro.

Além de muitos clamarem esta como uma vitória dos filmes de super-heróis, não podemos também deixar de dissociar o facto de que o filme ganhou o destaque que hoje tem por, precisamente, se afastar das fórmulas mais prosaicas deste subgénero. Muito além de um filme de heróis (ou neste caso, anti-herói), o Joker sobressai como um estudo sobre a solidão, a marginalização e a psique humana. É por este retrato que o filme tem 11 nomeações.

Uma maior abertura a filmes que fogem da lógica anglo-saxónica

Parasitas, filme sul-coreano realizado por Bong Joon-ho, conta com seis nomeações, tornando-se não só o primeiro filme sul-coreano a ser considerado para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro como para a categoria principal Melhor Filme. Estas nomeações, além de muito provavelmente só resultarem na vitória na categoria de Filme Estrangeiro, revelam uma maior abertura que a Academia tem tentado implementar nos últimos anos a filmes que fogem da lógica anglo-saxónica, também num esforço de aumentar a diversidade de histórias, atores, realizadores e línguas. Apenas em dez anos foram três os casos em que filmes de língua não inglesa chegaram à categoria de Melhor Filme: Amour em 2012, Roma em 2019 e agora Parasitas em 2020.

Lê mais ‘PARASITAS’, A ALMA QUE O CINEMA JULGAVA PERDIDA

Mas já que estamos no tópico da diversidade, ou falta dela, os Óscares revelam-se ainda muito dominados pela mesma elite industrial de Hollywood de sempre. As nomeações são o espelho disso. Além de hoje terem dado um significativo passo na aceitação de novas formas de distribuição – com todas as menções à Netflix –, parece muito mais lenta a progressão para a inclusão do talento feminino na categoria de realização, no destaque a atores não brancos ou até da abertura a géneros como o terror.

A falta de diversidade mina esta categoria ano após ano

A categoria de realização é talvez aquela com maiores problemas de raíz. Desde o início dos Óscares (ou seja, há 91 edições) que apenas uma mulher venceu nesta categoria. Colocando as coisas ainda mais em perspetiva, em quase um século de história dos Óscares, apenas cinco mulheres foram nomeadas para esta categoria, contrastando com os cinco homens nomeados apenas este ano. Greta Gerwig, por exemplo, viu o seu filme Little Women nomeado a quatro das seis categorias principais a que um filme pode ser nomeado (Melhor Filme, Melhor Atriz Principal, Melhor Atriz Secundária e Melhor Argumento Adaptado), o que apontaria para uma quase certa nomeação à categoria de realizador, que acabou por cair. Lulu Wang (A Despedida), Kasi Lemmons (Harriet), Lorene Scafaria (Hustlers) e Agnès Varda (Varda) são alguns outros talentos femininos que poderiam encabeçar qualquer lista de melhores do ano.

Ainda sobre a categoria de realização, a Academia tem de rapidamente procurar uma solução mais rápida e eficaz para o problema da representação e da falta de diversidade que mina esta categoria ano após ano. Talvez usar um alargamento ao número de nomeados ao estilo do que fizeram com a categoria de Melhor Filme em 2009, precisamente com o objetivo de aumentar os géneros e a diversidade fílmica dos nomeados ao galardão da noite. Não é o banalizar de uma categoria, mas reconhecê-la como competitiva e que, por isso, deveria também ser bem mais representativa, não se resumindo apenas aos mesmos cinco realizadores de sempre (mas parabéns a Scorsese pela sua 9.ª nomeação).

Outros factos do dia:

As quatro categorias de representação contam apenas com dois nomeados não brancos, entre as 20 pessoas nomeadas (neste caso 19, já que Scarlett Johansson é nomeada duas vezes).

O terror volta a ser completamente esquecido, num ano em que Lupita Nyong’o e Florence Pugh entregam duas performances colossais em Us e Midsommar, desde logo dois filmes que poderiam constar noutras categorias também caso não fossem de um género completamente menosprezado pela Academia, prova de que o Get Out não abriu uma nova porta ao género, mas foi uma antes uma excepção à regra.

Há 53 filmes nomeados em 24 categorias, sendo que há 124 nomeações que foram hoje distribuídas. 65 delas foram entregues aos mesmos oito filmes que estão nomeados à categoria de Melhor Filme.