Como costuma acontecer com João Miguel Tavares, o cronista entrou na polémica à bruta e à medida que percebe as asneiras que está a dizer lá começa a investigar. Deve ter perguntado a alguém ou consultado a Wikipedia. Diz ele que a «arte contemporânea operou um corte brutal entre a produção artística e a capacidade de executar técnicas complexas (que está associada a uma ideia de virtuosismo), preferindo investir tudo na semântica.» Ou seja, prefere-se falar a fazer. E João Miguel Tavares, como devia ser evidente, prefere arte que envolva «labor».

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Se JMT lesse mais um bocadinho, poderia chegar a outras conclusões. Alexander Alberro defende, por exemplo, que a arte contemporânea tende a não representar o labor manual, o virtuosismo, no sentido de uma coordenação entre olho e mão, no caso do desenho, pintura, ou escultura, mas o labor administrativo. O minimalismo ou a arte conceptual, de acordo com Alberro, propõem o artista não como um artífice manual mas como o gestor de processos executados por terceiros.

O sucesso da arte conceptual dá-se não apenas devido à dinâmica interna do mundo da arte mas porque representa uma mudança no tipo de trabalho que se valoriza. O minimalismo, a arte conceptual e outros movimentos foram valorizados em grande medida porque novos tipos de empresários concluíram que este modo de fazer arte os representava. O conceptualismo foi apoiado por firmas como a Xerox ligadas à computação e à gestão de informação que viam nos processos algorítmicos destes artistas um tipo de arte capaz de monumentalizar estas empresas.

Ou seja, o monumento de Pedro Cabrita Reis é, independente da sua qualidade, um monumento ao artista como empresário, que gere uma firma incluindo trabalhadores, administrativos, etc. No fundo, no fundo, Cabrita Reis defende e representa quase os mesmos valores que João Miguel Tavares, um conhecido defensor do empreendedorismo e também um investidor e gestor. Quase os mesmos valores. A diferença entre João Miguel Tavares e Pedro Cabrita Reis reside no populismo do primeiro, patente na relação que tenta estabelecer entre labor físico e a ideia mítica de um povo honesto, autêntico.

Nesse aspecto, João Miguel Tavares anda mais próximo de Joana Vasconcelos, uma artista empresária e empresa que, usando exactamente o mesmo processo que Cabrita Reis, tem o cuidado de o ornamentar com símbolos do trabalho manual do povo, bilros, rendas, olaria, louça, piscinas, etc.

Artigo de Mário Moura publicado originalmente na Comunidade Cultura e Arte.