Manuel Luís Goucha, o popular apresentador de televisão, tem vindo a ter como convidadas no seu programa, nos últimos tempos, pessoas com claras posições LGBTIfóbicas, racistas e xenófobas.

Goucha tem tentado escudar-se por trás da ideia de um “perigoso politicamente correto” e de uma alegada “liberdade de expressão”. Mas, nos últimos dias, após ter tido o indefensável convidado Mário Machado (um condenado fascista), o seu programa matinal, que tem sofrido quebras de audiência após a saída de Cristina Ferreira para a SIC, teve esta semana a atriz Maria Vieira a debitar chavões homofóbicos e transfóbicos em sinal aberto.

Dias depois, foi a vez de dar palco à advogada Suzana Garcia, que defendeu posições racistas e xenófobas quando comentava o assassinato de Luís Giovani, o jovem cabo-verdiano que foi agredido até à morte por 15 indivíduos em Bragança.

Enquanto a Mário Machado foi dada uma plataforma para limpar a sua imagem de criminoso condenado de extrema-direita, já Maria Vieira teve a oportunidade de dizer, frente ao apresentador e de forma atabalhoada, que “aqueles que nasceram para ser heterossexuais, não podes dizer a esse menino que pode ser menina”. Pior, a atriz acha que a proteção das crianças trans e intersexo nas escolas portuguesas “pode ser um caminho para a pedofilia”.

Ora, se há coisa de que evito falar por aqui é sobre pedofilia, porque perpetuar a ligação da pedofilia, uma parafilia sexual, à orientação sexual ou identidade de género de uma pessoa é uma das maiores ofensas que lhe podem fazer. Porque essa ligação é forçada apenas por quem pretende enojar e preocupar quem os oiça e não tenha noção que essa ponte não existe.

Essa é, sim e apenas, uma ponte de ódio e desinformação, sem qualquer base clínica, um insulto gratuito que nos persegue. E persegue até num sketch do PNR, reparem. “Ver na internet” não basta, mas Goucha consegue acrescentar a televisão a esta equação e assim dar destaque a barbaridades no seu programa da manhã. Não existe aqui contraditório possível – que Goucha teima que o faz – porque estes são discursos de ódio contra a liberdade das pessoas.

Não é sequer uma questão de liberdade de expressão, como muitas vezes o apresentador e respetivos convidados tentam alegar, porque preocupar-me-ia muito pouco se a Maria Vieira continuasse a destilar ódio no seu Facebook pessoal como é costume, mas darem-lhe este tempo de antena, este palco, é ser cúmplice daquilo que ela lá foi dizer. E isso é criticável e, acima de tudo, lamentável.

E não esqueçamos que, ironias das ironias, o apresentador processou o programa 5 Para a Meia Noite (RTP) por o ter elegido como a melhor apresentadora da televisão portuguesa num dos seus sketches. A liberdade de expressão, aparentemente, não soou mais alto, mesmo que num claro momento humorístico (a qualidade da piada em si nem importa, mas sim o seu intuito).

Rodear-se de pessoas que continuamente têm um discurso de ódio contra minorias sexuais, raciais ou étnicas é dar-lhes o palco que elas tanto anseiam, é normalizar-lhes o discurso, porque quem vê em casa estes episódios pode pensar que tem ali duas opções de igual seriedade, quando na realidade uma não passa de discurso LGBTIfóbico, racista e xenófobo, com contornos claramente fascistas. Que fique, pois, claro, isto não é sério, isto não é o outro lado da questão ou o contraditório.

Nem a equipa de produção, nem a direção de programas da TVI, nem patrocínios, diretos e indiretos, de toda aquela gente tem algo a dizer sobre o que é ali feito?

Manuel Luís Goucha, sendo, para o bem e para o mal, a cara maior do programa, é assim cúmplice de isto tudo e é prova de que a sua natureza e a sua posição não implicam uma maior sensibilidade e responsabilidade na luta contra preconceitos e fobias. Não é possível lavar as mãos, mais uma vez, de convidadas que destilam ódio em direto, é esta a sua posição e o seu jogo. O do ódio.

Texto publicado originalmente no site Esqrever.